Coleção pessoal de fernanda_santoro
Arrítmica
A arritmia
Ora tira o ar
Ora arde e alumia
O sangue esquenta
Pulsa até arrefecer
Lança chama nas veias
Como o sol no alvorecer
Se na vida te acelera
No ocaso te sepulta
Se o tempo não te espera
Do luto corre à luta
(Fernanda Santoro)
A abertura emocional depende de coragem.
E a coragem é subsidiada não apenas por nossa própria disposição, mas também pela firmeza da rede que nos sustenta, que inclui o ambiente e nossas relações.
Por isso, o ato de escrever pode ser um verdadeiro divisor de águas, na medida em que revelamos (para tudo e para todos) de que matéria somos feitos.
Não podemos atribuir à nossa corporeidade o estatuto de objeto ou de mera coisa, pois ela possui afetividade.
Por isso, é por meio da afetividade que o sujeito humano se coloca como um ser no mundo, junto com os outros semelhantes.
A afetividade é essencialmente relacional.
A qualidade dos afetos é o que baliza os encontros presentes nas relações humanas.
É a potência da afetividade que impõe um enfrentamento real às vulnerabilidades.
Quando os nossos vínculos e nosso senso de pertencimento estão fragilizados, nos sentimos totalmente expostos a riscos de todas as sortes.
Contudo, o afeto é capaz de transformar esses territórios de vulnerabilidade. O acolhimento pode ser como um porto-seguro, onde não nos sentimos à deriva.
Escrever requer coragem, pois quem escreve se expõe, se colocando, assim, em um lugar de real vulnerabilidade.
Pensar em vulnerabilidade significa pensar em fragilidade, mortalidade e finitude.
Nesta altura, podemos compreender a rede de sustentação da vida como o conjunto em que habitam nosso corpo, nosso entorno e nós mesmos.
O escritor deve cultivar a curiosidade como uma semente para ser mais criativo.
Por isso, o "ser fora da caixa" é importante.
É preciso desafiar suposições, revelar caminhos alternativos e abraçar novas perspectivas.
Ser criativo envolve, além de outros aspectos, saber gerar de forma flexível uma pluralidade de ideias e possibilidades a partir de um único estímulo.
Ser curioso consiste em desejar aprender informações novas e eliminar a ignorância, além da vontade de encontrar soluções.
Ou seja, criatividade e curiosidade exigem experimentação.
A criatividade anda de mãos dadas com a curiosidade.
Explorar novidades e questionar são dois traços de curiosidade que estimulam nossa habilidade criativa.
Quando tudo parecer derrota, iremos nos reerguer, ainda que feridos.
Haverá tristeza, mas não será um monólogo: forçaremos que ela dialogue com a alegria, e elas se alternarão.
Se a saudade nos cortar com a ausência, devolveremos a ela a presença embrulhada em forma de lembranças.
Quando a dor descolorir o nosso dia, derramaremos novos potes de tintas sobre a tela.
Para cada último suspiro em uma cama de hospital, uma forte puxada de ar do outro lado da cidade.
Sejamos, portanto, igualmente implacáveis com a morte: adversário à sua altura. Essa é nossa única reviravolta possível.
Assim, deixemos que ela se vista de escuridão para nos confundir.
Em resposta, nós nos vestiremos de vida para envergonhá-la.
A morte será sempre aquela visita indesejada.
E não há mudança de endereço que escape da sua senda. Ela sempre nos encontrará.
Diante da morte, nossa impotência é grafada em letras garrafais. De mãos atadas, acatamos o inaceitável.
É quando a morte se avizinha como uma inimiga dissimulada:
Caminha com uma cortina de fumaça. Até o último fio, pode nos iludir, até que decida se revelar (implacável).
É mestre dos disfarces. Passo na ponta do pé. Som no volume baixo.
Por trás de qual máscara a morte esconde sua face?
Muitas vezes, a morte ingressa em nossa vida de maneira sorrateira, abrupta, súbita.
É despejo sem aviso.
Golpe sem chance de defesa.
Decreto de efeito imediato.
Assim como o corpo faz com os nutrientes dos alimentos, nossa mente também rumina as informações para que possamos assimilá-las.
O aprendizado é, portanto, aquela página do contrato que não pode ser pulada. A ignorância é território de penumbra: só enxerga a luz do sol quem se afasta dela.
O caráter de um pensador consiste em conservar a curiosidade da infância, a vivacidade de impressões, a tendência em enxergar tudo sob o ângulo do mistério e, ainda, em encontrar em qualquer parte surpresas a serem fecundadas.
A informação é o ativo mais valioso da praça. Não à toa, as grandes empresas pagam fábulas de dinheiro para ter acesso a elas. São os “cookies” que todos tivemos de aceitar.
O cultivo do estudo faz mais do que perpetuar sabedoria e recolher a herança dos séculos: o apetite intelectual é o que nos torna mais merecedores das aspirações que carregamos em nós.
É na busca pela verdade, participando do que é universal, que também encontramos o que há, de particular, em nós.
O conhecimento é, então, como um salvo-conduto ou uma palavra-passe para ingressar no território da realização.
