Coleção pessoal de demetriosena

1941 - 1960 do total de 2422 pensamentos na coleção de demetriosena

ESCLARECIMENTO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O sujeito enegrecido
conhecia um bom bocado.
Batia bumbo e pandeiro,
tinha dom de curandeiro,
desfazia mau olhado.
Mas um dia ficou besta;
sabichão; bufão; metido.
Ostentou-se até que os seus
foram todos dando adeus
ao sujeito esclarecido.

BEM OU MAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já briguei contra o mundo e não deu certo;
fui pregar no deserto e foi a esmo;
provoquei multidões mas deu em nada,
minha voz foi partida em mil silêncios...
Descobri que os vilões não são os outros,
afinal me reprimo além do justo,
pois me veto, me susto, e podo as asas
de voar para fora do meu limbo...
Só depois de me amar tal qual mereço
cobrarei o meu preço ao vasto espelho
da magia do cosmo; do infinito...
Ser feliz é o reflexo do interno;
todo céu, todo inferno que se tem
são do bem ou do mal que nos fazemos...

A IDENTIDADE DA POESIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Com o tempo, aprendi a trocar torrão por terra. Hoje sei perfeitamente substituir lugubria e desterro pela velha, boa e poética tristeza. Já não vasculho sinônimos rocambolescos (permita o rocambolismo do termo rocambolesco) para rio, serra e céu. Não aplico aparatos desnecessários e bestas na beleza, que se basta e cabe sem aparatos.
Seja na Rocinha, na roça mesmo, no Leme, nos Guetos da Bahia ou em Veneza, o meu poema já sabe como resvalar. Ele não emperra nem gagueja em seu romantismo (seja ou não de amor). Vai do beco sombrio à realeza, sem os recursos do arroubo; da ostentação; da exclamação tripla e do grito de guerra.
Descobri finalmente, que a poesia é o balneário das letras. Dispensa o cultuado rigor do dicionário, seja na trova; no soneto; no verso branco; na prosa poética injustiçada como poesia pelos poetas de arcádias. Escravos da precisão e da obrigatoriedade. Parasitas da burocracia literária, sem a qual não seriam poetas.
A arte maior da poesia está no se fazer sentir com a mente. No se fazer entender com o coração. E nada disso é possível num poema espremido. Forçado. Cuja leitura é maçante. Cuja construção é rigidamente metódica e mais parece uma tese dividida em versos. Uma sólida equação literária.
Qualquer poema é dotado de personalidade, quando flui naturalmente. Quando seu parto é normal. Se a sua construção é livre, ainda que adote normas. Todo bom verso, igualzinho ao ser humano, tem o mesmo valor, ainda que nasça manco. A poesia, por si só, é especial. Não é dotada de necessidades especiais. É especial.

O QUE SERÁ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sendo amor não se guarde nem preserve
a palavra, o calor do sentimento,
faça o vento soprar nos meus ouvidos
o teor do que ferve no seu todo...
Pode ser que não ache o mesmo sonho,
meu amor não comungue o seu contexto,
mas o texto é mais forte que os olhares;
é a voz que desata qualquer nó...
Saberemos de nós ao nos dizermos
e virá tão somente o que viria;
sendo amor não espere uma certeza...
Sangre o dom, a magia de saber,
desnovele o prazer de sim ou não
que liberta e desvenda o que será...

VÍCIO DE CRUZ

Demétrio Sena, Magé - RJ.

É preciso que os dias venham novos,
cada noite nos guarde pra manhã,
que o afã não desgaste a nossa fé
no futuro, no sonho e nas pessoas...
Precisamos nascer da morte lenta
sempre atenta pro tempo que nos resta,
pra que a vida não perca o seu sentido
nem a fresta que filtra sua luz...
Tudo é velho pros olhos que têm sépia;
temos vício de cruz e o mundo pesa
sobre os ombros de quem brinca de Cristo...
Só se pode viver eternamente
quando a nossa coragem eterniza
um olhar, uma brisa, um bom momento...

PERFEIÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A perfeição não existe para ser alcançada. Só perseguida. Mesmo assim, desistir da perseguição é não viver.

MINHA NOVA LEI

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Decidi que o que sinto requer o seu eco
e que não me darei ante a mão recolhida,
doravante não peco por sonhar sozinho
nem mergulho no caos ao encontro do nada...
Meu olhar quer espelho nos olhos de alguém,
quero chama por chama como troca justa,
nunca mais vou além do sentido que faça
esperar que um afeto me faça viver...
Decretei que suporto sentir solidão;
jamais foi o meu fim me acomodar comigo
e não perco meu chão porque não sou amado...
A partir da partida que repete a dor
deste amor que renasce como nunca sei,
minha lei é gostar um pouco mais de mim...

PRAGA DE NATAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Um forte açoite
corta o silêncio mortal
e sangra os nervos da fé...
À meia noite
o espírito de Natal
vai te puxar pelo pé...

VALIDADE NATALINA VENCIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Dorinha está muito indignada. Seu namorado, Antônio, só lhe deu o presente de Natal no dia 27. Com dois dias de atraso. Não; dois dias, não; três, porque o dia dos presentes não é o 25, e sim, o dia 24; véspera de Natal.
No íntimo, a moça pensou até em perdoar Antônio. Pensou, mas logo retrocedeu. Martelaram mais forte no seu coração, aquelas indagações bem típicas. Tão típicas quanto a ceia natalina e a própria troca de presentes.
Para Dorinha, nada justificava o fato de receber presente quando os outros já tinham recebido. Inclusive o Antônio que ela presenteou, mais do que religiosamente, relogiosamente em dia, com um belo e caro relógio de pulso.
Que história é essa, de presentear a namorada em data vencida? Que ousadia é essa, de um gesto não presenciado pelo coletivo? Que negócio é esse, de amar Dorinha depois que todo o mundo já amou todo o mundo?

NATALINO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Hoje tudo está mais caro.
Deve ser a caridade
do espírito natalino.

FÓRMULA-VIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Os últimos serão simplesmente os últimos. Os ótimos serão os primeiros.

ESPERANDO O CRIADOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Desconfie do riso constantemente aberto. Faça o mesmo em relação ao pranto que nunca se recolhe, de quem jamais confessa que a dor passou. Olhe fundo no espelho de cada olhar... para lá dos olhos que a cara ostenta superficialmente.
Com toda a sua generosidade ou boa fé, mantenha constantemente um pé atrás ante aquela mão que nunca falha. Que sempre tem flores; nunca espinhos... distribui um perdão ilimitado e desconhece a mágoa; o desejo de revanche; o gosto amargo do ressentimento.
Saiba que nenhum lábio dirá somente sim. Que todos os homens e mulheres têm aquela íntima reserva de nãos. Analise nos pormenores, cada sermão que adentra os seus ouvidos. Quando possível, comparando com as atitudes diárias de quem o profere.
Tenha na carga do seu poder de observação e análise, o vigor e a rigidez deste conceito: ame o conjunto, ao amar alguém. Seja capaz de aceitar uma pessoa, mesmo não aceitando as suas falhas de comportamento e caráter.
Só não se deixe ludibriar, "comprando" vício por virtude. Nem se violente, se não der mais para suportar no outro, tudo aquilo que o avilta e faz mal. Que o deixa indignado sem nenhuma perspectiva de encantamento. Ame-se mais do que ao próximo, quando seu instinto de sobrevivência sinalizar.
Eis a máxima natural: o ser humano perfeito não é uma personagem viável para você ou seja lá quem for... é apenas a obra-prima fictícia que não rima com nossa construção... e ainda espera por um criador.

TEMPO DE VIVER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Dizem que tempo é dinheiro. Não; não é. Tempo é vida. E não há quantia capaz de pagar a vida desperdiçada por quem usa o tempo todo para ganhar dinheiro.

PRESENÇA DE NATAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Você trouxe fogueira quase santa,
E no fundo queimou, mas com leveza;
Uma voz que a garganta não explica,
Mas expõe a beleza deste mundo...
Sua grande paixão verteu de leve,
Uma clave de sol de aurora mansa,
Que me deu esperança e fez sonhar
Sem aquele temor de anoitecer...
É verdade que a vida impôs limite,
Cerceou a versão da eternidade,
Pra deixar a visão do paraíso...
Guardarei a profunda recompensa;
Você trouxe a presença mais bonita
Que um afeto sincero tem pra dar...

MORRENTES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A gente vive morrendo.
Se não de medo, é de raiva;
se não de raiva, cansaço.
Quase de verdade,
se morre até de saudade.
Gente morre de fome
(de fato e de nome),
às vezes morre de rir,
de frio e calor
e tanto esperar.
As mortes passam por nós,
como despejo;
também se morre de susto,
ciúme ou inveja;
paixão ou desejo.
De não saber extrair
o bom dos fatos;
o bem do mal.
Por ter preguiça de achar
bem lá na frente,
um pouco atrás,
melhor saída...
o mundo vive doente,
a gente morre demais
pra pouca vida.

INTEIRO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Metade de mim
te venera; idolatra;
te cultua;
vai muito além.
Mas a outra metade...
perdoa, meu bem:
a outra metade também.

PEQUENO POEMA FALASTRÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se a palavra singela é tão bonita,
por que tanto aparato e tanta tinta;
porque trinta palavras que só dizem
o que uma nos basta pra dizer?
Quando a boca sussurra expõe a entranha;
quando grita só mostra o meu pulmão;
o teor do sermão vem quase sempre
numa frase; nas pausas; no silêncio...
Como vou externar este poema
viciado em falar o que não diz,
que me falo que fiz mas veio pronto?
A palavra qualquer que não expus
entre as tantas que aqui se digladiam,
é a cruz de punir o meu excesso...

MUITO PRAZER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se não pode ser pele, paixão, labareda,
seja seda; mornura; contorno; aconchego;
não havendo explosão, arremate ou traslado,
serve sonho pautado; maresia d´alma...
O que temos não pode chegar ao não ter;
somos força do ser; muito acima do estar;
este afeto é de fato e não aceita o nada
em resposta ferida porque não é tudo...
De não termos a vida nos restam vivências
e não sermos o mundo nos faz mundo à parte,
um encarte que o tempo não descartará...
Nosso amor se recicla, se ajusta, se ajeita,
porque tem a receita de não ter que ser;
será muito prazer, seja lá como for...

APESAR DE POETA

Demétrio Sena, Magé - RJ

Dobre a velha linha reta;
eis a máxima, de fato:
é possível ser poeta
sem ser besta, sonso e chato...

MINHA META É A MORFOSE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aprecio mais o zíper
do que a calça.
Gosto mais mais da própria alça
que da caneca.
A soneca me atrai mais
que o sono, em si.
Amo a ideia de que a terra
"transla e rota",
e não amo tanto a terra.
Admiro a cor intensa
que desbota,
e o professor, quando erra.
Sempre fui um desafeto
do sempre ou nunca;
um dia posso não ser.
O tempo voa,
se nasci não foi à toa.
foi pra crescer.
Muito mais do que do ano,
gosto dos meses;
muitas vezes nego a esmo,
mas gosto mesmo
é deste às vezes.
Sou pessoa de gostar
e depois não,
por enquanto estou assim,
porque acho que o começo,
lá pelo meio
tem ou não fim.
...
Aprecio mais a ida
do que o ponto.
Gosto mais de ficar tonto
que alicerçado.
Ir e vir, mudar de rota,
girar em torno,
são escolhas de pessoas.
Não somos broas
que vão ao forno.