Coleção pessoal de demetriosena
SOBRE SER FELIZ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ser feliz é uma questão de ser. Ser, de fato, e ponto final. Não é crochê, ponto cruz nem cestaria. Muito menos desempenho, agonia, escavação afetiva nem show de comportamento.
É algo sem preço. Vem de graça e nasce feito. Já pertence a quem é, por natureza e vocação. Passa pelo desencanto, a frustração e o ranger dos dentes, mas passa. Dá seu jeito e se perpetua. Jamais se rende ás passagens. Às transições.
As alegrias que vemos comumente quase nunca são espelhos da real expressão do ser feliz. Muitas podem ser simplesmente aparelhos; próteses; mecanismos da essência.
Igualmente, a tristeza facial quase nunca depõe com fidelidade sobre a natureza íntima de quem chora. Ser feliz não é o que paira, pousa e faz turismo em nós. É o que mora.
DOR DE CABEÇA D´ÁGUA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Muitos ficam perdidos no coração do tempo que perderam. Presos na palma da mão do destino que julgam ter na mão. Não admitem, gritam vantagens, mas os dentes de alho da boca da noite mordem suas línguas de fogo e as apagam na própria saliva.
Quem vai além da própria ilusão perde as asas do vento. Por isso não escapa do olho do furacão e já não tem habilidade para montar na costa do sol. Gasta inteiramente seus dedos de prosa e só consegue acumular dores de cabeça d´água.
Um dia todos nós olhamos face a face da terra, quanta vida jogamos fora regando a planta do pé ou tomando banho de carne de sol. Sorte nossa, quando não é tarde demais. Quando constatamos que a unha de fome do mundo ainda não devorou as esperanças.
LUZES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Algumas pessoas têm luz própria.
Outras fazem gatos; roubam sortes.
Cabe ao tempo fazer os cortes.
JANELA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se me dou aos teus olhos deste jeito;
se meus olhos te caçam, como vês,
não é caso de ausência do respeito
nem de ser dominado pela tez...
Tenho plena ciência dessas leis
que me vetam de todo e qualquer pleito,
conto sempre até quatro, cinco, seis,
depois levo meu sonho para o leito...
Eu te quero faz tempo; desde o dia
em que vi teu olhar que só me via
como alguém que pros olhos pouco importa...
Sei do quanto é só minha esta novela,
como sei te querer pela janela;
nunca hei de forçar a tua porta...
PASSADO EM BRANCO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Meu olhar frente ao seu direto ao vazio;
rompe o crânio, se livra e não tem nostalgia;
não encontra magia e não revive um tempo
que perdeu em miragens de felicidade...
Sua boca não diz, quando fala comigo;
tão apenas relata o necessário e pronto;
bate o ponto certeiro do assunto formal;
nunca bate com nada que meu pulso marca...
Eu a culpo do mal de não sentir saudade
a não ser da saudade que podia ter
se você se restasse de quem foi outrora...
Dói demais não sentir a mais longínqua dor
pelas cores e os traços que o tempo esvaiu
num amor transformado nesta folha em branco...
EMPREENDEDOR TERMINAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já não há tempo a ganhar.
Perdi todo o meu tempo
não tendo tempo a perder.
TROMBA D´ÁGUA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um olhar assustado
rompe o céu; mesmo cético,
faz uma prece.
Cai muita chuva; parece
que Deus tomou diurético.
PRA VIVER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sempre tente outra vez.
Mantenha o sonho em ação.
Não vale a pena viver
quando se perde o poder
da tentação.
RELAÇO
Estamos juntos de novo.
Retornamos ao ovo
que já foi quebrado,
num esforço espremido
pra nos resgatarmos
dos desgastes... do vento...
Sentimento em reforma,
busca plástica e forma,
funde os restos na fôrma
do ressentimento.
CELEBRIDADES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A diferença entre as celebridades de outrora e as contemporâneas, é que aquelas eram também cerebridades... tinham cérebros. As de hoje, têm célebros. É por isto que são celebridades.
PAPAI E MAMÃE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Certas mães têm natureza total de pai. Amam com praticidade, alguma dureza e um olhar técnico, impessoal para o comportamento do filho. Essas mães não fazem cerimônia nem consideram a hipótese de estarem erradas quando acham (e quase sempre acham) que os conflitos do filho são frescuras; os temores são dramas; os descontentos e opiniões próprias, pura pirraça; os gostos pessoais, mera esquisitice.
Por outro lado, alguns pais têm natureza total de mãe: amam com extremamento e cegueira; com entrega irrestrita; um olhar derretido. Esses pais sempre acham que seu zelo é pouco; é ineficiente. Superprotegem o filho e supervalorizam seus conflitos, temores e descontentos. Respeitam as escolhas e opiniões, e minimizam as esquisitices. São confidentes em potencial.
Cada natureza tem seus excessos e pecados. Ambas cometem erros; distorções de conceitos e olhares. No entanto, são ambas necessárias, se cada uma for exercida a contento. Não deixar buracos. Houver uma interação de lado a lado, gerando a entrega plena do pacote humano que formará o caráter de mais um cidadão imperfeito, porém sadio de afetividade, resolução interna, equilíbrio de caráter e certeza de quem é.
Para que as coisas sejam dessa forma, é necessário que todo filho tenha pai e mãe. Se a mãe for pai, que o pai seja mãe, e vice-versa. Não importa que sejam pais avós, pais tios, adotivos ou pais gays. Um terá que ser pai, o outro mãe, ainda que os papéis estejam trocados. Não sendo assim, até será possível criar um ser humano. Mas na hora de se formar cidadão, esse filho terá que ter a sorte de contar com a própria natureza.
DESCASO DE AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amor magoado, mesmo assim amor;
sem amor que se faça, pois nos falta fome;
que se deixa de lado e deixa o tempo ir,
corroendo as ações que já perderam corpo...
Eu te amo ferido e com amor sombrio;
um adeus ensaiado no temor da hora;
tu me amas com brio que não quer ceder
e não quer desatar os aguilhões aos pés...
É amor apesar do desamor exposto,
da frieza no rosto e do nenhum afago;
dos estragos do tempo, a corrosão do ser...
O descaso de amor que se formou em nós
tem a voz de sentidos que não têm sentido,
mas ainda é amor e nos restou sentir...
A MENINA E O MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A menina oprimida e tratada como santa cresceu. Quando a família perdeu o direito enviesado de separá-la das propaladas "imundícies do mundo", ela quis conferir. Ver se o mundo é tão imundo quanto aprendeu. Se todas as pessoas de fora da sua bolha são de fato perversas, mentirosas e podres.
Viu que o homem que fuma tem o pulmão comprometido, mas o coração, em sua natureza humana, é generoso. Conheceu finalmente a mulher de cabelos vermelhos e tatuagens no corpo, e constatou que a bondade não tem aparência. Que a decência não escolhe a cor dos cabelos nem da pele. Descobriu que a vaidade condenável não estampa ou cobre o corpo. Ela se oculta no coração e se manifesta em atos como preconceito, julgamento e certeza da perdição das almas de quem não comunga o mesmo credo; a mesma visão de mundo e vida; o mesmo caldeirão de filosofias distorcidas e dogmas calcificados. Ao mesmo tempo, descobriu a malícia e a hipocrisia; o rancor e a má fé impregnados em grande parte dos mais contritos, severos e santarrões da elite religiosa que a mantinha no cabresto... ou no redil.
Então a menina já não menina chorou. Estava no mundo e só foi preparada para estar no céu. Teve que travar a grande luta interna para vencer a si mesma e aprender a tratar o próximo como semelhante, apesar das diferenças. Viu, de uma vez por todas, que não estava cercada por demônios. Que as virtudes não são exclusivas da religião, nem os defeitos são inerentes aos não religiosos ou aos que professam outras crenças. Percebeu que o bem e o mal não escolhem grupos e ambientes; estão em toda parte, e seja onde for, somos nós que nos livramos das tentações, por força de caráter, natureza e criação.
Mas a maior tristeza da ex-menina foi constatar o rancor, a intolerância, o preconceito e o julgamento dos seus, desde o momento em que resolveu enxergar com os próprios olhos. Caminhar com os próprios pés. Pensar por conta própria. Correr seus riscos e descobrir que o mundo é bom. As pessoas do bem são muito mais numerosas que as do mal, e nenhuma delas tem uma inscrição na testa ou na palma da mão. Muito menos é conhecida em sua real profundidade, pelos discursos que faz ou o grupo a que pertence.
Mesmo assim, a já não menina e já não oprimida tem esperança de reconquistar a família e os antigos irmãos de fé, sem ter que voltar a ser como antes. Sua esperança na família, é a mesma que aprendeu a ter no mundo, após conhecê-lo pessoalmente, sem as influências do sensacionalismo denominacional.
A MENINA E O MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A menina oprimida e tratada como santa cresceu. Quando a família perdeu o direito enviesado de separá-la das propaladas "imundícies do mundo", ela quis conferir. Ver se o mundo é tão imundo quanto aprendeu. Se todas as pessoas de fora da sua bolha são de fato perversas, mentirosas e podres.
Viu que o homem que fuma tem o pulmão comprometido, mas o coração, em sua natureza humana, é generoso. Conheceu finalmente a mulher de cabelos vermelhos e tatuagens no corpo, e constatou que a bondade não tem aparência. Que a decência não escolhe a cor dos cabelos nem da pele. Descobriu que a vaidade condenável não estampa ou cobre o corpo. Ela se oculta no coração e se manifesta em atos como preconceito, julgamento e certeza da perdição das almas de quem não comunga o mesmo credo; a mesma visão de mundo e vida; o mesmo caldeirão de filosofias distorcidas e dogmas calcificados. Ao mesmo tempo, descobriu a malícia e a hipocrisia; o rancor e a má fé impregnados em grande parte dos mais contritos, severos e santarrões da elite religiosa que a mantinha no cabresto... ou no redil.
Então a menina já não menina chorou. Estava no mundo e só foi preparada para estar no céu. Teve que travar a grande luta interna para vencer a si mesma e aprender a tratar o próximo como semelhante, apesar das diferenças. Viu, de uma vez por todas, que não estava cercada por demônios. Que as virtudes não são exclusivas da religião, nem os defeitos são inerentes aos não religiosos ou aos que professam outras crenças. Percebeu que o bem e o mal não escolhem grupos e ambientes; estão em toda parte, e seja onde for, somos nós que nos livramos das tentações, por força de caráter, natureza e criação.
Mas a maior tristeza da ex-menina foi constatar o rancor, a intolerância, o preconceito e o julgamento dos seus, desde o momento em que resolveu enxergar com os próprios olhos. Caminhar com os próprios pés. Pensar por conta própria. Correr seus riscos e descobrir que o mundo é bom. As pessoas do bem são muito mais numerosas que as do mal, e nenhuma delas tem uma inscrição na testa ou na palma da mão. Muito menos é conhecida em sua real profundidade, pelos discursos que faz ou o grupo a que pertence.
Mesmo assim, a já não menina e já não oprimida tem esperança de reconquistar a família e os antigos irmãos de fé, sem ter que voltar a ser como antes. Sua esperança na família, é a mesma que aprendeu a ter no mundo, após conhecê-lo pessoalmente, sem as influências do sensacionalismo denominacional.
AULAS DE SER GENTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Aprendi a me aproveitar dos mais simples. Tirar partido e vantagem dos humildes. Explorar os de boa fé. Confesso que tenho me dado bem com essa prática, e recomendo o mesmo a todos os espertos de alma; os safos de coração.
Dos mais simples, humildes e de boa fé, absorvi a riqueza de olhar o mundo com ânimo, justamente porque eles existem. E se eles existem, é possível crer na humanidade, pois a beleza de seus pensamentos, virtudes e atos fazem a vida valer a pena. São eles os guardiões do amor e da verdade. Os paladinos da paz e do bem. Mensageiros da luz que nos orienta e guia entre as trevas formadas pelos homens e as mulheres de má vontade.
Os mais simples, humildes e de boa fé são os fortes que os outros pensam que são. Têm a sabedoria que os outros pensam que têm. São tão eles, que, sem querer, confundem os intelectuais; enlouquecem os gênios instituídos que não querem saber ou realmente não sabem que nada sabem.
Tenho andado no encalço desses anjos. Reconheço a distância entre nós, como reconheço que nunca os alcançarei, mas tiro minhas lascas. Aprendo lições. Colo secretamente para passar, mesmo que apertado, nas muitas provas do meu tempo aqui. Tento em vão recompensá-los com um pouco do meu saber empolado; minhas vãs filosofias; o inchaço da letra que me preparou para ser metido a besta. Eles não precisam, mas não fazem desfeita.
Quero continuar em torno dos mais simples. Ser a mosca dos humildes. Parasita nos de boa fé. Desviar indefinidamente para minha conta no vermelho, migalhas ou centavos dos valores humanos dessa gente que tanta gente menospreza.
MINICRÔNICA DA BIRRA HUMANA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
No momento não queres. Por enquanto. É que agora não tem mais graça, porque dá. E dando, é aquele caso... a velha máxima do dá e passa.
Até há pouco, era grande o querer. Querias muito; com força e tino. Entretanto, era destino inatingível. Dos mais distantes. Muito além da mão que se alongava para um rumo abstrato.
Certamente o seu não seria sim, se o mundo inteiro; se a própria vida... se tudo ainda dissesse não.
MINICRÔNICA DA BIRRA HUMANA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
No momento não queres. Por enquanto. É que agora não tem mais graça, porque dá. E dando, é aquele caso... a velha máxima do dá e passa.
Até há pouco, era grande o querer. Querias muito; com força e tino. Entretanto, era destino inatingível. Dos mais distantes. Muito além da mão que se alongava para um rumo abstrato.
Certamente o seu não seria sim, se o mundo inteiro; se a própria vida... se tudo ainda dissesse não.
ESSENCIAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Optei por viver mais.
Por ser capaz
de não correr...
já não quero perder tempo
com não ter tempo
a perder.
