Coleção pessoal de demetriosena

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AMOR DE FESTIM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Ao brincar de nós dois fui solidão,
tive o chão pra fingir que foi o céu,
fui um deus espremido no desejo
de se amar no teu corpo; nada mais...
Formatei o meu sonho em teu tabloide,
fiz a minha geoide nesse cosmo,
pra reinar do meu jeito absoluto
sobre um sonho sem sono pra manter...
Um amor de artifício; fez ruído
e brilhou muito além da consistência,
foi banido entre nuvens de fumaça...
Ser amado foi bom, e mesmo assim
afoguei no meu poço de verdades
as saudades que sempre quis sentir...

ANTIPERSONALISMO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Tenho muito orgulho dos troféus; das medalhas; das comendas, taças e honrarias que não tenho. Das porcarias que nem fui buscar, quando a contragosto recebi notícias de honras aos méritos conferidos equivocadamente aos meus fazeres. Equivocadamente, porque sempre achei que os ringues, as rinhas, os concursos, festivais e torneios coubessem aos que se propõem. Este nunca foi o meu caso, não depois dos anos mais verdes, quando queria vencer ou mudar o mundo.
As lembranças que tenho dos troféus, medalhas, comendas, taças, honrarias e outras porcarias que não tenho, não poderiam ser mais gratas. São lembranças de que jamais venci, subjuguei, superei ou fui considerado superior a outro ser humano que faz, com o mesmo amor, exatamente o que faço. No que dependeu de mim, ninguém nunca sentiu o gosto amargo da comparação e o baque posterior causado por opiniões mais pessoais do que justas ou especializadas, que o teriam desqualificado.
Meu fazer literário é livre. Mesmo quando arrisco as formas fixas da poesia ou a eterna burocracia do artigo. Ao falar de minhas vivências ou das observações do entorno; do que sinto e penso e do que a vida me faz pensar ou sentir, pouco importa: sou exatamente o que escrevo, pelo menos enquanto escrevo, e não me permito ser avaliado em disputas. O meu íntimo não aceita que jurados decidam se pensei ou senti certo, na medida, melhor ou pior do que os outros.

DEPOIS DELA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sinto falta de alguém; pessoa muito querida. Talvez a única inteiramente capaz de me acolher e respeitar como sou. Que jamais confundiu ou censurou minhas esquisitices; meus hábitos e manias menos ortodoxos; a forma crua de ser... inclusive os meus respeitosos desrespeitos.
Quero ter de novo a pessoa mais amiga, desarmada e sincera que já tive ao meu lado. Aquela que sempre correspondeu às minhas manifestações de afeto, sem as distorções, os temores e os cuidados comuns e desnecessários. Esse alguém que me despertava em mim, sem jamais querer me transformar em outro... tirar nem pôr... impor seu jeito e suas leis.
Alguém me devolva o que perdi. Ou a quem perdi. E ao fazê-lo, saiba que há de me devolver ao meu eu... porque toda beleza, magia, leveza e sinceridade que se foram, me levaram pra bem longe de mim... depois dela, nunca mais me vi nas regiões internas ou periféricas do meu corpo.

PERVERSÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sinta o cheiro do belo;
veja o tom do sabor;
coma o gosto da cor;
cheire todos os sentidos
e depois ache a razão
de não dizer sim ou não;
só se deixe perverter...

MURO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Apostava em você pra me aceitar;
não me achar um excêntrico sem rumo;
consentir o meu dom de ser quem sou
e também ser quem é; sem qualquer cisma...
Confiei no seu olho desarmado,
nosso tempo de nunca soube o quê,
mas amado em meu sonho de alguém livre;
que livrasse a minh´alma, o corpo, a mente...
Você foi a esperança em todo o mundo,
no meu mundo voltado pra você;
foi o ser ou não ser que ousei pra mim...
Eu me amava em você mais do que tudo
em que possa firmar a própria estima;
mas me via por ciuma do seu muro...

A CONSTRUÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Uma casa bonita e bem cuidada;
sem poeira, destons ou quadros tortos;
o telhado, a sacada, os móveis finos,
tudo expõe o bom gosto que a demarca...
Tem um quê de nobreza em seu conforto;
na leveza dos passos sobre o piso;
é um porto seguro pra quem sai
com aviso de hora pra voltar...
Mas a casa bonita e bem cuidada
sempre foi um castelo impessoal;
uma casa marcada pelo assombro...
Um escombro de luxo e solidão,
onde amar não combina com seu brilho;
pois só é construção; jamais foi lar...

A IDIOTICE DO SABER ENGESSADO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Não existe argumento contra o discurso embasado na passividade unilateral dos que só reproduzem ou plagiam dados engessados; estatísticas favoráveis à sua conveniência. Essas pessoas têm um temor contínuo de se render às evidências contrárias ao que pensam que pensam, por acharem que o mundo à sua volta os acusará de não terem personalidade. Personalidade que realmente lhes falta, quando mais nada justifica os arroubos mantidos a todo custo; contra todas as provas do seu equívoco e seu empacamento.
Ao decorarem os discursos que julgam torná-los mais imponentes, dando-lhes ares de sofisticação e gravidade, os tolos se decoram de sábios e já não querem desfazer seus trejeitos; suas caras e bocas. Não concebem a ideia de rever conceitos, posturas, visões dos fatos, e mesmo que o façam secretamente, jamais confessariam aos seus admiradores também equivocados. Muito menos aos que sempre pensaram de formas diferentes, embora mais modestas; menos técnicas; e assim, se tornaram os alvos prediletos de seus olhares de viés; suas ironias; seus ares de pretensa superioridade. Suas palestras insistentes e gratuitas nas esquinas, salas de visitas, redes sociais e outros meios que não as contrataram.
Será sempre constrangedor nos vermos forçados a mudar de pensamento, filosofia e postura, depois de já termos ironizado; às vezes constrangido e tratado como idiotas os que não concordaram com os nossos discursos institucionais prontos e decorados... ou plagiados. Especialmente se percebermos que essas pessoas, com toda a simplicidade de seus pensamentos informais, sem dados históricos, estatísticos ou sociológicos, estão certas. Que suas visões pessoais, leigas e despretensiosas são infinitamente mais fundadas e sensatas do que todos os nossos arrotos de intelectualidade; nossos rompantes de conhecedores de história, ou de apenas uma versão raivosa, radical, de esquerda ou direita.
Eis o segredo: não escolhermos cegamente um lado de qualquer questão, pois a verdade é sempre distribuída pelas faces diferentes do todo, como a mentira é. Se só assistimos aos canais de tevê, só lemos os livros e jornais e só ouvimos as rádios que dizem o que desejamos ver, ler ou ouvir, ou correspondem exatamente aos nossos gostos, nossos pretensos níveis de cultura ou conhecimento, seremos sempre robôs. Seguiremos programados por um conceito unilateral. Jamais teremos um leque de opiniões, informações e conceitos para pormos à mesa com as nossas vivências e observações, e tirarmos conclusões próprias.
Flexíveis, abertos às diferenças de pensamento, ao moinho de conhecimentos formais ou informais e às adversidades nas visões de tudo, não seremos os idiotas absolutistas que nunca podem retroceder, porque já se blindaram. Já se tornaram estátuas de quem são. Dessa forma, seria constrangedor para nós eventualmente concluir e confessar que as muitas pessoas ofendidas, diminuídas e ridicularizadas pela nossa arrogância estavam certas o tempo todo.

SONHO GUARDADO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Há um mundo melhor, que não sei onde fica;
Pode ser aqui dentro, pode ser lá fora,
Numa hora escondida no tempo e no espaço,
Na magia dos olhos que desejam vê-lo...
Meu olhar pede as asas que um perdeu
Porque vi tanta coisa e por isso cresci;
Conheci tantos becos e túneis sombrios,
Que deixei minha vida se desencantar...
Mas o mundo melhor sempre deu seus sinais;
Tem um cais escondido em qualquer dimensão
Entre minha emoção e o espaço em redor...
Sou a única nave que pode alcançar
Esse ponto no ar, talvez fundo em meu breu,
Pois o sonho é só meu; ninguém sonha por mim...

MINHA CARA PARATI

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Quase fui morador
de Parati,
mas a minha intenção
chegou logo ao fim...
Afinal descobri
que Parati
não é Paramim.

SUBLIMAÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Apenas duas razões me calam perante uma grosseria, um escárnio, talvez uma desfeita. A primeira é uma indiferença tão profunda, que me dá preguiça de reagir. A outra, é uma espécie altruísmo baseado no afeto piedoso que reconhece a infelicidade à minha frente.
Se eu fosse uma das pessoas que me ofendem ou destratam, não ficaria satisfeito com o meu silêncio; minha passividade. Ao invés disso, ficaria profundamente frustrado, complexado e constrangido.

IRMÃOS; UMA SOCIEDADE FANTÁSTICA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Do que mais gosto quando estou entre meus irmãos, é a certeza de estar entre irmãos. Não há entre nós formalidade ou melindre; temor de nos magoarmos por palavra mal posta ou resposta negativa. Nenhuma ideia, por mais longínqua ou dispersa, da hierarquia de muitos clãs que têm os mais distintos conforme a idade, o grau de instrução, a condição econômica e outros itens. A qualquer instante, um dos nove pode gerar um mal entendido, fazer algo irresponsável na opinião dos outros e provocar uma confusão homérica; um bate boca daqueles. Porém, no dia seguinte não haverá mais mágoa; vítima nem algoz; inocente ou culpado. Distância; silêncio; cerimônia.
As nossas conversas nunca se tornam discursos de alguns, palestras ou aulas de outros, lições de sabedoria ou moral de um de nós. Cada qual tem seu jeito, e nem por isso elegemos protagonistas; antagonistas; coadjuvantes; pontas. Todos portam defeitos e qualidades devidamente assumidos, e nossa mãe nos ensinou a jamais classificar a família por méritos, porque mérito é volátil. Se hoje tenho a razão, no dia seguinte a perderei para outro. E se a família vira uma sociedade comum, gueto e nata mudarão de lado a todo instante, o que há de gerar conflitos profundos; guerras ideológicas sem trégua; preconceitos incorrigíveis.
Entre irmãos não há retórica. Regras parlamentares; reivindicações formais. Evocações de leis, direitos, deveres. Irmãos que se amam não são cidadãos entre si. São irmãos. E assim como volta e meia um se excede, quebra o ritmo, apronta poucas e boas e frustra todas as expectativas, tem até o que faz isso com mais frequência. Mas nesse meio não há fiscais. Apontadores. Árbitros nem juízes para julgar e dar veredito. Todos perdoam, mesmo com xingamentos, protestos e juras de que foi a última vez... mas a última vez é infinita, pois irmãos não têm parâmetros, vantagens ou desvantagens. Brio nem vergonha.
Falo apenas dos irmãos que se amam. Não daqueles que se aceitam nos limites da conformidade. Da organização hierárquica e burocrática. Da comunhão de ideias, ideais, visões de vida, sociedade ou credo. Nem dos que se gostam, respeitam e até se unem por acordos e obediências de ocasiões. Se amo tanto estar com os meus irmãos, é porque o nosso amor se reconhece maior do que todas essas besteiras que fazem da família uma vitrine vistosa, porém desnecessária, enganosa e frágil... e porque decidimos, depois de muitos baques da vida, ser exatamente uma família... não propriamente um clã.

PRECONCEITO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O principal argumento do preconceito gira em torno de: olhe, não é preconceito; é que...

PECADO?

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não é pecado pecar, se o seu pecado não agride, ofende ou prejudica o próximo e a você mesmo.

APRENDIZ DE SER GENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aprendi a voltar dos portões emperrados,
das muralhas que ostentam avisos sinistros,
para ver se outros lados me deixam passar
com alguma estratégia melhor do que a força...
Estudei as verdades que o tempo dispõe,
pra saber com que rostos virão as quimeras;
tolerar as esperas e conter as idas
pelas quais corra o risco de me arrepender...
Hoje sei não saber que direção tomar,
caminhar com cuidado até sentir o chão
aderir ao meu passo; minha caminhada...
Superei a certeza que sempre foi vã,
e deixei de ser fã das respostas do espelho
que mantive na sala de minhas vaidades...

MEIO SIM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Seguiremos esta estrada.
Não te amo mais que tudo,
mas é melhor do que nada...

INDO EM FRENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O passado aquém do muro...
embrulhei o meu presente
em papel de futuro.

SAUDADE PERDIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando amei quem pensava que tu eras,
fui feliz pela minha ingenuidade;
tive a doce verdade sonhadora
que pertence aos romances naturais...
Ao amar uma farsa fiz meu mito;
uma história que sempre quis viver;
pude ser um amante legendário
na medida ideal da fantasia...
Pelas águas de minha ficção,
fui bem fundo e pesquei as emoções
que me deram razão de prosseguir...
A pessoa que amei em quem não és,
já não pousa na tua identidade;
não encontro saudade pra sentir...

SOMBRA DO AMOR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Para Nathalia

Dor não dói sendo minha, se a resgato
da su´alma, do entorno, seu olhar,
nem há mar que me assombre, caso venha
das muralhas que a livrem da invasão...
Quero todo sofrer que se aproxime
dos caminhos tomados por seus sonhos,
cada verso que rime com seu pranto
e as quedas na fila do futuro...
Sangraria os mais fundos ferimentos,
tornaria infinitos no meu ser
os tormentos capazes de abatê-la...
Venham todas as causas da tristeza
compor mesa na sombra deste amor;
minha dor, quando minha, não é dor...

SERES HUMANOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Jamais compartilhei da ideia de que nos momentos mais mais graves de nossas vidas os familiares e amigos que mais poderiam nos ajudar desaparecem. Não é verdade. Os momentos graves nos afastam dessas pessoas que também têm seus problemas cotidianos. E muitas vezes, quando mais precisamos, elas também vivem situações tão ou mais graves do que as nossas, mesmo de naturezas distintas. É aí que faltamos às pessoas queridas que julgamos faltosas, por acharmos que suas condições de ajuda são superiores às nossas.
Valorizo e considero de grande auxílio as manifestações distantes de solidariedade: uma ligação telefônica, um recado, bilhete, mensagem, torpedo... até mesmo aquelas perguntas breves nos encontros casuais e apressados. Confesso que chego a telefonar para dar notícias a quem não as pediu, por acreditar, também neste caso, na diversidade das razões. Tais pessoas podem estar tão constrangidas por desejarem muito, mas não poderem ser presentes, que até lhes falta o ânimo para pedir notícias. Chegam a considerar que serão importunas. Talvez estejam impedidas pelas situações tão ou mais graves, ou por viagens inadiáveis, problemas intrincados no trabalho entre outros que necessitam de ação imediata.
Meu amor será sempre amor pelos familiares e amigos que não puderam ser presentes em alguns momentos cruciais - inclusive os bons - em minha vida. Também abraço e tranquilizo a quem decidiu nem mesmo se manifestar, pelas sinceras razões há pouco expostas. Além de todos os laços que nos unem, somos seres humanos; próximos; semelhantes. Ademais, um ser humano falho e faltoso como só eu sei que sou, nunca está em condições de julgar alguém.

MANHÃ DOURADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Foi-se a madrugada.
com saudades do arrebol...
acendi o sol...