Coleção pessoal de demetriosena
FRUSTRAÇÃO
Só queria lhe dar meu dorso amigo;
ter do seu a resposta natural;
partilhar o perigo; a segurança;
qualquer bem, todo mal que nos rodeia...
Dar meu sonho, amansar a realidade
no seu riso, na sua confiança,
ter a sua saudade junto à minha
quando não estivéssemos por perto...
E queria lhe dar meu corpo amigo,
sem a gasta versão de propriedade
como artigo de compra e possessão...
Quis doar o melhor do não doer,
não roer uma corda social
nem fazer uma bolha pra estourar...
A CRÔNICA DO MURO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Justo quando saio às pressas e não levo a minha câmera, o que raramente acontece, um grande motivo fotográfico assalta os meus olhos, em uma esquina distante. O que me resta é a transcrição paciente, sob os olhares curiosos de quem passa por mim.
Em um velho muro que o tempo castiga sem piedade, com os efeitos do sol, do vento e a chuva, leio a mensagem anônima que disponho a seguir: "Comunico aos familiares e amigos, que já não há mais motivo para sumiço, distanciamento e silêncio. Aqueles meus problemas foram resolvidos, não contraí novos problemas, minha saúde anda perfeita e vou bem, financeiramente. Logo, não existe mais o risco de choradeira e pedidos de socorro, empréstimo e locomoção motorizada. Apareçam; amo vocês.".
Quis fazer uma crônica sobre o assunto. No entanto, seria chover sobre o molhado. A crônica está na própria mensagem, sem necessidade alguma de aplicações ou adornos. Para quem sabe ler o mundo e a vida, cada momento já é uma crônica.
COLCHA DE RETALHOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nascerei outra vez, e dessa feita,
quando passo do meio da jornada,
minha idade serena já se vê
sobre o nada; num lento voo livre...
Tenho medo, mas tudo mostra o fim
que me assalta, me pega pelo meio,
porque veio disposto a me acordar;
quer meu sim; não aceita meu talvez...
Redesenho a jornada, volto ao chão,
me replanto e não sei como será;
quem serei; que será do que já sou...
Foram tantas as mortes, tantas vidas,
tantas idas, atalhos recomeços,
que o que sou é uma colcha de retalhos...
SOBREVIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando o tempo sulcar a minha pele,
corroer as entranhas e a memória,
minha história verter a sua cor
e meus ossos perderem todo cálcio...
Na tardinha do mundo sobre os anos,
no momento em que a vida oxidar,
onde as perdas e os danos derem mostras
dos alqueires finais de meu caminho...
Não me deixem virar um Frankenstein,
pelos cortes, costuras, agonias
por uns dias de vida como esmola...
Quero ser um pardal que pousa e dorme
ou a folha que seca sem alarde;
uma tarde chuvosa que anoitece...
CORAÇÃO DE MÃE
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Não confie na mãe prática;
burocrática;
sempre justa, nunca intensa...
Nessas mães indiferentes,
que amenizam com presentes
a não presença...
Nem confie na mãe próloga,
psicóloga,
segura e cheia de teses...
Nessas mães que dão seus filhos
aos cuidados do talvez
ou dos reveses...
Mas confie na mãe cética;
epiléptica
de perdida e preocupada...
Nessas mães que não têm rumo,
pois dos rumos de quem amam
nem sobra estrada...
E confie na mãe rústica,
sem acústica
pros requintes da razão...
toda mãe de alma e alma,
cujo corpo se perdeu
no coração...
SENTIMENTO CANINO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nosso amor pelo semelhante bem que podia se assemelhar ao amor dos cães por seus donos, que não são semelhantes. O amor dos cães pelo ser humano é incondicional. Eles não admiram nossa esperteza ou inteligência. Não nos idolatram pelo talento, a beleza, muito menos pela posição que ocupamos. Tão apenas nos amam, e não importa se estamos na penúria, para nos seguirem até o fim do mundo e dos nossos dias.
Amor de cão é desses que duram até que a morte ou a nossa crueldade nos separe, pois ele jamais nos deixará, e sempre há de ser grato ao menor carinho. Ao mais breve afago em seus pelos. Ao mais leve roçar de nariz e fuça. Nossos olhos de afeto e o falsete na voz... cães adoram nossos falsetes, pois mostram que estamos bem e de bem com eles. É a nossa expressão explícita, inequívoca e timbrada de chamego.
É neste contexto que sempre deplorei o amor humano... sonho constantemente que, num futuro talvez distante, alcançaremos a graça de realmente viver em um mundo cão... desfrutar de uma vida cadela.
AMIZADE PLATÔNICA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Foram anos de olhares tão só meus,
de carinho isolado, sem resposta,
uma cumplicidade no vazio
de quem gosta e não gosta; só se deixa...
Fui amigo platônico, distante,
mesmo próximo, pleno de presença;
tive afetos restantes dos descuidos
ou de surtos da tua solidão...
Sob as perdas, os danos que sofri,
rabisquei as versões de realidade
que não vi, mas vivi de não viver...
Minha mente seguiu meu coração
sob o vão das imagens afetivas,
e teus nãos me nutriram de silêncios...
SINHÁ MÍDIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quando a mídia descarta seus eternos,
julga próprio matar os imortais,
dá um novo conceito pros valores
e dá novos valores aos conceitos...
É que nada é pra sempre; nem o sempre;
nem o todo se abriga sob tudo;
nada é nada; só nada nessas águas
desses rios que traem seus percursos...
Todos querem limões; não seus bagaços;
até mesmo as rodelas dos mais nobres
logo fedem nos cantos; nas lixeiras...
As pessoas são números, notícias,
referências, negócios, resultados;
mídias amam seus picos de audiência...
TROCA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O que se dá sem querer nada em troca é dinheiro, bem de consumo, presente... no entanto, quando nos damos em forma de carinho, atenção, preocupação e presença, é até possível não cobrarmos... mas é hipocrisia dizermos que não esperamos algum afeto em troca.
JUSTIÇA PREDIAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A justiça tem seus prédios;
ministério; instâncias; varas;
tem guichês; arquivos; gente...
Só não busque, na justiça,
prontidão; boa vontade...
nem justiça, propriamente...
BEM AVENTURANÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Bem aventurados os bem aventurados de fato e por natureza, pois eles nunca precisarão compensar desventuras com bem aventuranças de consolação litúrgica.
MEU PROTESTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Manifesto expressões do meu carinho,
das paixões de que sempre fui capaz,
numa prosa, um poema em desalinho;
no meu sonho irreal do mundo em paz...
Protestar é fazer o que me apraz,
dar aos pés a certeza do caminho,
despertar na minh´alma o que aqui jaz;
ver que a rosa perfuma seu espinho...
Superei a longínqua faixa etária
em que a rua era palco e luminária
dos meus brados; latidos; meu showbiz...
O guerreiro ilusório teve fim;
aprendeu a cavar seu próprio sim;
meu protesto é viver e ser feliz...
MAIS DO QUE TE AMO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Deixarei que me deixes, pois me canso
dos teus ranços, das crostas que te cobrem,
dessa tua mania de tristeza
e teu vício de mágoa e solidão...
Quero a luz, não gostei das tuas trevas,
tenho fome de risos e de céus,
mas me levas ao chão; ao fundo; ao poço;
ao teu osso impossível de roer...
Já não creio no amor como remédio,
e me rendo ao assédio desse adeus
que nos toma de assalto já faz tempo...
Serei livre a partir de te livrar,
escrever outro livro de quem sou
e me amar muito mais do que te amo...
MUTAÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Somos todos mutáveis no tocante a gostos, opiniões, orientações e conceitos... mas quem muda em excesso, e de modo a perder a personalidade, já não é mutável... é mutante.
SOBREVIVÊNCIA HUMANA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ao dar presentes, quaisquer que sejam, nada espero em troca. Nem mesmo agradecimentos expressos ou representados por gestos e olhares. Neste caso, não dou a mínima para tal máxima de que é dando que se recebe.
Mas confesso que não sou tão desprendido assim, se o que dou é presença, carinho, atenção e cuidado. Quando faço isso, dou a mim mesmo, e ao contrário das coisas, o que sai do meu íntimo precisa de reposição.
Em minha opinião, coisas podem ser dadas a qualquer tempo, sem nenhum desejo de retorno. Sentimentos bons, não. Eles têm que ser sustentáveis. Precisam de resposta; reflexo. Do eco necessário à sobrevivência humana.
QUEIMADURA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Começaste a perder o meu afeto
que não tinha critério, início e fim,
porque vias em mim o previsível,
pela brecha notória do costume...
Não me olhavas além da segurança
dessa minha presença pronta e posta,
sem o preço comum aos que se ofertam
pela justa resposta na procura...
Comecei a sair das tuas malhas,
quando as falhas profundas de retorno
se deixaram subir pra superfície...
É a deusa que agora está sem servo;
é o nervo que perde seu entorno;
foi o morno que fez a queimadura...
Prece à mãe
Todo nosso amor,
a saudade, a gratidão,
nossa mente, o ser...
nosso coração.
Toda paz, a luz e o bem,
ontem, hoje, muito além...
Tudo, para todo o sempre...
à mãe.
ERRO ÍNTIMO DE CONCORDÂNCIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eu é túnel sem luz, quando excede o rompante;
um instante que pode nos levar à cruz;
não há eu que nos muna da força do nós,
quando nós nos impedem de chegar ao outro...
É preciso que o eu se desligue de si,
se do ato depende a salvação do ele;
se pra ti é vital; se restitui a voz
que pra vós tem a força do próprio futuro...
Lá no eu se concentram desertos do mundo;
cá no meu, bem profundo, consigo entender
como falta poder, se não saio de mim...
Acharemos a vida se unirmos os eus
em um ninho de sonhos do mundo melhor;
eu é deus que não pode caminhar sozinho...
DENTRO DE MIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
É minh´alma concreta que peca e se perde,
porque perde a noção da força da fraqueza,
põe a sua defesa no ataque do sonho
de viver sensações que só terei assim...
Minha mente acompanha o desejo dos olhos
que me vestem pra mira de minha nudez,
ponho a tez no tempero e me como sozinho
nas caladas vorazes desta solidão...
Um vazio que toco no fundo sem fundo,
uma dor que me chama pra sentir bem forte
o prazer dessa morte que devolve a vida...
Sou arcanjo perdido abandonado ao léu,
que deságua do céu e se vomita enfim...
há um corpo abstrato aqui dentro de mim...
