Coleção pessoal de bodstein
Ideologicamente não duvido de que passaríamos muito melhor sem as religiões. Nenhum de seus maiores líderes fundou igrejas. Mas também reconheço que, para muitos que não conseguem andar com as próprias pernas, as muletas ainda são importantes, ainda precisam que alguém lhes dite o que fazer, já que não conseguem pensar por si mesmos. E é no meio desse medo todo de enfrentar suas verdades que os "fazedores de cabeças" encontram espaço para se multiplicar e encher os bolsos em cima da miséria e da boa fé humanas.
De todas as mazelas que acometem o ser humano, com certeza a ignorância é a pior de todas. O inteligente mal-intencionado pelo menos sabe que, se não agir com prudência, mais cedo ou mais tarde poderá ser apanhado. Já o ignorante tanto se presta a ser colocado na linha de tiro quanto depende de alguém que lhe molde as “verdades” que deverá defender, mostrando-se livre dos limites do primeiro. Daí que é capaz de praticar toda sorte de ignomínias contra seu semelhante sem qualquer traço de culpa, onde julga, sentencia e “faz justiça” em nome das distorções dogmáticas ou doutrinárias que vai acumulando em seu contínuo processo de obscurantismo mental.
Não é difícil distinguir um veículo automotriz de um vagão com aparência de locomotiva, uma suposta capacidade de uma competência real para fazê-lo: O primeiro aposta no status de engenheiros que lhe ofereçam um trilho previamente fixado, ainda que jamais tenha estado na estação de destino; já o segundo vai explorar trilhas próprias sobre algumas alheias que testou por si mesmo, antes de optar pela mais razoável, tendo como norte a visão do destino. Mas, por alguma razão – e paradoxalmente – , a variabilidade da trilha acaba se impondo em relação a aparente firmeza do trilho escolhido pelo primeiro; daí porque em determinado momento do trajeto se descobre servindo de guia para outros que escolheram integrar-se ao comboio que vai se formando atrás dele.
Ovelhas com ascendência sobre as outras, mesmo apequenadas e subservientes ao pastor que as mantém no aprisco em troca da lã, costumam reproduzir a empáfia de seu senhor quando sozinhas com o rebanho já que, entre tantos amedrontados, mostrar-se poderosa insufla o ego de qualquer ovelhinha medíocre.
As relações humanas são como edificações que dependem de alicerces confiáveis que lhes garantam a sustentação: por mais atraente a aparência externa, impossível mantê-las de pé sobre estruturas já condenadas, sendo o desabamento uma questão de tempo. Até palácios levantados sobre pilares mal construídos se transformam em pó quantas vezes se tente reerguê-los. Consolidem-se as fundações, e a construção se mostrará perene.
A fragmentação do planeta - onde sobra covardia e falta autoconsciência - se deve a uma maioria medrosa que nunca irá confrontar o que lhe foi ensinado com a verdade que pode descobrir dentro de si. Assim sempre será mais fácil colocar a culpa no outro que apontou o caminho errado do que assumir as próprias escolhas, principalmente quando falta coragem para enfrentar quem se oponha a elas.
Antes um pastor equivocado do que uma ovelha obediente. A ele sempre caberá o mérito de errar pela própria cabeça; já a ela resta a covardia de não ter que escolher entre erros e acertos.
Você não tem que disfarçar sentimentos legítimos em nome de uma suposta racionalidade, e muito menos deixar de demonstrá-lo em função de uma alegada “postura profissional” sempre que se sentir atropelado em seus princípios. O uso da inteligência emocional nos mostra que é necessário manter a natureza holística onde racional e emocional são partes integrantes e indissociáveis do que somos, de forma a que não precisemos anular sentimentos ou fingir que os deixamos do outro lado da porta. Argumentos que se prestam a atropelar qualquer um dos que integrem nosso esquema de crenças e valores se mostram indefensáveis, já que são direitos inalienáveis da pessoa humana e jamais poderão se constituir em objeto de negociação.
Confiança é como gravidez: não existe “meia confiança”. Sempre que precisamos avaliar previamente um resultado a ser produzido por outrem, invariavelmente a confiança já não se faz presente. A culpa será do outro, certamente, quando seu histórico nos aponta para o motivo; mas quando não existe tal fato gerador, claro está que o problema se deve a nossa própria insegurança. Isso irá requerer uma auto-análise sobre a natureza do poder que desejamos exercer sobre o que nos cerca. E se houver uma intenção real de entendê-lo, pode ser que descubramos que tudo não passa de arrogância, necessidade de dominação ou, no mínimo, soberba disfarçada de “gestão participativa”.
A criatividade humana tem como premissa básica a liberdade, sem o que a essência criadora não consegue desenvolver sua percepção do universo em torno para exercê-la em sua plenitude. Pessoas tolhidas ou acuadas não criam.
Não se chame de "crítica construtiva" uma opinião não solicitada que se apresente como condição para o resultado acontecer. Por definição, “crítica” é a análise de um feito com o intuito de contribuir com sua melhoria. Mas quando exercida sobre o momento da execução arrogando-se o direito de alterar a concepção de seu criador e subtrair-lhe a autonomia, deixa de ser contribuição e passa a ser censura.
O problema maior de não se punir o responsável pelos mal-feitos não reside em não se castigar o malfeitor, mas em legitimar suas ações pelo exemplo passado, onde outros que pensam em seguir o mesmo "modelo de sucesso" obtêm sua confirmação de que vale à pena.
Quem foi que disse que a primeira impressão é a que fica? Conheço quem passou toda sua existência tentando aplicar o golpe perfeito, e na última oportunidade o consegue... E sai como mocinho desfrutando de todas as prerrogativas dos heróis, onde os golpes de uma vida inteira são zerados porque se mostrou bastante convincente no último.
Algumas pessoas não possuem dentro de si qualquer sentido de generosidade ou compaixão para oferecer a outrem um benefício espontâneo que lhes aflora da alma. Até mesmo suas “bondades” são cuidadosamente planejadas para resultar em um ganho mais à frente, onde os favores prestados não passam de investimentos naquilo que já trazem em mente para o período da “colheita”. Depois que o descobrimos tanto o perdão deixa de ser uma virtude como temos certeza de que não lhes fará qualquer diferença, exceto a de poder continuar nos usando.
Posso escolher estar em todos os lugares em que eu veja sentido
Ou ver sentido em todos os lugares em que eu esteja...
Posso optar por fazer um monte de coisas que me deem sentido
Ou dar sentido a cada uma das coisas que faça.
Tem pessoas cujas trajetórias de vida me servem como verdadeiras bússolas, onde cada decisão contra a qual se interpõem me aumenta a convicção de que estou no caminho certo.
Não existe nada mais improvável que a alma humana... E mais inútil ainda é tentar explicá-la. Que nunca se duvide do poder de influência de uma pessoa sobre outra, mesmo quando sua inteligência prognostica o contrário. Daí porque escolher não ter ídolos, nem líderes ou paixões pode ser o caminho do meio que aparece para nos redimir de nossos medos, e talvez a alternativa para a ovelha do aprisco moldada para reproduzir o pensamento de seu pastor.
Quando uma pessoa se mostra feliz mesmo contrariando padrões de felicidade amplamente difundidos, o entendimento mais recorrente é de que ela estaria “mentindo para si mesma”. Vale refletir: não faz mais sentido que ela o creia e se harmonize com tal crença, em vez de se impingir o modelo que os demais defendem às custas de seu bem-estar?
Para entender a felicidade basta aprender a olhar o transcorrer dos anos da mesma forma que o alimento: não é a quantidade que importa, mas sim do quão saboroso podemos senti-lo.
Contrariando várias teorias psicanalíticas, valorizar o recolhimento pode indicar ampliação do significado atribuído às coisas simples em vez de acreditar que todas as importantes estão fora de alcance e precisam ser buscadas em algum lugar. Invertendo o estabelecido, esta incessante necessidade de buscar fora pode apenas indicar a incapacidade de encontrá-las em si – ou de entender formas que escapam aos padrões ditos “normais” de felicidade – enquanto a referência deveria ser o quanto cada qual se sente bem com sua própria receita.
