Coleção pessoal de bodstein
Folgado, dizem, é chegar por último e sentar na janela. Mas esperto mesmo é ter chegado primeiro sem nunca ter sequer limpado a vidraça e usar o mundo pra lhe garantir o lugar nela, pois os que chegam depois irão concluir que também podem desejar o lugar mesmo que nunca tenham tido nas mãos uma flanela.
As pessoas ainda não acordaram para o fato de que a única diferença que os torna realmente incompatíveis é a da intenção: os bem intencionados e os mal intencionados jamais pertencerão a um lado só. No restante, as diferenças são como as peças do xadrez, onde toda questão se resume a ocupar seus respectivos – e necessários – lugares no tabuleiro humano. Casas pretas e brancas, como se sabe, precisam umas das outras para que suas linhas se mostrem visíveis, bem como todos os jogadores possuem as mesmas chances de se revezar na vitória.
De que modo entender sua posição no tabuleiro se ele não fosse todo dividido equitativamente entre casas pretas e brancas? E como imaginar o jogo sem se ter definidas as dimensões das casas que o compõem, se cada peça as desenhasse buscando supremacia no espaço sobre as outras ao longo de toda a disputa?
Dentro de um elenco universal de crenças não professo nenhuma fé maior que a dos meus valores, que não me manipulam com culpas, ensinam-me que eu e meu próximo temos livre arbítrio para nossas escolhas e as ações a partir delas só precisam da consciência como guia.
A diferença do convívio harmonioso em que acredito para essa utopia de que me acusam os envolvidos nas disputas é que, apesar da supremacia que eles arrogam para si, o mundo continuará evoluindo até chegar lá.
Não me submeto a leis divinas nem humanas, mas tão somente às de minha consciência, as quais continuariam me norteando independente da existência de um Deus ou de governos que me sejam impostos com o intuito de tutelar as minhas prerrogativas de escolha.
Os que defendem seus postulados doutrinários como caminho único acreditam-se humildes por se mostrarem inteiramente submetidos à sua fé, imputando aos que não o fazem a pecha de prepotência e presunção. Pode haver, no entanto, maior soberba do que a daqueles que se arrogam possuir a única verdade possível, em oposição a quem se mostra receptivo o bastante para ouvir e tentar entender as de todos?
Aqueles que só nos constrangem o espírito são como arquivos deletados do computador: se abrirmos a lixeira sabemos que os veremos lá, mas para efeito de funcionalidade não existem.
Narcisismo é quando se fabrica uma auto-imagem bem acima do que o resultado oferecido permite comprovar. Autoconhecimento, ao contrário, é tão somente a consciência do quanto se investiu no conteúdo construído de modo a que o resultado, por si só, não precise de outro argumento para dar testemunho do que se é.
Antes de aceitar como real o que te ensinaram, o que lês nos livros ou o que te mostram como verdade, observa os que ainda estão a procurá-la, esforça-te por escutar a tua lógica, questiona todas as tuas dúvidas e te aconselhes com teu coração.
Não há nada mais forte para atestar que estamos vivos do que sermos continuamente solicitados por parte das pessoas que pedem nossa ajuda. Colocando-nos disponíveis temos ampliada a percepção de que permanecemos úteis, produtivos e necessários.
Por mais que a Justiça teime em dar a Verdade para alguém, o Amor ensina que a igualdade não tem lados.
Lembra: a tua FÉ não te presenteia com a prerrogativa da Verdade, e nem as OBRAS a que Tiago se refere são aquelas usadas para combater quem discorde dela!
As redes sociais teoricamente foram criadas para aproximar as pessoas. Mas acabaram transformadas em batalhas campais de egos que buscam impor-se sobre os demais, ou num canal de disseminação de intolerância, escudados no anonimato e no preconceito para atacar tudo o que não têm alcance para entender.
Usar de preconceito para atacar o esquema de crenças e valores de alguém é sempre lastimável. Sustentar, então, que o faz em nome de Deus já se apresenta com degradante, e depõe contra o caráter ou, no mínimo, atesta o desajuste moral de quem assim se posiciona.
Tem quem se veja locomotiva passando por cima de tudo, mas tanto precisa de outros para fixar os trilhos quanto de alguém que atrele os vagões que puxa. Já o automóvel troca os trilhos pela estrada que seu destino aponta, e o comboio que se integra a ele fez a escolha de segui-lo.
A forma de criar um escudo protetor contra as pessoas que nos constrangem o espírito é primeiro criar para nós mesmos as regras de convívio que estabelecemos com elas e em nenhuma circunstância abrir mão delas para que descubram que não podem atingir-nos com sua prepotência, tentativas de insurgência ou poder de intimidação. A segunda medida é definir canais de contato que nos permitam refletir sobre o que nos pedem, avaliar tudo o que possa induzir-nos a erro e escolher com toda cautela as decisões que se mostrarem mais confiáveis.
Tem pessoas cuja vocação para o controle é tamanha que chegam ao nível de querer controlar o conteúdo técnico dos trabalhos dos especialistas que elas próprias contrataram para desenvolvê-los.
Toda escolha implica numa renúncia, como na bifurcação em que o caminho escolhido nos cobra abandonar o outro. Escolher a paz, por exemplo, pode exigir abrir-se mão de coisas importantes, mas que se fizeram menores ao se mostrarem incompatíveis com ela.
