Coleção pessoal de AntonioPrates

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Barba por fazer, sobrancelhas fartas,
olhar de quem sabe as coisas mais sérias;
recorda, no espaço, prazeres e misérias,
as lutas de classes num jogo de cartas...

Assina as passagens de toda a encosta,
com partes de tempo banhado na esperança;
o casal de rolas, aquela criança,
e aquela pergunta que foi sem resposta...

Lá vai destilando, em passos incertos,
tudo o que consome parece estar pago;
caminha, valente, vai pra Santiago,
que já se vislumbra de braços abertos...

A minha imaginação diverte-se em sonhos, na esperança de ser compreendida daqui por cinquenta anos.

Não há nada que faça os fracos tão fortes quanto a fraqueza e a miséria dos outros.

Ninguém nos considera mais inteligentes do que os nossos inimigos.

Sinto a alma vendida,
quando começo a escrever...
E nesta venda assumida,
vendo palavras em vida,
pagam-me quando eu morrer.

Quando a união da tripulação é falsa os ratos tomam sempre conta do barco.

Os fardos são sempre mais leves nas costas dos outros.

Desfarelo aqui dicções,
neste texto em contrapé,
pra plantar em dois talhões
os da boa e os da má-fé.

I
Ao abrir a minha mão,
saltam letras trepidantes,
as mesmas letras que antes
amanhei com o coração…
pula o Z, todo gingão,
com as suas zorações;
rima fome com cifrões,
mete alhos por bugalhos,
e aqui nestes trabalhos
desfarelo aqui dições…

II
Entretanto, o calmo H
junta dez letras, ou mais;
faz caretas às vogais,
cultivando o seu maná…
diz ser fã do que não há,
é um fã do que não é,
como um vento de maré
duvidosa e bailarina,
apregoa o que imagina,
neste texto em contrapé…

III
Encruzado, bem selecto,
diz-me o X, bem divertido,
quase junto ao meu ouvido,
novidades do alfabeto…
E, então, num tom secreto,
denuncia as inflexões
aplicadas nos chavões
inventados a preceito,
que me dão imenso jeito
pra plantar em dois talhões…

IV
Meto algumas consoantes
no alfobre da direita,
mas a esquerda não aceita
gatafunhos circundantes;
planto versos abundantes
com estâncias de banzé;
curto a letras, e até
meto água nas carreiras,
onde cabem nessas leiras
os da boa e os da má-fé.

Quem diz que é sempre feliz
leva a vida a brincar,
e não pensa no que diz
porque é melhor não pensar.

O Inferno? Claro que existe! Deus tira-os do Céu e coloca-os na Terra.

Estamos a um pequeno passo da Inteligência Artificial e a outro da Idade das Cavernas.

Muitas pessoas não sabem, nem querem saber, que a ignorância e a indiferença são o maior problema da nossa sociedade.

Dentro de um fato de trabalho, de uma farda, de um fato de cerimónia ou de outro fato qualquer, somos sempre a mesma pessoa.

Se pouco tens pouco vales, aos olhos daqueles que valem menos do que tu.

Aprendi a gostar de estar sozinho e cada vez gosto mais da minha própria companhia. Sinto-me sempre bem acompanhado.

Deus nos dê o seu perdão
e qualquer coisa divina,
porque as voltas que se dão
são sempre a mesma rotina.

As crianças do meu tempo celebravam o dia de todos os santos, as crianças de agora festejam a noite de todas as bruxas.

Não sei como era ter uma opinião independente no tempo da ditadura, mas em liberdade sei que é muito complicado.