Coleção pessoal de AntonioPrates
Vou fazer de conta que já me esqueci
dos dias mais quentes, das noites mais frias;
mas no fim de contas, o que faço aqui,
neste catavento cheio de avarias...?
Sopram na aragem ventos duma sorte
que tanto dominam laços corrompidos;
e vindos do nada, passam com desnorte
pelo catavento, junto aos meus ouvidos..
Faço que não oiço, porque fiz de conta
que já não sou eu, nem me reconheço;
oiço esses zunidos, com a cabeça tonta,
dou-me ao manifesto, dão-me qualquer preço...
Porém, contrafeito, tão-pouco me valho,
nesta condição, com um ar cinzento;
sou mais um andrajo, pareço um bandalho,
junto ao velho eixo deste catavento.
Sentiu alegria no primeiro dia de escola,
entrou no portão com as grades abertas,
correu destemido atrás de uma bola
cheia de um ar de aversões encobertas...
As outras crianças olharam-lhe a cor,
olharam-lhe os pais com a tal rejeição
que entorna por dia oceanos de dor
e o fez encostar sozinho ao portão...
Sentiu-se confuso, procurou os defeitos
que tinha no corpo, nos pais e na pele,
não viu mal algum a não ser preconceitos
criados por muitos e ali para ele...
E a pura alegria desfez-se em tristeza,
ouviu impropérios com a alma oprimida,
sentiu no momento abalar-lhe a beleza,
que em tantas crianças marcou uma vida.
Os poetas nascem para maçar as estrelas e não as pessoas. E os astrónomos tentam ver como isso é possível.
A especialidade de muitos seres humanos é encobrir as segundas-intenções, como quem encobre a nudez com roupas transparentes.
Quem parte sem me deixar, por uma qualquer razão, vai para outro lugar, mas não deixa de morar dentro do meu coração.
Era noite... Pedi sossego! Pedi para ficar invisível para as almas mal intencionadas. Quase ninguém me via!
No teatro da política, a sensibilidade dos espectadores é sempre um contrapeso para a insensibilidade dos que actuam.
Deram ao povo um lugar com liberdade, sem vazas, sem um céu para sonhar, e de tanto rastejar o povo perdeu as asas.
Se sorrires de improviso toma conta dos refolhos, porque o rosto é impreciso e a verdade de um sorriso só se mostra com os olhos.
Dos muitos amigos que tive nesta vida
recordo de alguns, de outros nem tanto,
uns por puro engano perderam encanto,
e outros serão uma eterna guarida...
São esses que conto sempre pelos dedos,
como um santuário nas horas incertas,
deixando aos demais as janelas abertas,
para que se assomem, sem muros nem medos...
Quando me procuram e me chamam de amigo,
já sei o que querem para lá das janelas,
seus olhos emitem distintas parcelas,
que aprendo nas frestas de cada postigo...
A palavra "amigo" quando é bem lavrada,
por uma charrua sem vãs entrelinhas,
não gosta de pragas, nem de ervas daninhas,
botadas à sorte de um tudo e de nada.
O grande problema da nossa sociedade reside no simples facto de os maus estragarem cada vez mais os bons.
