Coleção pessoal de Amontesfnunes
TRÊS POTE
Saracura, cantou na beira do rio
... Três, potes, três potes
Três potes p'ro rio do norte
... Fazia frio,
no dia de estio...
Saracura desagasalhada,
não tinha sorte.
Antonio Montes
LOROTA
Voote menino, o que, que é isso,
p'ra onde tu vai assim abestado!
Com esse aperriamento todo...
Oxente destraido, não me escutou!
... Cabra da peste, venha cá?!
_ Não posso, não senhô...
To agoniado, indo pra roça
arrancar um pé de macaxeira
para fazer, tapioca e pé de moleque
e outras resenhas.
_ Deixe de lorota, indiota
Infeliz da costela oca...
E para de zunir pedra na água
deixe de aperreio e me traga
A cuia cheia de fava.
Vá num pé, e volte n'outro
você é um abiúdo novo
deixe de abusar, vá as carreira
passe acolá, n'aquele pé de bananeira
e traga também, minha algibeira.
_ Ôxe painho, assim...
alvoroçado mais que o vento
Nem com São Bento, não agüento
hoje, eu não estou arretado
não posso voar nesse estado.
_ Eu já estou com a molesta
deixe d'essa fuleragem toda
calce as alpercata e arroche logo...
Seu bregueço, cheio de miguê
avia! Abusado presepeiro.
Antonio Montes
CONFINAMENTO HUMANO
Nesse quadrado de embargo
a liberdade, eu vivo...
Vivo fechado:
Entre muros arames farpados
cerca elétrica, paredes e grades.
Esse confinamento...
Alerta a minha confiança,
nada de mão,
nada de bom dia, boa tarde
Isso é mesmo de doer a felicidade,
magoa os meus planos de viver...
Essa triste aglomeração das cidades.
Antonio Montes
NOTICIAS QUENTES
Olhe o jornaleiro!
olhe o jornal!
Por ser de hoje, esta quente...
Traz noticias do bem e do mal
aborda as questões do lixo
e a corrupção do hospital.
Abrange pela cidade
o espanto que quer que seja
fala das atrocidades
ate mesmo das igrejas.
'Lá no lixão tem um corpo
e um nenezinho ensacado
o povo estão mesmo locos
compactuando com o diabo'.
A política é um desfruto
dando frutos aos marginais
a coerência esta em bruto
o amar virou carnavais.
O salário todavia pequeno
com um só aumento anual
o povão vive de sereno
tratado como animal.
Olhe o jornaleiro!
Olhe o jornal...
Fala da ficha critica
e da tal corrupção
e os eleito no limpa, limpa
sem caratê para nação.
São chamados de desviadores
levando tudo que tem aqui
depositando lá fora horrores
de din, din do nosso país.
Tem adeptos dos evangélicos
estrupando a direito e a torto
o populismo demográfico bélico
estão tentando parar com aborto.
Trabalha-se dia e noite
para pagar o aluguel
paga-se imposto torto
paga-se também o fel.
Enquanto marido trabalha
vizinha no pula, pula
a vida virou gandaia
e articula pela gula.
Tudo virou prestação
de carro, casa, água e luz
nem vêem que a mão do cão
esta lado a lado com Jesus.
Olhe o jornal...
Olhe o jornaleiro!
O que acontece por aqui
esta acontecendo ao mundo inteiro.
Antonio Montes
CHIBATAS DE VOLÚPIAS
Se me chama com sua chama...
Essa chama que se esparrama
e com sua labareda, me encandeia...
Estapeia-me com seu afago
nessa anciã que me inflama
como lobo na lua cheia.
Se me chama com sua chama...
É essa centelha de fogo de sereia,
as vezes me queima em lance de dama
E se esbalda em nossa cama
como se fosse grãos de areia...
Sob ventos na praia
e chibatadas de volúpia na peia.
Antonio Montes
A BUSCA
Agora que já vim...
Estou aqui assim, mas para ti,
nada... Nada além de mim.
Devolva meus beijos
meus apertos e meus abraços,
devolva-me, meus desejos...
D'aqueles gostos gostosos
dos chamegos e calhamaços.
Devolva-me...
Os carinhos carinhoso
o escondido nervoso
e as horas dos nossos ensejos...
O crepitar tremulo do corpo
aquele enrosco louco
que a muito tempo eu não vejo.
Agora que já vim!
Devolva para mim, apertados...
aqueles fungados molhados
junto ao tempo passageiro
nossos momentos caliente's
o desinibidamente da gente
e os segredos por inteiros.
Agora que já vim, devolva-me...
o outrossim das nossas chamas
a volúpia d'aquela gama
o isolamento do nosso tempo
nos lençóis d'aquela cama,
devolva as frenesias
faça eu voltar n'aqueles dias
aonde vivi alegrias.
Antonio Montes
ESCORREGO NO CHAMEGO
Me escorrego no chamego,
escapulo do meu ego,
Vesgo no meu apego, não négo.
Me apego, como prego
se me levo nesse leve escorrego
fico sonso, fico grego.
As vezes, insisto no perigo
eu existo, eu persisto...
Também, sou filho de cristo.
Se escorrego no meu apego
nesse apego eu me aprégo
no meu prego, me escorrégo.
Nesse eco igual ferro
do meu breque, eu desbeiço
pelo této, pelo beiço e pelo berro.
Antonio Montes
FAMÍLIA, FAMÍLIA
Meu pai,
minha mãe... Família!
Família, mostrou, a minha trilha.
Nesse mundo,
N'essa strelitzia vazia
Esse mar de maresia
essa pia, quanta azia!
Família, minha alegria,
Meu caminho, minha guia
preenchimento d'essa vasilha
vasilha torta, toda esguia...
Família, minha família.
Antonio Montes
PASSAGENS
O que dizer a vocês...
Direi que vida é isso, vida é assim
... Um tempo mais,
outro tempo menos,
um dia somos embalados,
outro dia freados...
Se hoje rirmos muito...
Amanhã choramos.
A vida é isso, isso é vida!
E diante da vida, teremos que esta,
preparados para viver.
Particularmente, eu não culpo...
A mim, a ninguém,
muito menos a você...
Estamos vivos e viver é errar e acertar,
isso é vida!
E diante da vida, não podemos ser iguais,
nem os dedos das mãos podem!
Que feios seriam se fossem.
Avante gente, avante!
Saúde, vamos a luta...
Vamos está, vamos marcar ,
estamos passando, por aqui
vamos deixar as nossas marcas fluir...
Uma vês saindo daqui,
nunca mais voltaremos a existir
nem por segundo...
Momento, minutos hora ou mês
Não se esqueça que...
Só se vive uma vês.
Antonio Montes
NA LUA
Ih!!! Tem muito lugar p'ra ir
e eu vou... Vou sair daqui
vou por ai...
Quem sabe se lá p'ra onde,
se, a pé, ou se, de bonde.
Aonde a gente se esconde?
Sozinho , ou com o conde?
Eu não sei se vocês, mas...
Tudo que sei de mim,
É que estou, próximo do inicio
e muito mais do fim,
e que, qualquer dia
... Desse mês...
Chegará a minha vês
E eu... Há, eu vou sair por ai,
com aquele velhos giz...
Colocando pingos nos is.
Antonio montes
ATERRO-ME
Nos meus inúmeros erros...
Ou em meu escuso terno
eu me aterro.
Me aterro em silêncio
encapuzado no meu tédio.
Me aterro em meu segredo
ou em meio, dos meus berros.
Quando me aterro em meu aterro
... Eu tenho medo.
Antonio Montes
POETISA BÊBADA
A poetisa bêbada
em sonhos com as favas
bebeu todas suas magoas,
e no tempo medonho
... Magoada, sonhou.
Sonhou com suas trelas
entre cânticos e velas
sonhava vela nas estrelas
o mundo e seu inventor
e voar com seu amor.
A poetisa bêbada...
Bebeu, poucas e boas
e em sua garoa louca
bateu o mal da sua roupa
com sua boca rasgou.
Rasgou o verbo, rasgou frases
Embarcou em sua viagem boa
navegou sobre seus mares
e com poemas e suas penas
encheu a sua velha canoa.
A poetisa bêbada...
Em noite enluarada
debruçou sobre a calçada
chorou seu mundo, seu tempo
e todo seu sentimento
sob o vento, ela jogou.
Das agonias dos seus dias
poetou as suas falas
amarrou-se em fantasias
e das palavras, fez sua casa.
Antonio Montes
SER POETA
Ser poeta é:
Simplificar as fazes e as estações,
amiudar os amores e as saudades,
medir o tempo e as tempestade
ouvir o medo e achar a verdade.
ser poeta é:
Pespontar as pontas e demonstrar
as verdades,
ser feliz mesmo quando as flechas
apontam para a sagacidade.
Ser poeta é:
Ter sonhos e sonhar
ser sonhador acreditar no amor
adaptar-se a vida e amar.
Antonio Montes
TINTA A PINTA
Toma a tinta, pintor e pinta
... As pintas da minha janela
colorindo-as com essa tinta
do tinteiro sempre d'ela.
Eu já perdi minha cromática
estou sem degrade e sem cor
meu amar, foi uma chibata
que cutelou o meu amor.
Agora perdi o horizonte
e sem o ramalhete do rei sol
não colorearei os montes.
Estou opaco nos rascunhos...
Rabiscos, com altos relevos
sem tato sem ar nem punho.
Antonio montes
A LÍNGUA
Minha língua,
minha dita, me edita,
as vezes medita informal.
Minha língua sem sal
em saliva com sal... palpita,
Por bem, ou por mal.
Essa língua maldita
com sua dita edita...
Um caótico carnaval.
Antonio Montes
NA GAVETA
A minha gaveta velha,
além de rígido para abrir e fechar...
ainda guarda cacos e cacarecos
e grilos que vivem a rondar.
... Peças velhas, recibo de frete
bilhetes de escrito amassado
cartas manchadas, confetes
de um eterno carnaval passado.
Grampos e bob's para cabelos
um broxe estorvando um canto
guarda também um lenço branco
que um dia, enxugou seu pranto.
Pregos, canetas, tachinhas
ate uma meia velha, vi ali,
ali só tem coisas minhas
mas tantas, que nunca vi!
Um enredo de um segredo
segredo que quis preservar
... Preservar, todavia é sedo
para um dia, em segredo chorar.
Antonio Montes
NO FUNDO
No fundo do meu fundo
não consigo me afogar
se no meu, eu afundo
no seu... Não sei nadar.
No fundo queria ir fundo
pela terra, pelo mar
o mundo, do meu mundo
um dia vai se afundar.
Fundo não tem, mais fundo
o que resta e transbordar
se não, com fundo, do fundo
será, na superfície do ar.
Se ta no fundo, afunda
afunda pra não voltar
o tempo não terá cacunda
para que possa se agarrar.
Antonio Montes
FEITO DE CARNAVAL
Menina, aonde você vai,
com essa chuva, fantasia e favas?
_ Eu vou chorar as minhas lágrimas
e mistura - lá a essas águas
para aliviar o sol desse vendaval...
O meu amor cedo, foi embora
eu só passei com ele, horas
da noite do carnaval.
EU VI A LUA
Quando pequeno,
uma noite no meu terreiro
sob o vento, meu inteiro!
Eu olhava a lua...
Tão alta, tão, alva
tão minha...
Tão sua.
Lá nas alturas, muito longe
lua, cavalo, dragão e conde
o mundo ali... Pra onde?
A lua, as vezes se esconde
e vaga por cima do bonde.
Os dois 'mundo e lua'
... Encontram-se nas velhas ruas
e nas fofocas da língua sua.
Quando pequeno, eu olhava a lua...
passeando pelo inverno
rodeada pelas estrelas
as crianças queriam velas
e no meu terreiro, fogueira
fazíamos rodas de verso
ali, segredo e confesso
aos olhos da lua faceira.
'Lua, luar
eu quero viver e crescer
passear pela paixão
ver a flor branca florescer
e o povo abrir as mãos.
Quero ver o mundo em paz
acalentando os inocentes
felicidade estampadas
e risos no rosto da gente.
Quando pequeno, eu olhava a lua...
e sob o vento frio na margem do rio
a lua nas águas, demonstrava seu brilho.
Eu vi a lua e sua clamura
vi seu encanto com pranto
vi no espelho oceânico
chorando as suas lagrimas
e enxugando com seu manto.
Quando pequeno eu vi a lua
toda nova, toda cheia
minguante de pois crescia
espantando as candeias.
Antonio Montes
A CAIXA
Caixa legal!...
D'água de som
de açúcar de sal...
balas e bombons.
Caixa de brita grita!
Com picareta no ar
e a careta até irrita
para a dita se quebrar.
Caixa de show, estressada
com seu eco pelos ouvidos
em grito alto por nada
pelo ar todo estendido.
Caixa d'água fria, boa
sempre à cima, gelo chuva
serenos, nuvens, garoas
caixa de encaixar pessoas.
Remexendo seus segredo
a caixa que guarda magoa
tanta draga que faz medo
fazendo furdunso n'água.
Na caixa d'água o peixe
com seus deixe e queixes
vivendo com enfeite
em mundo, com seus feites.
Caixa de macha que encaixa
na carreira do seu tempo
pela engrenagem da caixa
vai encaixando o momento.
Antonio Montes
