Textos de Clarice Lispector

Cerca de 374 textos de Clarice Lispector

Para termos, falta-nos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência - bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.
Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver.

in A Paixão Segundo GH. pág 152/153

Clarice Lispector

Ah, então era por isso que eu sempre havia tido uma espécie de amor pelo tédio. E um ódio contínuo dele.
Porque o tédio é insosso e se parece com a coisa mesmo. E eu não fora grande bastante: só os grandes amam a monotonia.



Mas o tédio - o tédio fora a única forma como eu pudera sentir o atonal. E eu só não soubera que gostava do tédio porque sofria dele. Mas em matéria de viver, o sofrimento não é medida de vida: o sofrimento é subproduto fatal e, por mais agudo é negligenciável.

in A Paixão Segundo GH. pág 141

in A Paixão Segundo GH. pág 141

Clarice Lispector
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Vê, meu amor, vê como por medo já estou organizando, vê como ainda
não consigo mexer nesses elementos primários do laboratório sem logo querer
organizar a esperança. É que por enquanto a metamorfose de mim em mim
mesma não faz nenhum sentido. É uma metamorfose em que perco tudo o que eu
tinha, e o que eu tinha era eu - só tenho o que sou. E agora o que sou? Sou: estar
de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender,
o material do mundo me assusta, com os seus planetas e baratas.
Eu, que antes vivera de palavras de caridade ou orgulho ou de qualquer
coisa. Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a
palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano - porque - porque
amor é a matéria viva. Amor é a matéria viva?

Clarice Lispector
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Ou estarei apenas
adiando o começar a falar? por que não digo nada e apenas ganho tempo? Por
medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do
que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em que país ela vale.
Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à
enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que
acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do
ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que
há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo?
E porque não tenho uma palavra a dizer.

pág 19/20

Clarice Lispector
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"E "eu te amo" era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa incrustada na parte mais grossa da sola do pé.
Ah, e a falta de sede. Calor com sede seria suportável. Mas ah, a falta de sede.
Não havia senão faltas e ausências. E nem ao menos a vontade. Só farpas sem pontas salientes por onde serem pinçadas e extirpadas. "

Clarice Lispector
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Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão diurna da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.
Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me consolo dessa simples e tranquila alegria? É que não estou habituada a não precisar de consolo.

Clarice Lispector
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O resultado disso tudo é que vou ter que criar um personagem — mais ou menos como fazem os novelistas, e através da criação dele para conhecer. Porque eu sozinho não consigo: a solidão, a mesma que existe em cada um, me faz inventar. E haverá outro modo de salvar-se? senão o
de criar as próprias realidades? Tenho força para isso como todo o mundo — é ou não é verdade que nós terminamos por criar uma frágil e doida realidade que é a civilização? essa civilização apenas guiada pelo
sonho. Cada invenção minha soa-me como uma prece leiga — tal é a intensidade de sentir, escrevo para aprender.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector

Este ao que suponho será um livro feito aparentemente por
destroços de livro. Mas na verdade trata-se de retratar rápidos vislumbres
meus e rápidos vislumbres de meu personagem Ângela. Eu poderia pegar
cada vislumbre e dissertar durante páginas sobre ele. Mas acontece que no
vislumbre é às vezes que está a essência da coisa. Cada anotação tanto no
meu diário como no diário que eu fiz Ângela escrever, levo um pequeno
susto. Cada anotação é escrita no presente. O instante já é feito de
fragmentos. Não quero dar um falso futuro a cada vislumbre de um
instante. Tudo se passa exatamente na hora em que está sendo escrito ou
lido. Este trecho aqui foi na verdade escrito em relação à sua forma básica
depois de ter relido o livro porque no decorrer dele eu não tinha bem clara
a noção do caminho a tomar. No entanto, sem dar maiores razões lógicas,
eu me aferrava exatamente em manter o aspecto fragmentário tanto em
Ângela quanto em mim.
Minha vida é feita de fragmentos e assim acontece com Ângela. A
minha própria vida tem enredo verdadeiro. Seria a história da casca de
uma árvore e não da árvore. Um amontoado de fatos em que só a
sensação é que explicaria. Vejo que, sem querer, o que escrevo e Ângela
escreve são trechos por assim dizer soltos, embora dentro de um contexto
de...
É assim que desta vez me ocorre o livro. E, como eu respeito o que
vem de mim para mim, assim mesmo é que eu escrevo.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector
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Perder- se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei
o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. É?
Também , também.
Fico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida.

Clarice Lispector

Eu fora obrigada a entrar no deserto para saber com horror que o deserto é
vivo, para saber que uma barata é a vida. Havia recuado até saber que em mim a
vida mais profunda é antes do humano - e para isso eu tivera a coragem diabólica
de largar os sentimentos. Eu tivera que não dar valor humano à vida para poder
entender a largueza, muito mais que humana, do Deus. Havia eu pedido a coisa
mais perigosa e proibida? arriscando a minha alma, teria eu ousadamente exigido
ver Deus?
E agora eu estava como diante Dele e não entendia - estava inutilmente de
pé diante Dele, e era de novo diante do nada. A mim, como a todo o mundo, me
fora dado tudo, mas eu quisera mais: quisera saber desse tudo. E vendera a
minha alma para saber. Mas agora eu entendia que não a vendera ao demônio,
mas muito mais perigosamente: a Deus. Que me deixara ver. Pois Ele sabia que
eu não saberia ver o que visse: a explicação de um enigma é a repetição do
enigma. O que És? e a resposta é: És. O que existes? e a resposta é: o que
existes. Eu tinha a capacidade da pergunta, mas não a de ouvir a resposta.

in A Paixão Segundo GH. pág 134

Clarice Lispector
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A barata e eu somos infernalmente livres porque a nossa matéria viva é
maior que nós, somos infernalmente livres porque minha própria vida é tão pouco
cabível dentro de meu corpo que não consigo usá-la. Minha vida é mais
usada pela terra do que por mim, sou tão maior do que aquilo que eu
chamava de “eu” que, somente tendo a vida do mundo, eu me teria.

in A Paixão Segundo GH. pág 122/3

Clarice Lispector

Escuta, diante da barata viva, a pior descoberta foi a de que o mundo não é
humano, e de que não somos humanos.
Não, não te assustes! certamente o que me havia salvo até aquele
momento da vida sentimentizada de que eu vivia, é que o inumano é o melhor
nosso, é a coisa, a parte coisa da gente. Só por isso é que, como pessoa falsa, eu
não havia até então soçobrado sob a construção sentimentária e utilitária: meus
sentimentos humanos eram utilitários, mas eu não tinha soçobrado porque a parte
coisa, matéria do Deus, era forte demais e esperava para me reivindicar.

pág 69 GH

Clarice Lispector

Mas como me reviver? Se não tenho uma palavra natural a dizer. Terei que
fazer a palavra como se fosse criar o que me aconteceu?
Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é
vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não
é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma
criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo -
traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender
para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse
acordada não seria linguagem.
Até criar a verdade do que me aconteceu. Ah, será mais um grafismo que
uma escrita, pois tento mais uma reprodução do que uma expressão. Cada vez
preciso menos me exprimir. Também isto perdi? Não, mesmo quando eu fazia
esculturas eu já tentava apenas reproduzir, e apenas com as mãos.

in A paixão segundo GH pág 21

Clarice Lispector

O pior é que ela poderia riscar tudo o que pensara. Seus
pensamentos eram, depois de erguidos, estátuas no jardim e
ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.
Estava alegre nesse dia, bonita também. Um pouco de febre
também. Por que esse romantismo: um pouco de febre? Mas
a verdade é que tenho mesmo: olhos brilhantes, essa força e essa fraqueza, batidas desordenadas do coração. Quando a
brisa leve, a brisa de verão, batia no seu corpo, todo ele estremecia de frio e calor. E então ela pensava muito rapidamente, sem poder parar de inventar. É porque estou muito nova ainda e sempre que me tocam ou não me tocam, sinto — refletia.

Clarice Lispector

Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão.
É a coisa mais doce que eu já vi, e cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza incompreensível dos outros… E com os pequenos meios que ele tem, com uma burrice cheia de doçura, ele arranja um modo de compreender a gente de um modo direto. Sobretudo Dilermando era uma coisa minha e que não tinha que repartir com ninguém.

Clarice Lispector

“Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido.
Cada vez acho tudo uma questão de paciência, de amor criando paciência, de paciência criando amor.
Esta paciência eu tive: a de suportar, sem nem ao menos o consolo de uma promessa de realização, o grande incômodo da desordem. Mas também é verdade que a ordem constrange."

Clarice Lispector

Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso...

Clarice Lispector
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[...] Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.[...]

Clarice Lispector
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"O que é preciso é não ir demais contra a onda. A gente faz como quando toma banho de mar: procura subir e descer com a onda. Isso é uma forma de lutar: esperar, ter paciência, perdoar, amar os outros. E cada dia aperfeiçoar o dia. Tudo isso está parecendo idiota... Mas até que não é."

Clarice Lispector
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Claro que se o dinheiro falta, se a saúde vacila, se o amor arma alguma cilada, seu desejo de rir será pouco. Mas combata a depressão. Cultive o bom humor, como quem cultiva um bom hábito. Esforce-se para ser alegre. Afaste os sentimentos mesquinhos que provocam o despeito, a inveja, o sentimento de fracasso, que são origem de infelicidade. Adote uma filosofia otimista, eduque-se para ser feliz.(…) Seja feliz, se quer ser bonita!

Clarice Lispector
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