Textos de Clarice Lispector

Cerca de 370 textos de Clarice Lispector

Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi -na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro.

Clarice Lispector
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"Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido."

Clarice Lispector
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Amar nunca impediu que por dentro eu chorasse lágrimas de sangue. Nem impediu separações mortais. [...] O mundo falhou para mim, eu falhei para o mundo. Portanto não quero mais amar. O que me resta? Viver automaticamente até que a morte natural chegue. Mas sei que não posso viver automaticamente: preciso de amparo e é do amparo do amor.

Clarice Lispector
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Não acusar-me. Buscar a base do egoísmo: tudo o que não sou não pode me interessar, há impossibilidade de ser além do que se é — no entanto eu me ultrapasso mesmo sem o delírio, sou mais do que eu quase normalmente —; tenho um corpo e tudo o que eu fizer é continuação de meu começo; se a civilização dos Maias não me interessa é porque nada tenho dentro de mim que se possa unir aos seus baixos relevos; aceito tudo o que vem de mim porque não tenho conhecimento das causas e é possível que esteja pisando no vital sem saber; é essa a minha maior humildade, adivinhava ela.

Clarice Lispector
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O grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade. Tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo; quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é a minha medida.

Clarice Lispector
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Não quero a meia-luz, não quero a cara bem feita, não quero o expressivo. Quero o inexpressivo. Quero o inumano dentro da pessoa; não, não é perigoso, pois de qualquer modo a pessoa é humana, não é preciso lutar por isso: querer ser humano me soa bonito demais.

in A Paixão Segundo GH. pág 157

Clarice Lispector
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Olhar-se ao espelho e dizer-se deslumbrada: Como sou misteriosa. Sou tão delicada e forte. E a curva dos lábios manteve a inocência.
Não há homem ou mulher que por acaso não se tenha olhado ao espelho e se surpreendido consigo próprio. Por uma fração de segundo a gente se vê como a um objeto a ser olhado. A isto se chamaria talvez de narcisismo, mas eu chamaria de: alegria de ser. Alegria de encontrar na figura exterior os ecos da figura interna: ah, então é verdade que eu não me imaginei, eu existo.

Clarice Lispector
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Hoje uma conversa me fez parar e olhar para mim. Uma guerreira sonhadora que estava adormecida dentro de mim, resolver dar uns gritos. Sabe aquele tenso momento que o seu eu começa a conversar com você? E você pensa assim: "Pronto, endoidei!", sabe?
Então, essa garota disse algumas coisas bacanas que eu querida dividir com vocês, vai que ela esteja tentando falar com você também, mas você não consegue ouvir...
Ela disse assim:
"Ei menina, se olha no espelho, para um pouquinho e lembra do ultima cara que você beijou , aquele gato, loiro dos olhos de mar, que te olhava nos olhos e não se cansava de te beijar. Lembra das coisas picantes que ele falou no seu ouvido enquanto você gemia de prazer? E daí que ele não era o seu grande amor? Foda-se esse amor, sinceramente amor não combina com dor, esquece esse cara que não reconhece o seu valor. Tá
bem, não da pra esquecer? Então não esquece, mas volte a viver. Você é linda, lembra dos suspiros no elevador? E aquele seu professor, fala serio, ele é muito mais lindo e sarado que esse seu amor, e boba, ele é louco por você! Você é especial, não deixe nada nem ninguém te fazer esquecer disso. Tem gente que não vive sem o seu sorriso, fica perto de quem te faz bem, te quer bem, te quer de verdade, quer só sacanagem, mas deseja você, é só separar, não deixar se envolver se sentir que vai sofrer.
Esquece as magoas, não se deixe abater. Não é você quem diz que o que não mata fortalece, e o que não é benção é livramento? Então, passa um batom, coloca aquela sua roupa linda, vá ver os amigos, eles adoram você. E quando as lembranças tristes, das feridas, dos amores perdidos, das alianças quebradas, daquilo que não te fizeram sofrer, lembre-se: Triste deve ser a vida, de quem perdeu você!"

Clarice Lispector
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[...]Nada a retinha, nem o medo.
Más mesmo que agora se aproximasse a morte, mesmo a vileza, a esperança ou de novo a dor. Parara simplesmente. Estavam cortadas as veias que a ligavam as coisas vividas, reunidas num só bloco longínquo, exigindo uma continuação lógica, más velhas, mortas. Só ela própria sobrevivera, ainda respoirando. E a sua frente um novo campo, ainda sem cor a madrugada emergindo. Atravessar suas brumas para enxerga-lo. Não poderia recuar, não sabia por que recuar. Pg 179 ( Perto do coração selvagem.)

Clarice Lispector
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"Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de labios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre, mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
"Só horas depois veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar".

Clarice Lispector
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- Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada
para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que
te tirarei ainda vivo daqui - nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos
viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade
agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a
segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me,
faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse.
Como te compensar? Pelo menos também usa-me, usa me pelo menos
como túnel escuro - e quando atravessares minha escuridão te encontrarás do
outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se atravessarei, mas
contigo.

A paixão segundo GH pág 98/99

Clarice Lispector
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Mas é que a verdade nunca me fez sentido. A verdade não me faz sentido!
É por isso que eu a temia e a temo. Desamparada, eu te entrego tudo - para que
faças disso uma coisa alegre. Por te falar eu te assustarei e te perderei? mas se
eu não falar eu me perderei, e por me perder eu te perderia.
A verdade não faz sentido, a grandeza do mundo me encolhe. Aquilo que
provavelmente pedi e finalmente tive, veio, no entanto me deixar carente como
uma criança que anda sozinha pela terra. Tão carente que só o amor de todo o
universo por mim poderia me consolar e me cumular, só um tal amor que a própria
célula-ovo das coisas vibrasse com o que estou chamando de um amor. Daquilo a
que na verdade apenas chamo mas sem saber-lhe o nome.

GH 19

Clarice Lispector
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Jardins e jardins entremeados de acordes musicais. Iridescência ensanguentada. Vejo meu rosto através da chuva. Rebuliço estruído do vento agudo que varre a casa como se ainda estivesse oca de móveis e de pessoas. Está chovendo. Sinto a boa chuvarada de verão. Tenho uma cabana também - às vezes não ficarei no palácio, mergulharei na cabana. Sentindo o cheiro do mato. E fruindo da solidão.

Um sopro de vida

Clarice Lispector
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(...) e vou definitivamente ao encontro de um mundo
que está dentro de mim, eu que escrevo para me livrar da carga difícil de uma pessoa ser ela mesma.
Em cada palavra pulsa um coração. Escrever é tal procura de íntima veracidade de vida. Vida que me perturba e deixa o meu próprio coração trêmulo sofrendo a incalculável, dor que parece ser necessária ao
meu amadurecimento —amadurecimento? Até agora vivi sem ele!
É. Mas parece que chegou o instante de aceitar em cheio a
misteriosa vida dos que um dia vão morrer. Tenho que começar por
aceitar-me e não sentir o horror punitivo de cada vez que eu caio, pois quando eu caio a raça humana em mim também cai. Aceitar-me plenamente? é uma violentação de minha vida. Cada mudança, cada projeto novo causa espanto: meu coração está espantado. É por isso que toda a minha palavra tem um coração onde circula sangue.
Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra.
Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro
do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo
porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito. Mas eu desconheço as leis do espírito: ele vagueia. Meu pensamento, com a enunciação das palavras mentalmente brotando, sem depois eu falar ou escrever — esse meu pensamento de palavras é precedido por uma instantânea visão, sem palavras, do pensamento — palavra que se seguirá, quase imediatamente — diferença espacial de menos de um milímetro.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector
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Me entristeceu um pouco você não gostar do título "O Lustre".
Exatamente pelo que você não gostou,
pela pobreza dele, é que eu gosto.
Nunca consegui mesmo convencer você de que eu sou pobre...
Infelizmente, quanto mais pobre, com mais enfeites me enfeito.
No dia em que eu conseguir uma forma tão pobre como eu o sou por dentro,
em vez de carta,
você receberá uma caixinha cheia de pó de Clarice.


Eu escrevo simples.
Eu não enfeito.

Clarice Lispector
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Ser é além do humano. Ser homem não dá certo, ser homem tem sido constrangimento. O desconhecido nos aguarda, mas sinto que esse desconhecido é uma totalização e será a verdadeira humanização pela qual ansiamos. Estou falando da morte? não, da vida. Não é um estado de felicidade, é um estado de contato.

Ah, não penses que tudo isso me nauseia, acho inclusive tão chato que me torma impaciente. É que se parece com o paraíso, onde nem sequer posso imaginar o que eu faria, pois só posso me imaginar pensando e sentindo, dois atributos de se ser, e não consigo me imaginar apenas sendo, e prescindindo do resto. Apenas ser - isso me daria uma falta enorme do que fazer.


in A Paixão Segundo GH. pág 172

Clarice Lispector
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O que estou sentindo agora é uma alegria. Através da barata viva estou entendendo que também eu sou o que é vivo. Ser vivo é um estágio muito alto, é alguma coisa que só agora alcancei. É um tal alto equilíbrio instável que sei que não vou poder ficar sabendo desse equilíbrio por muito tempo - a graça da paixão é curta.


in A Paixão Segundo GH. pág 171

Clarice Lispector
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Eu às vezes tenho a sensação de que estou procurando às cegas uma coisa; eu quero continuar, eu me sinto obrigada a continuar. Sinto até uma certa coragem de fazê-lo. O meu temor é de que seja tudo muito novo para mim, que eu talvez possa encontrar o que não quero. Essa coragem eu teria, mas o preço é muito alto, o preço é muito caro, e eu estou cansada. Sempre paguei e de repente não quero mais. Sinto que tenho que ir para um lado ou para outro.
Estou viciada nessa extrema intensidade.

Clarice Lispector
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Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos. Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo). Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante - como a de viver. Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é responsável por não ser usado.


Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre uma questão de vida-e-morte.

in A Paixão Segundo GH. pág 150/151

in A Paixão Segundo GH. pág 151

Clarice Lispector
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Eu quero a verdade que só me é dada através do seu
oposto, de sua inverdade. E não aguento o cotidiano. Deve ser por isso
que escrevo. Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é
presente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz
insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável.
Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano é um vício. O que é que eu
sou? sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é
esse que tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e um espírito?
eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu", responde-me o mundo
terrivelmente. E fico horrorizado. Deus não deve ser pensado jamais senão
Ele foge ou eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então Ele age. Pergunto-
me: por que Deus pede tanto que seja amado por nós? resposta
possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós
nos perdoamos. E como precisamos de perdão. Porque a própria vida já vem mesclada ao erro.

in UM SOPRO DE VIDA

Clarice Lispector
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