Chegou ao fim

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O IMPERDOADO.
A infância não chegou como jardim.
Veio semelhante a um corredor austero de vozes severas.
Mãos invisíveis moldaram-lhe os ossos da alma.
Ensinaram-lhe a curvar-se antes mesmo de compreender o peso dos céus.
Disseram-lhe que sentir era fraqueza.
Que o homem digno deveria transformar lágrimas em silêncio.
Que a obediência era mais importante que a verdade interior.
Então ele cresceu.
Cresceu como crescem as árvores atingidas pelo inverno perpétuo.
Fortes por fora.
Mortas em regiões ocultas.
Carregava nos olhos um oceano imóvel.
Os dias passavam semelhantes a procissões de ferro.
O mundo exigia máscaras.
E ele as vestia uma após outra.
O filho exemplar.
O homem disciplinado.
O rosto imóvel diante das tragédias.
A criatura útil diante das engrenagens sociais.
Mas cada renúncia enterrava um fragmento de si.
As cidades iluminavam-se enquanto sua consciência escurecia.
Os salões celebravam triunfos vazios.
Os homens brindavam conquistas sem perceber o abismo que carregavam no peito.
Toda civilização possui seus palácios.
E seus cemitérios invisíveis.
Ninguém ouviu o colapso dentro dele.
Certas dores não produzem gritos.
Produzem desertos.
Durante anos caminhou entre multidões como um espectro filosófico.
Falava pouco.
Observava muito.
Aprendera que o mundo teme aqueles que enxergam excessivamente.
Então certa noite.
Quando os sinos interiores da existência estremeceram sua memória.
Ele viu.
Viu a própria vida semelhante a uma catedral incendiada.
As virtudes impostas.
Os afetos mutilados.
Os sonhos executados lentamente pela disciplina cruel dos homens.
Percebeu que fora domesticado para sobreviver.
Jamais para viver.
E naquele instante o universo tornou-se pesado.
As estrelas pareciam lápides suspensas sobre a humanidade.
O vento possuía gosto de ruína antiga.
Os rostos humanos tornaram-se máscaras fatigadas buscando sentido entre guerras, vaidades e solidões intermináveis.
Então o Imperdoado ergueu-se.
Não como herói glorioso das antigas epopeias.
Mas como sobrevivente metafísico de uma civilização emocionalmente enferma.
Sua revolta não nasceu do ódio.
Nasceu do esgotamento da alma.
Ele compreendeu que muitos homens morrem décadas antes do túmulo.
Que inúmeras existências continuam respirando mesmo depois da destruição interior.
Que existem corpos vivos carregando espíritos exaustos pelas avenidas do mundo.
E chorou.
Não por fraqueza.
Mas porque finalmente encontrou os escombros de si mesmo.
As muralhas emocionais desabaram como impérios antigos.
Toda a dor silenciada regressou semelhante a uma tempestade sepulcral.
As humilhações esquecidas.
Os amores sufocados.
As palavras jamais pronunciadas.
As despedidas jamais compreendidas.
Tudo voltou.
E diante da eternidade indiferente das constelações.
Ele fitou a própria existência e disse silenciosamente.
“Roubaram-me a essência antes que eu pudesse conhecê-la.”
Desde então tornou-se andarilho das sombras interiores.
Não buscava glória.
Não desejava absolvição.
Procurava apenas um fragmento intacto da própria identidade sob os destroços do mundo.
Porque certas almas não desejam vencer.
Desejam apenas não desaparecer completamente dentro daquilo que os homens chamam civilização.
E os céus permaneceram imóveis.
Como sempre permaneceram diante das tragédias humanas.

Aquilo que é óbvio para quem está há vinte anos na empresa, raramente é óbvio para quem chegou hoje.

O caos tardou,
Mas encontrou o caminho de volta.
Chegou sem aviso,
Desfez minhas certezas
E me deixou à deriva.


Ao longe, uma luz.
Caminhei em sua direção,
Arrastando um corpo exausto,
Com os pés marcados
Por caminhos que já não recordava.


Até que avistei você.


Algo em mim despertou.
O peso dos passos diminuiu,
E a esperança, há tanto esquecida,
Fez-me acreditar no resgate.


Continuei.
A cada passo, a luz crescia.
Meus olhos, desacostumados,
Ardiam diante da claridade.
Já não sabia se caminhava
Em direção à saída
Ou apenas ao seu encontro.


Quando enfim pude enxergar,
O túnel terminava.
Você não estava lá.


E percebi que, durante a travessia,
Acreditando seguir seus passos,
Havia caminhado sozinho.


Você era apenas uma miragem.


Mas obrigado.

“Eu já não tinha mais esperança no amor…

Mas você chegou como uma brisa suave.

Entrou devagar na minha vida.

E, quando percebi;

eu já estava inteiro, vulnerável, entregue e sonhando acordado com um futuro ao seu lado.”

- Priscila de Araújo

Chegou a hora de tirar os olhos dos defeitos do outro e colocá-los diante da Cruz, porque Deus não levantará uma Igreja de acusadores, mas um povo quebrantado, santo e cheio de misericórdia, uma Igreja que se pareça com Cristo.

A cruz não é apenas uma mensagem para quem está bem; é esperança para quem chegou ao limite.


Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças.
Isaías 53:4

Até aos confins da terra. Até aos confins da alma. Até onde a dor chegou. Até onde o pecado feriu. Até onde a morte pareceu vencer.
Ali também chega a mensagem da cruz.

Não deixe para me ver quando eu estiver morrendo, pois ela já chegou.

OLHOS DE MAR

Como um anjo, você chegou anunciando o início de um ciclo, da vida que já não era só minha...

Apesar de dolorosas, as mudanças eram necessárias. Então, rasguei a cápsula que me envolvia, comprimida numa ingenuidade tardia — tal como o casulo do qual eu já não cabia, e que me impedia de mover as asas que eu nem havia notado que tinha.

O apego, a dependência, o vitimismo e a dor me impediam de perceber que eu podia voar. Embora não soubesse como, tudo era tão novo... Pensei em desistir, mas a esperança ressurgia quando eu olhava em seus olhos — olhos de mar.

Apesar de recém-chegado, pequeno e frágil, você me ensinou a ser forte, a amar e a aprender com a dureza das provas da vida. Enquanto você crescia, também me impulsionava a crescer. Errei e acertei muitas vezes, mas sempre com o desejo de lhe dar o melhor de mim.

Você é minha kriptonita, mas também é minha fortaleza.

A nossa vida é comparada, a uma estrada para caminhar, mas quem lá no fim chegou, nunca mais voltou e nem voltará.

O respeito alheio veio tarde, mas veio, chegou pela constância do trabalho, a reputação é reflexo do traço.

A paz chegou quando parei de procurar culpados.

A paz chegou no instante em que deixei de justificar minha dor, e aprendi que nem tudo precisa ser entendido para ser superado.

A misericórdia aqui chegou tarde, e trouxe uma mala vazia.

Mas quem lá no fim chegou, jamais voltou e nem voltará, valorize a jornada, pois o destino é uma viagem só de ida.

Quando ela chegou, o amor que eu sentia ficou pequeno, um rascunho diante do que nasceu.

A dor não chegou de uma vez, ela foi construída, em camadas tão sutis que quase passaram despercebidas, até que um dia percebi que já não era mais o mesmo, mas também não era alguém completamente perdido.

Passei tanto tempo construindo muralhas contra a dor que, quando o amor finalmente chegou, encontrou apenas ruínas e portas enferrujadas.

Você chegou na vida de alguém para lhe dar o que nunca teve, e ela te mostrou o que nunca recebeu.

Quando o silêncio habitar em ti e o sorriso brotar, saberás que a paz chegou.