Cartas sobre a Felicidade Epicuro
Série: Minicontos
RACISMO X ETNOCÍDIO
Há séculos. Congoleses e Angolanos sobre mar atlântico despiam-se da vida para a morte. E a história continua. Moïse fugia por léguas tiranas em busca de vida, e de maneira torpe encontra a morte. Havia 300 anos, e nos despimos da sorte de apreender a lição...
LUSCINIA
Sob o sol ainda brando da aurora
A sutileza dos ventos pacífica sua cópula sobre a copa das árvores em bulicio.
Tinhosa, a clorofila põe -se em rosa pros acordes dedilhar.
Seu canto magestoso me embala a versejar.
Prefiro a lira do seu canto
A copla de seus versos
Suas rimas seu trovar.
O mais celebre dos poetas
Se fazia destoar.
Série Minicontos
IDÍLIO
No limiar da noite sobre a namoradeira.
Um longo preto estampado em flores escorria sobre o corpo. Jonny, lhe adornava os ralos cabelos negros. A vovó Deinha trançava o sonho azul do netinho Pedro, que ao pé da letra dormia envolto ao mundo de fantasias. Quando acordou, estava lá.
TEUS FANTASMAS SÃO MEUS:
Eu não quero que você pense como eu.
Não é sobre isso!
Eu só quero que pense comigo!
Às vezes, não suporto a minha própria companhia
E invoco meus fantasmas para convencer os seus.
Toda essa estrada que hora percorri
Em sua geometria retilínea
Na sua curvatura me perdi.
Às vezes, sou tão fútil, ingênuo!
Na maioria dos dias me olho no espelho
Mesmo naquele em que vou pintar os cabelos.
Não me reconheço e torno-me insólito.
Chego a tal ponto que preciso refugiar-me no interior de meu interior
Sobre a literatura comercial, permeiam-se dois tipos de poeta e escritor.
Há aquele que reverbera o discurso em voga, cujo a crítica precisa ouvir. Hoje, por exemplo, destaca-se o discurso identitário para abrir portas. É o atalho ao púlpito dos intelectuais.
Outro, ainda que não dê vasão ao que a crítica e burguesia intelectual convenciona, possui capital financeiro podendo bancar sua obra independente. Talvez não comercial, mas igualmente palatável.
A escrita não deve complacência às convenções da elite intelectual. Ela é, em si, fomento do grito encerrado dos marginais.
MANHÄ DE DOMINGO
Sobre a mesa redonda adornada com uma velha toalha de renda vermelha
Um prato de sobremesa com arroz branco e uma pequena poção de Strogonoff.
Um sachê de algodão estéril
Dois esmaltes de cores preta e laranja.
Algumas lixas de unha e outros acessórios para adornar as unhas do mais velho.
Missangas enfeitavam as bonecas passadas da netinha.
À minha frente um copo de cristal cica amealhado de cerveja me dava inspiração.
Uma garrafa plástica de refrigerante indaiá sabor limão discretamente desamparada.
O óculos de grau redondo fechado ao centro da mesa
Paralelamente o chaveiro com a chave do carro que mais tarde levaria todos deixando a saudade e o sonho de um novo reencontro.
Era assim o domingo da vovó
CARTA DE AMOR
Virá o dia
Em que meu sonho estará repouso sobre a escrivaninha
Em que não te pedirei para o julgar
Em que não te convidarei para o jantar
Em que não te direi para brincar na areia
Em que não elevarei sobre teu corpo o cobertor
Porque a noite se arvora fria
Então
Só nos meus versos encontrarás minhas juras de amor eterno
Não chores!
Nem muito alarde!
Apenas me entorpeci de luz e mistérios.
Ao pé da letra
Sob a mesa estava o radinho sem pernas
E sobre ele havia uma única espiga de milho
E ela à espreita sentadinha no braço do sofá,
Quando, o pé da mesa atingiu a bola do olho.
Que não satisfeito, arrancou os cabelos do milho que voou para o céu de sua boca.
A bichinha ficou com as maçãs do rosto rosadas
E foi parar no céu da boca do malvado.
Por fim, sua historinha permaneceu ao pé da página.
Ou é apenas uma língua de trapo?
Pobre bichinho.
O Gambá é um bicho
bonito que caça cobra,
escorpião e aranha,
não vim falar sobre isso,
e sim vim te mostrar
como aqui como é a dança.
Estarei no centro
quando a roda for feita,
dançando com um lenço
para chamar a sua atenção,
vou jogar o lenço aos seu pés
e vou te envolver com paixão.
Você fugirá com o lenço
dançando ao redor de mim
com muita provocação,
vou fingir que não
quero nada com você não.
Vou tomar o lenço
da tua mão e dançar
ainda com mais provocação
até você ficar caído
pela minha doce sedução.
O marcador, os cantores,
o Gambá e as palmas
dos dançadores
não batem mais forte
do que os nossos corações
morrendo de amores.
E na alegria deste Gambá
vamos todos seguindo,
dançando e repetindo
os passos como manda o figurino...
Eu moro em Rodeio,
posso escrever
sobre a Crimeia
que pertence a Ucrânia,
também sobre Karabakh
que pertence ao Azerbaijão,
Porque sempre posso ir
onde a imaginação permitir
e sem sair do meu lugar.
E posso continuar morando
aqui nesta bela cidade
do Médio Vale do Itajaí,
em plena quarta-feira
dando tudo de mim por aqui,
e abrindo as asas da minha
autoria e existência literária.
Porque eu vivo aqui e não
onde você quer que
a minha autoria sobreviva.
A mentira tem pernas curtas,
e a minha poesia está ainda
mais viva do que antes
e do que se tem tido notícias.
Sobre ser poeta
Ser poeta
não é escrever.
É sangrar sem ferida visível.
É andar entre os vivos
com os pés fincados no invisível.
Ser poeta
é ouvir o que não foi dito,
ler o que o tempo omitiu,
beber da fonte que seca os outros.
Não há descanso para o que vê demais.
Não há paz para o que sente em excesso.
Ser poeta é dormir com as cicatrizes abertas
e acordar com palavras grudadas nos olhos.
É saber que nada dura
e ainda assim amar —
como quem beija o rosto da água
antes que ela escorra.
Poeta não descreve.
Poeta desvela.
Poeta não tem vocação.
Tem maldição.
É escolhido pelo silêncio
pra dizer o que mata
e, ao dizer,
sobrevive.
Sobre crescer e sobreviver
Se desejamos crescer, é preciso romper barreiras.
Não há como florescer na inércia.
Não se cresce abraçado ao vitimismo, nem ancorado na conformidade.
E, sobretudo, não se cresce com medo.
Medo de desagradar, de falhar, de ser mal interpretado —
o medo de não caber na expectativa alheia é uma prisão disfarçada de prudência.
Li, certa vez, que especialistas recomendam um exercício simples, mas profundo:
escrever o que se pensa.
Colocar no papel a imagem de quem queremos nos tornar.
Construir-se em tempo real, com palavras como tijolos e sangue como argamassa.
Eu fiz isso. A vida inteira.
Construi um império de sonho.
Mais de 40 livros.
Cada um deles foi uma escada plantada no escuro.
Sem eles, talvez eu fosse um anônimo completo —
um homem comum, apagado por dentro.
Mas é importante dizer: isso, por si só, não significa sucesso.
Não falo de vitórias públicas.
Falo de sobrevivência.
Escrever foi meu modo de não desaparecer.
Foi minha maneira de resistir ao apagamento interior que ameaça todos os que sentem demais.
Transformei em palavra aquilo que o mundo tentava silenciar em mim.
E isso, por mais que não me tenha dado aplausos ou riqueza, me deu algo ainda mais raro:
consistência.
Poema do Abismo
O homem ergue-se, cego, sobre as ruínas do ser,
com a ilusão de tocar o céu, de conquistar a luz.
Mas o céu é vazio, a luz, um reflexo do abismo,
e ele caminha em círculos, perdido, sem fim.
A razão, essa chama fraca, não ilumina mais o caminho,
apenas queima, sem piedade, a carne que se arrasta.
O mundo é uma mentira, um espelho quebrado,
onde os rostos são sombras e a verdade é um grito.
Os poetas, esses destemidos, olham o abismo,
mas o abismo é profundo demais para ser compreendido.
Eles escrevem, mas suas palavras são ecos de desespero,
gritos que se perdem nas cavernas do caos.
O homem luta, mas a luta é fútil,
pois o caos não cede, ele apenas se expande.
A liberdade é uma ilusão, um véu rasgado
que a morte, implacável, rasga sem compaixão.
E assim, o homem cai, sem saber, sem lutar,
afogado em suas próprias mentiras,
enquanto o poeta observa, impotente,
sabendo que não há fuga, que a dor é eterna.
Estou Prenhe
O pôr-do-sol, uma luz flamejante,
Desce sobre o meu horizonte.
Dentro de mim, há um inalcançável deserto,
Perdi, em algum lugar,
O que os homens chamam de paz.
Meu eterno buscar
Veio com mais força que antes,
Como um vulcão que dormira por milênios.
É assim que ruge,
No fundo d’alma,
Meu espírito inconstante.
Às vezes penso:
Algo muito grande
Vai sair de dentro de mim.
Não pode ser outro poema,
Nem um livro.
O que esperneia no meu ventre
É algo assustador,
Mesmo para quem está acostumado
A dar à luz filhos estranhos.
Mesmo para um espírito criador,
Esta sensação
É deveras incomum.
Um longo período de gravidez
Produziu em mim,
Ou alimentou dentro de mim,
Um ser bizarro.
A verdade sobre a vida e a existência não precisa ser decorada com promessas de transcendência ou adornada por conceitos de pecado, redenção e salvação. É um alívio quase indescritível, um regozijo íntimo, perceber que podemos viver fora dessa discussão — desse embate interminável sobre inferno e paraíso, sobre continuação ou fim.
Se o homem morre e tudo se acaba, não há culpa a carregar, nem redenção a esperar. A vida, como já afirmou Pessoa, é apenas a vida. As coisas são o que são, e não precisam se estender para além de si mesmas para serem válidas ou reais. É doloroso, confesso, ver tanta gente boa presa nesse engano, acreditando que a existência só se completa se for continuada noutro plano. Não percebem que a busca pela eternidade os arranca do agora, do que realmente existe.
E, no entanto, essa necessidade de crer no eterno, de imaginar que a vida continua depois da morte, é profundamente humana. Talvez seja mesmo inevitável. A ideia de finitude parece insuportável para muitos. Mas, paradoxalmente, o reconhecimento dessa finitude pode ser uma forma de eternidade em si. Se tudo se encerra aqui, o agora se torna absoluto — e, nesse sentido, infinito. Não há mais o peso de uma vida além desta; só resta o fluxo contínuo do que somos.
É nesse entendimento que encontro paz. A vida é suficiente em sua simplicidade. Não precisa transcender para se justificar. A eternidade que tanto buscamos pode ser encontrada no momento presente, nesse "agora" que se alonga indefinidamente enquanto vivemos. Tudo está aqui, neste instante, e isso basta.
Assim como Pessoa escreve, com sua visão desarmante e lúcida: não precisamos de outros mundos para validar este. A existência não requer continuação ou transcendência para ser plena. O desafio é aceitar essa simplicidade — e, talvez, essa aceitação seja a liberdade suprema.
Crepúsculo de Ouro
O sol despede-se em fogo e mel,
derramando luz sobre os ombros da cidade.
As montanhas, sombras líquidas,
respiram o último suspiro do dia.
Um raio tímido dança no vidro,
sussurra segredos ao vento morno.
O céu veste ouro, veste brasa,
desfaz-se em luz antes do adeus.
E a noite, lenta, estende os braços,
balsâmica promessa de silêncio.
Mas o sol, eterno, dorme apenas,
guardado nos olhos de quem o viu.
Evan do Carmo.
Rodeio no Natal
Acordei antes do sol
raiar sobre o lindo
Médio Vale do Itajaí
e o badalar do sino
da nossa Igreja Matriz.
As ruas da cidade
estão vazias, as casas
e os corações cheios
de agradecimentos.
De braços dados
com a inspiração
escrevendo poemas
e sendo oração
também agradeço.
Morada abençoada
de belezas mil,
pedacinho de terra
do nosso amado Brasil.
Rodeio no Natal
mesmo nublada
com o Pico do Montanhão
encoberto é a criação
em festa e descanso.
Badala neste instante
o sino da Igreja Matriz,
a luz do dia se levanta
ainda mais radiante
e a fé que não se cansa.
Rodeio no Natal
eu celebro com o coral
dos pássaros a cantar
pedindo pela paz mundial.
Rodeio dias antes do Ano Novo
Nesta manhã nublada
gentilmente sobre Rodeio
antes do Ano Novo
inspira a pedir ao destino
que surjam mais poetas
no meio do nosso povo
para amar este refúgio
e acolhedor paraíso.
Devotar honra ao nosso
rincão sempre é preciso
para manter zeloso
cada vez mais o coração
com tudo aquilo
que nos mantém vivos.
Habitam todos os signos
do Rio Itajaí-Açu em mim
e estão evidentes aqui
neste Médio Vale do Itajaí
repleto de belezas sem fim,
e exatos como cada um
dos meus versos de amor para ti.
Prestar ofertórios poéticos
ao sagrado solo catarinense
e profundamente brasileiro
me une sublime a cada dia
aos desejos de viver a poesia
pura e de ser feliz nesta vida.
Rodeio dias antes do Ano Novo
traz no silêncio o tesouro,
na poesia o esbanjamento
no brinde aos olhos o Montanhão
e traz tudo o quê é preciso
para fazer forte a minh'alma,
o meu coração e entregar a gratidão.
Rodeio é Poesia
Quando o jardim
das flores azuis
do tempo se abrem
sobre o nosso céu
do Médio Vale do Itajaí,
floresce junto o meu
pensamento em ti.
Rodeio é poesia
cercada por versos
trajados de verde
e suspensos por belas
montanhas cheias
de vida e amor.
Todo o dia tenho
um novo poema
no afã de não perder
(o hábito de falar de amor)
para quando você
chegar em Rodeio
conhecer o poemário
feito amar te por inteiro.
Os beijos aurirubros
celestiais sobre
o Médio Vale do Itajaí
depois da tempestade
repletam com poesia
a nossa amada cidade.
Você é pensamento,
e eu por ti devaneio
meu imparável segredo.
És mistério do mistério
pleno e místico,
com olhos fechados
eu sempre te sinto.
Você sabe que
eu moro em Rodeio,
e você aqui ainda não veio.
Dentre estes versos
que distraem o tempo
das minha mãos sempre
pego o brilho da onde
as estrelas sempre serão
mais visíveis neste Hemisfério.
