Carta a um Amigo Detento

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⁠Microconto de um Tardígrado

agora, de repente,
numa missão verborrágica,
eles te querem eficiente.

eficiente,
como o sistema
não foi com você,
como o governo
nunca foi com você.

eficiente,
como a empresa
não foi com você,
como a esperança
jamais será com você.

eficiente, eficiente...
insignificante e indestrutível.

mas em minha micro
condição, sou paciente.
entre o hecatombe
e as doses de radiação,

desafio a ciência.

aguardava por isso,
organismo insistente,
te ofereço retribuição,
ao invés de eficiência.

(Michel F.M. - Pairar Incansável da Fênix Sublime) ©

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⁠Nocaute para Canhoto

todo bom poema,
consistente e digno,

é um punho vívido
do apanhador vivido.

dança pelos flancos,
avança no meio,

o segredo é suportar,
socos sucessivos.

cruzado, jab, direto,
vem como um golpe triplo,

murro na têmpora, estômago,
boca, do sistema opressivo,

deixe que o topo se empolgue,
jogue pra eles o favoritismo.

desfecho dos filmes,
nós nascemos nas bordas,

de clinch em clinch,
cambaleamos firmes,

conhecemos a lona,
nós amamos as cordas.

embrenhados na lama,
emergimos do lodo,

desorientá-los primeiro,
para enfim, desdentá-los todos.

Michel F.M. - Pairar Incansável da Fênix Sublime ©

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⁠Primeiros Batimentos
de um Corpo sem Vida

a fábula do sonâmbulo
desperto, pode significar
o que você quiser.

mas há uma questão,
que nunca é relativa:

existem sempre
duas versões
da história.

a primeira
é aquela que
o opressor conta

e a segunda
é a que ele oculta.

10/10/23

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⁠Desandando a Massa e Vivendo nos Intervalos

fazer o mínimo é um exagero
demasiado. nossa meta
é não fazer sequer o mínimo.

todavia, nos propomos
atrapalhar a todos,
sempre que possível.

dedique-se ao incômodo,
semeie o desconforto,
seja picante e caótico.

produza nada,
contribua com ninguém,
seja um maldito colaborador.

concorde com o regresso,
colabore com a desordem,
semeie apatia e impotência.

viemos para empurrá-los do pedestal,
jogá-los ladeira abaixo,
rasgar tuas vestes caras,

furar teus pneus importados,
perder todo o seu lucro,
esgotar teus rendimentos.

derrubar tuas fronteiras,
queimar tuas bandeiras,
apagar seus slogans.

desprezamos tuas corporações,
odiamos alegremente tuas marcas,
martelaremos forte tuas máscaras.

socamos o desempenho
bem no meio da cara,
almejamos o prejuízo,

investimos para a falência.
por fim, namastêfoda-se
a esta pesada filhadaputagem.

somos a infecção generalizada
em sua bolha perfeita,
pomposa e purulenta, vazando.

que a fantástica fábrica de ilusões
exploda e seus pedaços decorem
o céu estrelado.

que toda certeza se torne um talvez
e que a noite nasça iluminada,
uma última vez, neste sonho desintegrado.

(Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração [Trilogia] 13/10/23)

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⁠Vibrante Estupidez Corpulenta
de um Recipiente Vazio

duas semanas
após as eleições,
ele havia abandonado
completamente
sua pátria amada.

aquele outrora
grande patriota viril,
traído por seus
indecentes líderes,
encontrava-se agora
impotente.

não que não fosse
outrora.

nunca mais
cantaria o hino
de tua nação
desolada,

do qual não se lembrava
das palavras
e nem sequer
algum dia as compreendera.

(Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração - 25/10/23)

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⁠As Aventuras da Chapeuzinho Crescida ou O Depoimento de um Lobo Domesticado

dos pés à cabeça
quis desejá-la,
da cabeça aos pés
quis absorvê-la.

dos pés à cabeça
quis saboreá-la,
da cabeça aos pés
assim, eu quis tê-la;
entretê-la.

ela me converteu
dos pés à cabeça,
da cabeça aos pés
ela me dominou.

a fera enjaulada
estava abatida,
deixou-se abater,
na fúria incontida.

um conto de fadas
sem nenhum paralelo,
a saliva molhada
num beijo sincero.

foi o filme mais lindo
que jamais filmaram,
o desenho mais vívido
guardado no peito.

foi o sonho mais belo
que nunca sonharam,
o Morango mais doce,
em seu mais doce efeito.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 29/10/23)

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⁠Outro Evento de Extinção
Neste Pequenino Orbe Azul

você implodiu a minha vida
de um jeito diferente,
e se eu tivesse
uma máquina do tempo,
faria tudo do mesmo jeito,
exatamente.

porque apesar de toda vida,
nalgum momento chegar ao fim,
nesta pequenez valiosa,
até mesmo as tuas moléculas
brilharam para mim.

e assim sobrevivemos
ao inverno nuclear,
afinal, os corpos celestes
queimam tudo ao seu redor,
antes de acabar.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 31/10/23)

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⁠A certeza de uma quase catarse matinal [Em 10 Manhãs]

Um gesto pra amar
Um beijo pra sentir
Um teto pra abrigar
Uma manhã pra refletir

Uma língua pra falar
Um filme pra assistir
Um tempo pra pensar
Uma manhã pra refletir

Uma lei pra se opor
Um trato pra cumprir
Uma canção pra compor
Uma manhã pra refletir

Uma poça pra saltar
Uma peça pra aplaudir
Um jantar pra alimentar
Uma manhã pra refletir

Uma fuga pra achar
Um caminho pra fugir
Uma história pra contar
Uma manhã pra refletir

Um vício pra deixar
Um afeto pra sorrir
Um amor pra guardar
Uma manhã pra refletir

Uma vida pra viver
Uma perda pra punir
Uma dor pra esquecer
Uma manhã pra refletir

Um discurso pra inspirar
Um concurso pra competir
Uma pedra pra chutar
Uma manhã pra refletir

Uma muda pra plantar
Uma roupa pra vestir
Um planeta pra mudar
Uma manhã pra refletir

Um Deus para rezar
Uma prece pra pedir
Um milagre pra salvar
Dez manhãs pra refletir
Dez amanhãs pra refletir

Um fim pra uma frase
Num texto marginal
A certeza de um quase
Na catarse matinal

A certeza de uma quase
Catarse matinal.
Quase uma catarse
Em 10 manhãs.

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⁠Realce de um Romance em Relance

Despejo o acúmulo de melancolia,
Nivelado pelo apalpar da franqueza,
Tristura transmutada em biografia,
Lisonja alimentada de lindeza.

Realce de um romance em relance,
Realce um romance em relance.

Macia epiderme madrigal,
Norteia-me com benevolência,
Galanteio supra-celestial,
Levando-me à máxima potência.

Realce de um romance em relance, Realce um romance em relance.

Supremo enquadramento instantâneo,
Imperecível aos instantes que sucedem,
Ameno vendaval interiorano,
Âmago das forças que se movem.

Realce de um romance em relance, Realce um romance em relance.

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⁠Pretérito bem-mais-que-perfeito

Em português coloquial,
A gente se ajeitava e pronto.
Um terraço, um varal,
Sala, cozinha, banheiro, aposento,
Uma rede pro encosto e ponto.

Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito,
Convivência era próspera,
Em nosso proveito.

Cada quina um reconto,
Pela prosperidade,
Éramos afortunados,
Sem um tostão ou vaidade,
Reinava dominante a simplicidade.

Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito,
Convivência era próspera,
Em nosso proveito.

Bem-aventurados
Os que cá estão.
Fazendo do inverno,
Um ilustre verão.

Aqueles que conviveram,
Aqueles que aproveitaram,
Aqueles que bendisseram,
Preencheram, perpetuaram.
Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito.

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⁠Indecifrável Jú

Em meu ingresso meço Jú
Faço um pedido peço Jú
Um comentário para Jú
Ou um glossário sobre Jú

Em meu diário escrevo Jú
Ao redigir resumo Jú
Uso ensejos vejo Jú
No quintalejo bejo Jú, bejo

Indispensável Jú
Incomparável Jú

Na biblioteca leio Jú
Na locadora loco Jú
Uso o fado fada Jú
Sol poente nasce Jú

Naquele atalho rumo a Jú
Espalho versos sobre Jú
Cantigas lidas para Jú
A Preferida, amo Jú, amo

Inenarrável Jú
Indecifrável Jú

Provoco-a por provocar
Só pra vê-la revidar
Onde me encontro, encontro Jú
Contudo, não decifro Jú

Notoriedade do notável
Afinidade ao afagável

Indecifrável Jú,
Inesquecível.

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⁠A Casa de Limões

Numa tardinha
Me atordoaram
C’um causo.

Encostado do
Moinho da Sardinha,
Perambulava um garoto,
Que vivia numa casa
Feita de limões.

Ouvi um cochicho
Sobre um jovem Javali
Que se tornou padeiro.
E outro buchicho
Sobre um centenário Jabuti
Que se formou doceiro.

Mas este boato
É de maior capricho,
O aposento do guri
No topo dum limoeiro.

Construção ecológica.
Amarrava a dentaria
Sua hospedaria.
Parecia até mágica
Bruxismo ou feitiçaria.

Agora eu entendia
Quando minha mãe dizia,
Que existiam pessoas amargas,
Difíceis de manter relações.
Também pudera serem azedas,
Vivendo numa Casa de Limões.

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⁠Cerimônia ou um motivo pra vê-la

O linóleo ao chão
Continha pés trêmulos,
Me doía o baço
De tanta felicidade.

Oprimia-me os órgãos,
Saber da possibilidade
Do angustiante afastamento,
Da saudade que dá saudade.

Sensações enfileiradas
Em desordem alfabética.

Bocas falavam,
Lábios sorriam,
Dedos suavam,
Olvidos tiniam,
Palmas saldavam,
Olhos escorriam.

300 pessoas presentes,
287 lugares ocupados,
13 reservados a ninguém,
Alguém não tinha chegado.
Alguém estava chegando.

Só havia notado, por ser
A única pessoa que estava esperando.

Alguém é anunciado.
Talvez, quem sabe,
Seja Ela.

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⁠Um Hino a Ela

Ensaiei, ditados inexistentes,
Martelei, aforismos famosos,
Revisei, a locução convincente,
Repassei, teus tiques nervosos,
Consultei, os baralhos videntes,
Aceitei, teus ataques mimados,
Pratiquei, as vontades urgentes,
Como os gomos, fomos tão atrelados,
Inventados, em notações e lembretes,
Findando, eis o resultado:
Na declaração que ressoa,
Falo a ti na primeira pessoa.
Prevemos o imprevisto
E não nos prevenimos,
Somos improváveis
E imprevisíveis.
Nossas precauções,
Não foram precavidas
E na pressa persistimos,
Permanentes, inalteráveis,
Incontroláveis, irreprimíveis.
Somos improváveis
E imprevisíveis !
Na declaração que ressoa,
Falo a ti na terceira pessoa.
Coletânea contraditória,
Rompendo com a dita cautela,
Ele faz sua dedicatória,
Uma sinfonia, um Hino a Ela.
Analogia duma Antologia, uma sinfonia, um Hino a Ela.

Inserida por michelfm

⁠Um Cataclisma de Cada Vez

a vida adulta
é um gigante tão cruel,
mas há beleza
mesmo nesta batalha terrível.

me conte em detalhes,
as utopias que tem colecionado.
relate a mim, os devaneios
tantos que armazenaste.

coloridas quimeras
e fabulação,
a fantasmagoria
das fantásticas ficções
fantasiosas.

pois sou desprovido
de imaginação,
um reles sonhador
desmemoriado,

que em sua jornada
desesperada pelos sonhos,
ainda não aprendeu a sonhar.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)

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⁠[De um biscoito da sorte
encontrado na sarjeta]

se foram
quase todos os tipos.

você já tentou
com o tipo namorado.
já tentou com o tipo marido.

com aqueles
que juraram fidelidade
e comprometimento.

e chegamos até aqui.
mas, há algo inédito.

que tal, tentar com o poeta.
sem compromissos
ou arrependimentos.

ele vai te amar
apaixonadamente,
como nenhum outro
jamais poderia.

mas sem vínculos
convencionais.
sem alianças ou papéis,
sem contratos ou convidados.

sem promessas.

só o poeta, você
e toda a poesia
que puder suportar.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)

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[⁠Outra causa vencida
numa canção de amor]

e aquela mulher
que nunca havia tido
um homem de fato,
possuiu definitivamente
seu coração.

tornando-se a pessoa
mais importante,
na vida daquele homem,
que havia tido todas as mulheres,
sem nunca possuir nenhuma.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 12/11/23)

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[⁠O Marco Zero de um Ponto Morto]

enfim,
compreendeste
tudo.

este é o glorioso destino
da humanidade,
um bando de desgraçados
solitários,

fazendo barulho
coletivamente
pra se distrair,
incomodando a todos,

enquanto sofrem
em silêncio,
desejando o amor
que nunca tiveram.

(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 16/11/23)

Inserida por michelfm

⁠[Enquanto houvesse algo
que nunca fosse inventado]

sou um escritor
extremamente
preguiçoso.

não quero saber
nada sobre literatura,
não me interessam
os autores,
não quero saber
nada sobre poesia.

nunca termino
um livro,
nunca penso
sobre escrever,

exceto,
quando estou escrevendo.

quando escrevo,
sou a pessoa
mais determinada
que já conheci

e já conheci
muita gente determinada.

quando escrevo,
me torno a sinergia gritante,
ecoando incessante,
a concentração das forças
que convergem,
divergem e dissipam.

me torno
a manifestação avassaladora,
da poderosa máquina
neurobiológica.

a sensualidade manifesta,
materializada sinapticamente,
no acasalamento dos neurônios.

18/11/23

Inserida por michelfm

⁠[Mesmo os retrocessos
servem para avançar]

jamais tive
um raciocínio rápido,
satisfatoriamente
acelerado e dinâmico.

só avanço lentamente,
me apoiando nas pausas.
cada vírgula,
me sustenta com louvor.

e mesmo os retrocessos
servem para avançar.

pontos fixos
e flutuantes,
independente
de sua origem,
são minha ancoragem.

me auxiliam na tarefa
pesarosa e excessivamente
desgastante,

de prosseguir,
neste relance inesperado
da compreensão.

22/11/23

Inserida por michelfm