Carta a um Amigo Detento
Pretérito bem-mais-que-perfeito
Em português coloquial,
A gente se ajeitava e pronto.
Um terraço, um varal,
Sala, cozinha, banheiro, aposento,
Uma rede pro encosto e ponto.
Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito,
Convivência era próspera,
Em nosso proveito.
Cada quina um reconto,
Pela prosperidade,
Éramos afortunados,
Sem um tostão ou vaidade,
Reinava dominante a simplicidade.
Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito,
Convivência era próspera,
Em nosso proveito.
Bem-aventurados
Os que cá estão.
Fazendo do inverno,
Um ilustre verão.
Aqueles que conviveram,
Aqueles que aproveitaram,
Aqueles que bendisseram,
Preencheram, perpetuaram.
Naquele Pretérito
Bem-mais-que-perfeito.
Indecifrável Jú
Em meu ingresso meço Jú
Faço um pedido peço Jú
Um comentário para Jú
Ou um glossário sobre Jú
Em meu diário escrevo Jú
Ao redigir resumo Jú
Uso ensejos vejo Jú
No quintalejo bejo Jú, bejo
Indispensável Jú
Incomparável Jú
Na biblioteca leio Jú
Na locadora loco Jú
Uso o fado fada Jú
Sol poente nasce Jú
Naquele atalho rumo a Jú
Espalho versos sobre Jú
Cantigas lidas para Jú
A Preferida, amo Jú, amo
Inenarrável Jú
Indecifrável Jú
Provoco-a por provocar
Só pra vê-la revidar
Onde me encontro, encontro Jú
Contudo, não decifro Jú
Notoriedade do notável
Afinidade ao afagável
Indecifrável Jú,
Inesquecível.
A Casa de Limões
Numa tardinha
Me atordoaram
C’um causo.
Encostado do
Moinho da Sardinha,
Perambulava um garoto,
Que vivia numa casa
Feita de limões.
Ouvi um cochicho
Sobre um jovem Javali
Que se tornou padeiro.
E outro buchicho
Sobre um centenário Jabuti
Que se formou doceiro.
Mas este boato
É de maior capricho,
O aposento do guri
No topo dum limoeiro.
Construção ecológica.
Amarrava a dentaria
Sua hospedaria.
Parecia até mágica
Bruxismo ou feitiçaria.
Agora eu entendia
Quando minha mãe dizia,
Que existiam pessoas amargas,
Difíceis de manter relações.
Também pudera serem azedas,
Vivendo numa Casa de Limões.
Cerimônia ou um motivo pra vê-la
O linóleo ao chão
Continha pés trêmulos,
Me doía o baço
De tanta felicidade.
Oprimia-me os órgãos,
Saber da possibilidade
Do angustiante afastamento,
Da saudade que dá saudade.
Sensações enfileiradas
Em desordem alfabética.
Bocas falavam,
Lábios sorriam,
Dedos suavam,
Olvidos tiniam,
Palmas saldavam,
Olhos escorriam.
300 pessoas presentes,
287 lugares ocupados,
13 reservados a ninguém,
Alguém não tinha chegado.
Alguém estava chegando.
Só havia notado, por ser
A única pessoa que estava esperando.
Alguém é anunciado.
Talvez, quem sabe,
Seja Ela.
Um Hino a Ela
Ensaiei, ditados inexistentes,
Martelei, aforismos famosos,
Revisei, a locução convincente,
Repassei, teus tiques nervosos,
Consultei, os baralhos videntes,
Aceitei, teus ataques mimados,
Pratiquei, as vontades urgentes,
Como os gomos, fomos tão atrelados,
Inventados, em notações e lembretes,
Findando, eis o resultado:
Na declaração que ressoa,
Falo a ti na primeira pessoa.
Prevemos o imprevisto
E não nos prevenimos,
Somos improváveis
E imprevisíveis.
Nossas precauções,
Não foram precavidas
E na pressa persistimos,
Permanentes, inalteráveis,
Incontroláveis, irreprimíveis.
Somos improváveis
E imprevisíveis !
Na declaração que ressoa,
Falo a ti na terceira pessoa.
Coletânea contraditória,
Rompendo com a dita cautela,
Ele faz sua dedicatória,
Uma sinfonia, um Hino a Ela.
Analogia duma Antologia, uma sinfonia, um Hino a Ela.
Ex-pediente
Insuportável calor,
Mormaço infernal.
Um cordão avermelhado
Cingia teu pescoço.
Mantinha-se deslizante,
Na aflição apavorante
De que alguém entrasse.
Não fazia nada de errado,
Era nem tão bom
Em coisa nenhuma.
Tolamente cumpria sua função.
Atmosfera densa,
Produzindo superiores
Oprimindo subordinados;
Colegas delatando,
Colegas delatados.
Cadeia alimentar empresarial,
Subsistindo a plenos sacrifícios.
Desequilíbrio profissional,
Rondando os indivíduos,
Que compunham aquele
Inacertável grupo
De péssimas pessoas.
Seus sussurros versus meus urros
No aposento alagado,
Um acervo apinhado,
A morada do que marcou.
Par de brincos e um adorno,
Uma foto três por quatro,
As pantufas, as polainas,
Enlace firmado em contrato.
Seus sussurros versus meus urros
E você me vence,
Perco Feliz.
Encharcado e remendado,
Bate o arrependimento,
Desbarrancado e resgatado,
Que pende e não decai.
Tornando a remoer,
O que foi abandonado,
Rever o insuperável
Sendo superado.
Seus sussurros versus meus urros
E você me vence,
Perco Feliz.
Absolvição de um Pecado Imperdoável
Perdoe-me Pai.
Peço desculpas Senhor todo poderoso,
Peço que me absolva Deus meu, porque errei,
Um erro imperdoável (inaceitável).
Transgredi o mais importante,
Grandioso e definitivo mandamento
E como se não fosse o bastante,
Violei também o segundo maior,
Aquele que o teu próprio filho proclamou.
Mas não espero que me perdoe,
Não espero perdão, por cometer
A mais grave dentre todas as faltas,
Porque meu pedido não é sincero,
Não, não o é.
Se me entregasse à sinceridade,
Expondo-lhe tudo aquilo que interiorizo,
Lhe confessaria que descumpri
Os mandamentos mais sagrados,
Pois acurralado por meus sentimentos,
Não pude defender-me e cedi.
Cedi ao que me foi avassalador,
Dominante, devorador, atropelante,
Predominante, preponderante.
Cedi a Ela.
Entreguei-me a Ela.
Vendi-me a Ela.
Engrandeci, amadureci, desfaleci,
Me restitui por Ela.
Te amei mais do que me amei.
Te amei mais do que ao próximo.
E em meu pecado imperdoável
Te amei mais do que a Deus
E sobre todas as coisas.
Contudo, se o ato de amar liberta,
Cumpro minha pena livre.
Sou um condenado,
Obrigado a responder em liberdade.
Te amei mais do que me amei.
Mais do que ao próximo.
Mais do que a Deus.
Mais e sobre todas as coisas.
Ps. Absolvição de um pecado imperdoável,
concedida a um condenado respondendo em liberdade.
Esmalte Craquelado
Faiscava mais
Que um colar de strass,
Vinha embriagante
Pruma mente sã.
Vestindo um tubo
Monocromado,
Equilibrando
Em teu scarpan.
Teu esmalte craquelado
É tão vivaz,
Expondo claramente
Aonde estás.
Teu todo abrilhantado
É tão particular,
Expondo claramente
Onde pretende estar.
Vestindo um tubo
Monocromado,
Equilibrando
Em teu scarpan,
Vinha embriagante
Pruma mente sã.
Teu esmalte craquelado
É tão vivaz,
Expondo claramente
Aonde estás.
Teu todo abrilhantado
É tão particular,
Expondo claramente
Onde pretende estar.
Cumulus Omnium
(o acúmulo de todas
as coisas)
Eu sou Mais um Amanhecer,
o Elo Solene,
(Des) rimando.
Sou O último registro da raça humana,
a Áspera Seda.
Sou a Impressão Intensa,
Eu sou CONECTATUM.
A Linha (Tênue)
Rompida,
Piekarzewicz.
Eu sou as Crônicas de um Espelho Meu
E os Fabulosos Contos Perdidos
Do Vale Encontrado.
A Esplêndida Face Magnífica.
Sou o
Delírio Absoluto da Multidão Atônita,
o Pacífico em Brasas
e o
Atlas do Cosmos para Noites Nebulosas.
Sou eu, o Mestre dos Pretextos.
Diário de um
Blazar
A colisão das galáxias,
suprema manifestação
de energia produz,
até então encontrada
no infinito cosmo,
aglomeração rigorosa da luz.
porém, os astrônomos
para o lado errado,
apontaram seus telescópios,
enquanto a verdade definitiva,
se encontrava no próprio
sentido inverso,
essa tal resposta
no espaço profundo,
se mantinha oculta
em nosso sistema interno,
nada é mais poderoso
no universo,
que o inextinguível,
amor materno.
As Duas Faces de um Poema (ou O Poema Torpe Regenerado)
Sou seu pior inimigo,
Seu maior adversário,
Sou o perigo iminente
Espreitando ao teu redor.
Sou tudo que odeia,
Tudo que despreza,
A discordância implacável,
Tua repugnância mor.
Sou aversão e inversão,
Te decepciono, te desprezo,
Interdito teus caminhos
Interferindo no florescer.
Definho e apodreço,
Numa poça degradada,
Sou degradante e degrado-te,
Eu sou Você.
Sou seu melhor aliado,
Seu maior companheiro,
Sou a força pulsante
Estremecendo teu interior.
Sou tudo que ama,
Tudo que acolhe,
A culminância sensível,
Tua fortaleza indolor.
Sou decisão e precisão,
Te impulsiono, te inspiro,
Catapulto teu progresso
Alavancando o alvorecer.
Renovo e rejuvenesço,
Num útero regenerado,
Sou regenerante e regenero-te,
Nós somos você.
(Michel F.M. - Pairar Incansável da Fênix Sublime) ©
Microconto de um Tardígrado
agora, de repente,
numa missão verborrágica,
eles te querem eficiente.
eficiente,
como o sistema
não foi com você,
como o governo
nunca foi com você.
eficiente,
como a empresa
não foi com você,
como a esperança
jamais será com você.
eficiente, eficiente...
insignificante e indestrutível.
mas em minha micro
condição, sou paciente.
entre o hecatombe
e as doses de radiação,
desafio a ciência.
aguardava por isso,
organismo insistente,
te ofereço retribuição,
ao invés de eficiência.
(Michel F.M. - Pairar Incansável da Fênix Sublime) ©
Nocaute para Canhoto
todo bom poema,
consistente e digno,
é um punho vívido
do apanhador vivido.
dança pelos flancos,
avança no meio,
o segredo é suportar,
socos sucessivos.
cruzado, jab, direto,
vem como um golpe triplo,
murro na têmpora, estômago,
boca, do sistema opressivo,
deixe que o topo se empolgue,
jogue pra eles o favoritismo.
desfecho dos filmes,
nós nascemos nas bordas,
de clinch em clinch,
cambaleamos firmes,
conhecemos a lona,
nós amamos as cordas.
embrenhados na lama,
emergimos do lodo,
desorientá-los primeiro,
para enfim, desdentá-los todos.
Michel F.M. - Pairar Incansável da Fênix Sublime ©
Primeiros Batimentos
de um Corpo sem Vida
a fábula do sonâmbulo
desperto, pode significar
o que você quiser.
mas há uma questão,
que nunca é relativa:
existem sempre
duas versões
da história.
a primeira
é aquela que
o opressor conta
e a segunda
é a que ele oculta.
10/10/23
Desandando a Massa e Vivendo nos Intervalos
fazer o mínimo é um exagero
demasiado. nossa meta
é não fazer sequer o mínimo.
todavia, nos propomos
atrapalhar a todos,
sempre que possível.
dedique-se ao incômodo,
semeie o desconforto,
seja picante e caótico.
produza nada,
contribua com ninguém,
seja um maldito colaborador.
concorde com o regresso,
colabore com a desordem,
semeie apatia e impotência.
viemos para empurrá-los do pedestal,
jogá-los ladeira abaixo,
rasgar tuas vestes caras,
furar teus pneus importados,
perder todo o seu lucro,
esgotar teus rendimentos.
derrubar tuas fronteiras,
queimar tuas bandeiras,
apagar seus slogans.
desprezamos tuas corporações,
odiamos alegremente tuas marcas,
martelaremos forte tuas máscaras.
socamos o desempenho
bem no meio da cara,
almejamos o prejuízo,
investimos para a falência.
por fim, namastêfoda-se
a esta pesada filhadaputagem.
somos a infecção generalizada
em sua bolha perfeita,
pomposa e purulenta, vazando.
que a fantástica fábrica de ilusões
exploda e seus pedaços decorem
o céu estrelado.
que toda certeza se torne um talvez
e que a noite nasça iluminada,
uma última vez, neste sonho desintegrado.
(Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração [Trilogia] 13/10/23)
Vibrante Estupidez Corpulenta
de um Recipiente Vazio
duas semanas
após as eleições,
ele havia abandonado
completamente
sua pátria amada.
aquele outrora
grande patriota viril,
traído por seus
indecentes líderes,
encontrava-se agora
impotente.
não que não fosse
outrora.
nunca mais
cantaria o hino
de tua nação
desolada,
do qual não se lembrava
das palavras
e nem sequer
algum dia as compreendera.
(Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração - 25/10/23)
As Aventuras da Chapeuzinho Crescida ou O Depoimento de um Lobo Domesticado
dos pés à cabeça
quis desejá-la,
da cabeça aos pés
quis absorvê-la.
dos pés à cabeça
quis saboreá-la,
da cabeça aos pés
assim, eu quis tê-la;
entretê-la.
ela me converteu
dos pés à cabeça,
da cabeça aos pés
ela me dominou.
a fera enjaulada
estava abatida,
deixou-se abater,
na fúria incontida.
um conto de fadas
sem nenhum paralelo,
a saliva molhada
num beijo sincero.
foi o filme mais lindo
que jamais filmaram,
o desenho mais vívido
guardado no peito.
foi o sonho mais belo
que nunca sonharam,
o Morango mais doce,
em seu mais doce efeito.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 29/10/23)
Outro Evento de Extinção
Neste Pequenino Orbe Azul
você implodiu a minha vida
de um jeito diferente,
e se eu tivesse
uma máquina do tempo,
faria tudo do mesmo jeito,
exatamente.
porque apesar de toda vida,
nalgum momento chegar ao fim,
nesta pequenez valiosa,
até mesmo as tuas moléculas
brilharam para mim.
e assim sobrevivemos
ao inverno nuclear,
afinal, os corpos celestes
queimam tudo ao seu redor,
antes de acabar.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 31/10/23)
Um Cataclisma de Cada Vez
a vida adulta
é um gigante tão cruel,
mas há beleza
mesmo nesta batalha terrível.
me conte em detalhes,
as utopias que tem colecionado.
relate a mim, os devaneios
tantos que armazenaste.
coloridas quimeras
e fabulação,
a fantasmagoria
das fantásticas ficções
fantasiosas.
pois sou desprovido
de imaginação,
um reles sonhador
desmemoriado,
que em sua jornada
desesperada pelos sonhos,
ainda não aprendeu a sonhar.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)
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