Caminho

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A semelhança com Cristo nunca foi um caminho para a popularidade. Quanto mais a vida de Jesus se torna visível em nós, mais natural é que desperte as mesmas reações que Ele despertou. Se a ausência de oposição nos tranquiliza, talvez valha a pena perguntar não o quanto o mundo mudou, mas o quanto Cristo é realmente visto em nós.

Agradar a todos é o caminho mais rápido para não significar nada para ninguém.

Saudades

Saudade é uma distância
que o coração se recusa a medir.
É olhar para o caminho percorrido
e descobrir que alguma parte de nós
ainda mora onde tudo começou.
Saudade é a voz de quem amamos
atravessando os anos em silêncio,
é um olhar guardado na memória,
um portão, uma despedida,
um “Deus te abençoe”
que o tempo nunca conseguiu apagar.
Partimos porque tínhamos sonhos,
mas ninguém nos contou
que alguns sonhos carregam ausências.
E seguimos…
entre conquistas e lembranças,
aprendendo que vencer também dói
quando não podemos abraçar
quem nos ensinou a sonhar.
Hoje compreendo:
quem parte não deixa tudo para trás.
Leva consigo os afetos, as raízes,
os gestos e as vozes.
Porque saudade talvez seja isso:
o amor quando já não cabe no presente
e decide morar para sempre
dentro de nós.

Roleta russa
Forte você é...
Percebo você tremendo,
vacilando,
titubeando...
no caminho da vida se equilibrando.
Corda bamba...
Campo de guerra, barreiras fortemente armadas por sacos de areias sociais,
o frio da lápide... dias desnorteados, completamente imorais.
Não amedronta, e precoces lançam-se ao fim, à morte... pronta está desde agora sua lápide.
Roleta russa, desatino, jogam dardos envenenados em suas mãos frágeis
O ferro, o berro, o sangue...
o homem ainda menino
Vejo você sofrendo...
lutando...
se adaptando.
Roleta russa...
Cada dia uma agonia.
vida perdida, triste e vazia.
Forte você é...
a luz a cortar o escuro da janela...
na vida você está pro que der e vier...
pra tudo o que se esperar dela.

O caminho mais viável para reduzir a prostituição é aceitar que a falha é de todos nós, em vez de apontar várias falhas aos outros.

Uma boa nova


Caminho pela noite fresca sob os reflexos de luz na calçada, nas paredes, nas árvores: figuras modeladas pela minha crença. O que serão essas ilusões? Que verdade guardam? Por que me projeto sobre a realidade e a modelo com as minhas mãos? Por que a necessidade de crer quando a liberdade está roçando as solas dos meus pés?

As pedras no caminho
Vindas da dor
Serão guardadas com carinho
Pelo amigo do amor

Uma vida simples é uma vida sem esforço, sem exigências e sem expectativas. O caminho que vai longe é o macio, sem resistência, calmo e devagar.

Os seres nulos


Caminho pela rua velha e escura, como de costume, mas, esta noite é diferente. Posso perceber a vida, os seres em toda a parte. Sob os meus pés, as lajes de pedra, acima de mim, os prédios se elevando no céu cinzento. As árvores se estendendo para me proteger, os postes, segurando a calçada, os homens a gritar no breu, sem nada, sem rumo. Quem me dera eu fosse antes alguém que pudesse ordenar a vida que se esvai, se eu vivesse a redimir o quanto se chorou por não haver consciência daqueles que ninguém nunca deu valor.

Caminho sem destino. Maya me guia pelo nada. Aprendendo intuindo: os aromas de Lakshimi. Pombo alça vôo, adeus Shiva.

A esquizofrenia é uma porta para um mundo oculto, além da lógica e de todos os caminhos conhecidos.

Intuir


Para se fazer qualquer coisa existem dois caminhos: existe um método, que é analisar os elementos da nossa ação, assimilá-los e depois aplicar ao conjunto, chegando ao que se espera do ensinamento. A outra maneira não segue ordem nenhuma: se quer chegar ao final logo de início por se fazer o que é complexo sem nenhuma preparação. A primeira forma é o aprendizado, a segunda é a criação.

Fria noite


Caminho pela rua à noite. A luz mortiça se refletindo nas lajes. Ó meu querido papel que aceita tão docemente a minha mágoa, o que não encontramos na noite, lar do sonho e da imaginação? Enquanto abro caminho na névoa, os espectros tomam forma, passam por mim protegidos pela escuridão. O escuro contém algo que eu perdi, que não me deixa encontrar. Foi a luz do dia, a clareza e a certeza da compreensão. A certeza da morte ao final. O breu do meu sonho cria vagos lampejos de nebulosidades. Durmo e vivo num mundo em que não há memória, que não tem passado nem futuro, ele existe sem termos consciência. Não quero, não posso voltar, a noite me seduziu e me tomou como posse. Só quero imaginar e isso acontecerá.

Uma pessoa complicada é rica em caminhos misturados, uma pessoa simples é uma mistura de caminhos ricos.

Prisão


No caminho para casa, as lajes do chão sobem para sustentar os meus pés, conforme a minha crença e o meu desejo. Eu quero chegar logo e não presto a atenção em nada que possa aumentar o tempo que me leva ao destino. Uma moto passa raspando por mim, é algo que inventei para apimentar a noite. Não há medo, os meus passos são suaves, eu nem os noto. Aqui em casa se juntou o desejo do conforto com a certeza tola de ter atingido o objetivo. A magia do mundo termina quando eu tenho medo. O medo me faz pobre, velho e mesquinho.

Você pode discordar das escolhas de alguém, pode não entender seus caminhos e até acreditar que ela está cometendo um erro. Ainda assim, a vida é dela. Respeitar também é aprender a ficar em silêncio quando ninguém pediu sua opinião.

Pedras

As pedras nunca perguntam nosso nome.
Elas apenas estão espalhadas no caminho, acumuladas nos bolsos invisíveis da vida, empilhadas no peito quando o dia pesa demais.

Há pedras que tropeçam a gente. Pequenas, traiçoeiras, quase invisíveis. São as palavras mal ditas, os olhares que ferem sem tocar, as ausências que chegam antes da despedida. Outras são enormes, do tamanho de um não definitivo, de um sonho interrompido, de uma porta fechada por dentro.

Aprendi cedo que pedra não escolhe quem encontra. Rico ou pobre, descalço ou de sapato caro, todo mundo tropeça. A diferença está no que se faz depois da queda.

Tem gente que senta na pedra e faz dela morada. Constrói casa de lamento, coloca cortina de desculpa, serve café de amargura. Vive ali, endurecendo junto, confundindo peso com destino.

Mas há quem recolha a pedra com cuidado. Observe seus cantos, sinta sua aspereza, reconheça o machucado que causou e sigui. Algumas viram degraus. Outras, fundação. Algumas, quando lançadas longe, ainda fazem barulho ao cair, como se protestassem contra a própria inutilidade.

As pedras também guardam memória. Sabem onde a gente caiu, onde sangrou, onde quase desistiu. Por isso doem tanto quando reaparecem no mesmo trecho do caminho. Elas lembram: você já esteve aqui.

E mesmo assim, seguimos. Com os pés calejados, com a alma aprendendo a pisar melhor. Porque, no fim, o caminho não é feito só de chão liso. É feito de pedras que nos ensinaram equilíbrio, força e escolha.

Talvez a vida seja isso:
não a ausência de pedras,
mas a arte de decidir
quais carregamos,
quais usamos para subir
e quais deixamos onde estão
para que não sejamos nós
a endurecer primeiro.

Aquele que ignora o caminho da luz seguirá apenas a própria sombra

Não investir na saúde é montar armadilhas no próprio caminho de olhos fechados.

A luz do conhecimento revela o caminho, mas expõe toda sujeira que estava oculta na escuridão.