Cada um tem de Mim Exatamente o que Cativou e

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"A morte apenas remove o véu; no epílogo da vida, a verdade nos expõe exatamente como fomos."

*EU ME QUERO DE VOLTA*


Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar.


Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço.


A estrada de serra estava quase vazia.


Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem.


Eu gostava disso.


Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário.


Atualizando.


Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo.


Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira.


Dizem para estudar.


Trabalhar.


Construir.


Casar, talvez.


Ter filhos.


Comprar uma casa.


Ser alguém.


A gente acredita.


Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele.


Eu cumpri algumas partes.


Outras fiz pela metade.


E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido.


Foi só muito depois que percebi isso.


Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia.


A gente sofre.


Depois chama aquilo de experiência.


É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada.


Continuei subindo.


Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais.


Ele não tinha pressa.


Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores.


Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida.


Homens cansados.


Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar.


Gente que bebia todos os dias.


Gente que trabalhava todos os dias.


Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo.


Eu costumava olhar para essas pessoas de fora.


Agora começo a reconhecê-las por dentro.


Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer.


Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando.


O homem que você julgava acomodado.


Você.


A mulher que você achava que tinha desistido.


Você.


O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida.


Você.


É uma espécie de justiça tardia.


A vida não manda boleto.


Manda espelho.


Voltei para a estrada.


Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra.


Parei.


Fiquei olhando.


Não senti nenhuma revelação.


Ainda bem.


Tenho desconfiança de revelações.


Quase sempre elas duram até o próximo problema.


O que senti foi uma coisa mais simples.


Cansaço.


Um cansaço antigo.


Não do corpo. O corpo estava funcionando.


Era outro.


O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir.


Quando somos jovens, procuramos respostas.


Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores.


E algumas perguntas não querem resposta.


Querem companhia.


Segui pela estrada litorânea.


Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum.


Talvez ele soubesse alguma coisa.


Talvez não.


Essa é outra mentira da idade.


A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais.


Nem sempre.


Às vezes só chegou mais longe.


Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás.


Não pessoas exatamente.


Momentos.


A adolescência.


Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta.


Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes.


Uma rua.


Um quarto.


Uma conversa idiota.


Uma música tocando num rádio ruim.


Uma tarde sem obrigação.


A sensação de que ainda havia muito tempo.


É curioso.


Quando temos tempo, queremos futuro.


Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes.


Não quero voltar a ser adolescente.


Isso seria uma estupidez.


Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente.


Não necessariamente melhor.


Diferente.


Talvez seja isso que eu tenha perdido.


Não a juventude.


A capacidade de acreditar antes de exigir garantias.


Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto.


E algumas coisas corretas fizeram estragos.


Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi.


Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece?


Você trabalha.


Paga contas.


Cumpre compromissos.


Evita escândalos.


Engole algumas vontades.


Adia outras.


Diz “depois”.


Diz “agora não”.


Diz “é o melhor”.


E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era.


Não houve uma explosão.


Não houve música triste.


Ninguém percebeu.


Foi acontecendo.


Depois que sangra, seca.


O problema é que a pele fica diferente.


Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido.


Uma relação.


Uma amizade.


Uma possibilidade.


Uma versão de mim.


Aquilo não me matou.


Mas algo naquele dia morreu em mim.


Demorei para entender.


Ou talvez ainda não tenha entendido.


A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo.


Porque existe gente madura.


E existe gente apenas cansada.


Existe gente tranquila.


E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida.


Existe gente que aprendeu a viver.


E existe gente que aprendeu a não reclamar.


Às vezes eu não sei em qual grupo estou.


Talvez nos dois.


Continuei rodando.


O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado.


Foi bom.


Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável.


Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos.


Nunca fui exatamente uma pessoa simples.


Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito.


Hoje já não sei.


Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender.


Eu sempre vou ser uma confusão.


Não digo isso com orgulho.


Também não digo com vergonha.


É apenas um diagnóstico sem médico.


No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena.


Não havia quase ninguém.


Tirei o capacete e sentei num banco.


O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada.


Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida.


Talvez a amnésia resolvesse o problema.


Esquecer algumas coisas.


Esquecer algumas pessoas.


Esquecer certas versões de mim.


Mas logo percebi que seria inútil.


Porque não é o passado que continua nos perseguindo.


Somos nós que continuamos voltando até ele.


Voltei para a moto.


Ainda não sabia para onde iria dormir.


Também não sabia o que faria no dia seguinte.


Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça.


Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada.


Tudo correu como eu não planejei.


E, apesar disso, cheguei até aqui.


Não é uma vitória.


Também não é uma derrota.


É apenas o lugar onde estou.


A estrada continuava pela costa.


Eu podia seguir.


Podia parar.


Podia voltar.


Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta.


Ainda bem.


Passei anos demais obedecendo placas.


Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro:


eu me quero de volta.


Não o homem que fui.


Isso seria impossível.


Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo.


Antes de transformar desejo em obrigação.


Antes de confundir responsabilidade com abandono.


Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”.


Talvez viver seja justamente isso.


Perder algumas versões de si.


Encontrar outras.


E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento.


Parar.


Olhar.


Não tentar trazê-la de volta.


Apenas agradecer.


Depois subir na moto e continuar.


Porque existir é pouco.


É preciso viver.


Mesmo sem saber exatamente como.


Mesmo carregando perguntas.


Mesmo fazendo errado.


Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos.


Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo.


O motor pegou na primeira tentativa.


Pus o capacete.


Acelerei.


Vamos, vida.


Me surpreenda.


Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.

Nem tudo que parece ser ruim é exatamente ruim,usam o medo para te manipular...
Não temo as sombras,as sombras são nossos aliados,necessários à nossa evolução.

Hoje me peguei chorando por causa das sobras do passado.


Não exatamente pelo que aconteceu, mas por tudo aquilo que eu imaginei que poderia ter sido. Pelos planos que não saíram do papel, pelos sonhos que ficaram pelo caminho e pelos tantos “e se...” que ainda ecoam dentro de mim.


Às vezes, a saudade não é de uma pessoa. É da versão da nossa vida que imaginamos viver ao lado dela.


Dói pensar em como teria sido se tivesse dado certo, se algumas escolhas fossem diferentes, se algumas palavras tivessem sido ditas no momento certo, se algumas pessoas tivessem ficado.


A verdade é que existem histórias que terminam, mas não deixam de existir dentro da gente. Elas viram lembranças, devaneios e, de vez em quando, lágrimas.


E hoje eu chorei.


Não porque quero voltar, mas porque por alguns minutos senti falta daquilo que nunca chegou a existir.


Talvez amadurecer seja isso: aprender a fazer as pazes não apenas com o que perdemos, mas também com tudo aquilo que sonhamos e nunca tivemos.

Minha querida tia,

Hoje senti uma vontade enorme de falar com você. Não sei exatamente por quê… talvez porque a saudade apertou um pouco mais, talvez porque existem sentimentos que a gente guarda por tanto tempo que, em algum momento, eles precisam encontrar um caminho para sair.

Então resolvi escrever.

Sou eu, a Dede… aquela garotinha que você conheceu.

Aquela menina cresceu, tia. Criou asas e voou para longe. A vida me levou por caminhos que eu nunca imaginei, para longe de casa, da família, das pessoas que fizeram parte da minha infância e de quem eu sou.

Mas existe uma coisa que o tempo e a distância nunca conseguiram mudar:

o meu coração ainda está aí.

Quando penso em casa, penso em vocês. Quando lembro da minha infância, encontro vocês nas minhas lembranças. E, por mais que a vida tenha mudado, por mais que eu tenha construído uma vida tão longe, existe uma parte de mim que continua pertencendo àquele lugar.

Às vezes sinto uma saudade tão grande que chega a doer.

Saudade de você.
Saudade da família.
Saudade dos tempos em que estávamos todos juntos e eu nem imaginava que um dia sentiria falta até das coisas mais simples.

É engraçado como a vida é… Quando somos pequenos, achamos que aqueles momentos vão durar para sempre. Não pensamos que as pessoas vão crescer, que cada um vai seguir seu caminho, que alguns vão partir, que outros vão formar suas próprias famílias.

A gente simplesmente vive.

E hoje eu daria tanto valor a coisas que, naquela época, pareciam tão pequenas…

Uma conversa.
Uma visita.
Uma tarde qualquer.
Uma mesa cheia.
Um abraço.

Hoje eu sei que eram tesouros.

Às vezes me pego pensando em todos vocês. Lembro dos meus primos quando eram miúdos, das brincadeiras, das crianças que éramos. E então percebo que eles cresceram… Viraram homens, casaram, tiveram filhos.

E eu fico pensando em tudo o que aconteceu enquanto eu estava longe.

O tempo passou tão depressa, tia.

E talvez seja isso que mais aperte meu coração: perceber que a vida está acontecendo aí enquanto eu estou aqui, tão longe.

De vez em quando sonho com aqueles que já partiram. Eles aparecem nos meus sonhos como se ainda estivessem aqui. E nesses momentos parece que Deus me dá alguns minutos para voltar no tempo, para vê-los novamente, para sentir que ainda posso estar perto deles.

Mas então eu acordo.

E fico com aquela sensação estranha no peito… uma mistura de amor, saudade e tristeza.

Porque no sonho eu consegui encontrar quem a vida levou.

E talvez por isso eu tenha tanto medo do tempo.

Tenho medo de que os anos continuem passando e de um dia eu olhar para trás e perceber que deixei momentos importantes escaparem. Tenho medo de perder pessoas que amo sem ter tido tempo suficiente para dizer o quanto elas significam para mim.

Tenho medo de que um dia eu queira voltar e não consiga mais encontrar tudo exatamente como deixei.

Talvez seja por isso que hoje eu queira te dizer:

Eu sinto muito a sua falta.

Sinto falta de vocês mais do que às vezes consigo admitir.

E tenho um desejo enorme de voltar. De encontrar vocês. De sentar perto de você. De ouvir sua voz. De conversar sobre a vida. De saber como você está. De olhar para você e, finalmente, matar um pouco dessa saudade.

Queria poder te dar um abraço daqueles bem apertados… daqueles que não precisam de palavras.

Um abraço onde eu pudesse colocar todos esses anos de distância.

Toda a saudade que ficou.

Todas as lembranças.

Todo o amor.

Talvez, quando eu te encontrar, eu chore. E talvez nem consiga explicar por quê.

Mas, se isso acontecer, apenas me abrace.

Porque naquele abraço vai estar a Dede que cresceu, que foi embora, que conheceu outros lugares e viveu tantas coisas…

Mas que nunca deixou de ser aquela menina que tinha uma família, uma casa e um lugar para onde o coração sempre soube voltar.

A vida me fez criar asas, tia.

Eu voei.

Mas aprendi que criar asas não significa esquecer de onde a gente veio.

E eu nunca esqueci.

Vocês continuam sendo parte de mim. Das minhas raízes, das minhas histórias, das minhas lembranças mais bonitas.

E, mesmo estando tão longe, existe um lugar dentro de mim onde vocês continuam todos juntos, exatamente como nas minhas melhores lembranças.

Talvez eu não diga isso com a frequência que deveria.

Talvez a distância, a correria e a própria vida façam a gente deixar para depois aquilo que realmente importa.

Mas hoje eu não quero deixar para depois.

Quero que você saiba que eu te amo.

Que amo a minha família.

Que sinto saudades.

Muita saudade.

E que, apesar de todos esses quilômetros entre nós, nunca houve distância suficiente para apagar o amor que sinto por vocês.

Espero que a vida ainda me dê muitos encontros.

Muitos abraços.

Muitas conversas.

Espero ainda ter tempo de sentar ao seu lado e olhar para você sem precisar de uma tela ou de uma distância no meio.

E quando esse dia chegar, tia, talvez eu simplesmente te abrace bem forte.

E naquele abraço você vai entender tudo aquilo que eu não consegui dizer em palavras.

Com todo meu amor e toda a saudade que carrego comigo,

Dede. ❤️

Eu sei exatamente o que você está sentindo agora. O silêncio da casa parece enorme, olhar para o celular dá um aperto no peito e, quando você fecha os olhos, a lembrança daquela pessoa machuca. Parece que o mundo inteiro se juntou para ver o seu limite.Dói muito, eu sei. O pior não é só a saudade; é o orgulho ferido. É a sensação de ter sido feito de bobo por quem você mais cuidou. Ver quem te machucou seguindo a vida, sorrindo e postando fotos enquanto você mal consegue comer, dá uma raiva enorme. A gente se pergunta como alguém consegue dormir em paz depois de fazer tanto estrago.Mas escute com atenção o que ninguém teve coragem de te falar: não chore por quem não daria a mínima se você sumisse.A verdade é que essa pessoa não está feliz de verdade. Gente vazia precisa fazer muito barulho para tentar parecer importante. Você não errou por ter amado, por ter sido fiel ou por ter dado o seu melhor. O erro foi da outra pessoa, que recebeu tudo e preferiu viver de migalhas.Essa dor que está te rasgando hoje não vai te destruir. Ela está te deixando mais forte. O universo precisou arrancar essa pessoa da sua vida com força porque sabia que você não teria coragem de terminar. Foi um livramento disfarçado de tristeza.Chore tudo o que precisar hoje. Limpe o rosto. Mas aprenda uma lição para sempre: nunca mais deixe o seu valor nas mãos de quem não sabe te respeitar. Daqui a alguns meses, com a sua vida reconstruída, você vai olhar para trás e ver a realidade. Quem perdeu de verdade não foi você que chorou no quarto. Foi quem perdeu você.Levante a cabeça. A vida dá voltas e, no tempo certo, ela coloca cada pessoa exatamente no lugar onde merece estar.

As Seis Paradas e o Mistério das Mochilas
Era 12 de junho de 2023. Exatamente às quatro horas e cinquenta minutos da madrugada, o motorista Peregrino abriu o aplicativo de transportes. Ainda era noite, e a cidade começava lentamente a despertar. Quase no mesmo instante, recebeu uma chamada curiosa: a corrida informava vários pontos de parada e, para completar, o valor era bastante convidativo. O Peregrino pensou consigo mesmo: “Hoje é Dia dos Namorados. Quem sabe não vai ser uma ótima corrida!” Sem imaginar o que aquela viagem lhe reservaria, dirigiu-se ao primeiro endereço indicado pelo aplicativo.
O ponto inicial ficava atrás de um condomínio residencial no bairro do Embaré. Ao chegar, um senhor, aparentando estar na casa dos quarenta anos, muito bem-vestido e extremamente educado, saiu de um dos imóveis e entrou no carro. Depois de cumprimentar o motorista, explicou: “Senhor, nós temos seis paradas, sendo a última, esta de onde estamos iniciando a corrida.” O Peregrino respondeu tranquilamente: “O senhor é quem manda. Vou fazer o máximo possível para que o senhor goste do meu serviço.” Tudo parecia normal, embora aquela quantidade de paradas, logo de madrugada, já tivesse despertado sua curiosidade.
Na primeira parada, o passageiro pediu: “Por favor, abra o porta-malas do carro. Um rapaz que está me esperando vai colocar uma mochila.” O Peregrino abriu o porta-malas e, poucos instantes depois, um rapaz apareceu, colocou uma mochila no veículo e foi embora. Na segunda parada, exatamente a mesma cena se repetiu. Foi então que o Peregrino começou a desconfiar de que havia algo estranho naquela corrida. “O que será que está acontecendo?”, pensou. Afinal, ninguém explicava o motivo de tantas paradas e de tantas mochilas.
Na terceira parada, tudo se repetiu. Na quarta, novamente. Na quinta, mais uma vez. Sempre a mesma sequência: o carro parava, alguém se aproximava, uma mochila era colocada no porta-malas e eles seguiam viagem. A cada parada, a curiosidade do Peregrino aumentava, mas ele mantinha a tranquilidade e o profissionalismo. “Será que estou diante de alguma situação que não estou entendendo?” Talvez houvesse uma explicação simples para tudo aquilo. Restava esperar.
Depois da quinta parada, retornaram ao ponto inicial. O passageiro permaneceu em silêncio por alguns instantes e, então, surpreendeu o motorista: “Estou impressionado com o comportamento do senhor. Por acaso, o senhor é ou foi professor?” O Peregrino sorriu e respondeu: “Bem que eu gostaria de ter sido um profissional ligado à educação, mas segui o caminho da Administração de Empresas. Fui bancário por quase dez anos, depois proprietário de uma pizzaria em São Paulo, por quase vinte anos e, finalmente, trabalhei na área de vendas até me aposentar.” O senhor perguntou: “E o que o senhor vendia?” O motorista respondeu: “Eu vendia leite desta região. Certamente o senhor já bebeu muito leite Letti. O melhor leite do Brasil.” O passageiro respondeu: “Toda a minha família só bebe esse leite.”
Foi então que a conversa tomou um rumo inesperado. O senhor perguntou: “Por acaso, o senhor não quer fazer este trabalho para mim, de segunda a sábado? Pode ficar tranquilo, que nada lhe acontecerá.” A proposta pegou o Peregrino de surpresa. Ele, porém, respondeu: “Agradeço sua proposta de trabalho, mas demorei muitos anos para conquistar a minha liberdade plena. O único compromisso que tenho hoje é pegar minhas netas na escola, de segunda a sexta-feira.” O passageiro insistiu: “E se eu disser que lhe pago três mil e quinhentos reais por mês? O senhor continuará recusando?” O Peregrino não hesitou: “Conforme lhe falei, a minha liberdade não tem preço.”
Finalmente, chegaram ao ponto final da corrida. O motorista abriu o porta-malas, e o passageiro começou a retirar as mochilas recolhidas durante aquela estranha viagem. Antes de se despedir, abriu uma delas, retirou uma nota de cem reais e entregou-a ao motorista como gorjeta. Em seguida, disse: “Não vou informar o meu celular para o senhor, por precaução, mas o senhor já sabe onde eu moro. Se mudar de ideia, a vaga é sua.” Naquele instante, o Peregrino percebeu que aquela corrida, iniciada às quatro e cinquenta da madrugada como uma simples oportunidade de ganhar dinheiro, havia se transformado em algo muito mais curioso.
Nisso, a porta da residência se abriu automaticamente, acionada pelo controle remoto que estava no bolso do passageiro. O Peregrino observou a cena e pensou em tudo o que havia acontecido naquela manhã: as seis paradas, as mochilas, os rapazes, a proposta de trabalho e a frase enigmática de que “nada lhe aconteceria”. Talvez nunca soubesse exatamente o que havia por trás daquela corrida tão incomum. Mas uma coisa ele sabia: a liberdade que conquistara depois de tantos anos não seria trocada por salário algum.
Por fim, com a mesma educação que demonstrara desde o primeiro instante, o senhor se despediu: “Obrigado pelo seu ótimo serviço. Vá com Deus e tenha a continuação de um ótimo dia.”
O Peregrino partiu pelas ruas ainda tranquilas naquela manhã de Dia dos Namorados. E talvez tenha pensado que algumas corridas não terminam quando o passageiro desce do carro. Algumas continuam dentro da memória, acompanhadas de perguntas que permanecem sem resposta.
Peregrino Nino Carneiro

Se você se perder: Não entre em pânico. Pare, respire e olhe ao redor. Eu estarei exatamente onde prometi, esperando você me encontrar, hora após hora.
Se você cair: Não tenha medo do chão. Minhas mãos estarão estendidas e prontas para te segurar antes mesmo de você sentir o impacto.
Se o tempo passar: Deixe que ele corra. Cada segundo que se prolonga é apenas mais uma prova de que eu não vou a lugar nenhum.
Mesmo quando minha imagem parecer desaparecer e a luz do dia virar aquele cinza de incerteza, não duvide. Eu ainda estarei observando pelas janelas, torcendo para que você esteja bem, guardando cada segredo roubado lá do fundo do meu peito.
Pode ser que a batida do tambor esteja um pouco fora de ritmo agora e que o ponteiro dos segundos insista em girar para trás, tentando nos confundir. Mas, no fim das contas, meu compromisso com você é atemporal. Se você precisar de um porto, de um abraço ou apenas de alguém que saiba esperar, eu estarei aqui.

O mundo é grande demais quando não sei exatamente onde está o meu amor.

Olhando para trás, eu faria tudo exatamente igual. Você foi meu erro favorito e, sem dúvida, o meu acerto mais bonito.

Eu sei exatamente o que está acontecendo aí dentro agora. Sei que o vazio da casa parece ensurdecedor, que o celular virado para baixo na mesa pesa uma tonelada e que, toda vez que você fecha os olhos, a risada daquela pessoa soa como um deboche. Dá a sensação de que o mundo inteiro se uniu num complô invisível só para ver até onde você aguenta sem quebrar.É humilhante, eu sei. O pior da rejeição não é nem a ausência física; é o orgulho ferido. É a sensação de ter sido feito de bobo por quem você mais protegeu. Ver quem te quebrou seguir em frente, rindo, bebendo e postando fotos, enquanto você mal consegue digerir a comida, dá uma raiva que queima o peito. Você se pergunta: "Como alguém consegue dormir em paz sabendo o estrago que deixou para trás?"Mas escuta aqui, com toda a franqueza que ninguém teve coragem de te dizer até agora: engula o choro por quem não derramaria uma lágrima pelo teu velório.A verdade nua e crua é que essa pessoa não está rindo de você porque ela é superior ou mais feliz. Ela está rindo porque é rasa. Gente vazia faz barulho para macronizar a própria insignificância. O erro nunca foi seu por ter amado demais, por ter sido leal ou por ter entregado o seu melhor. O erro foi dela, que recebeu um banquete e preferiu comer migalhas no chão.Essa dor que está rasgando o seu peito hoje não é o seu fim. É o seu batismo de fogo. É o momento exato em que a sua inocência morre para dar lugar à sua armadura. O mundo não está contra você. O universo só teve que arrancar essa pessoa da sua vida com violência porque sabe que, se dependesse do seu coração mole, você nunca teria coragem de soltar. Foi um livramento fantasiado de tragédia.Chore tudo o que tem para chorar hoje. Lave o rosto. Mas guarde bem essa lição para o resto da sua vida: nunca mais dê a chave do seu valor na mão de quem não sabe o preço de nada. Daqui a alguns meses, quando a poeira baixar e a sua vida estiver reconstruída, você vai olhar para trás e perceber que quem realmente perdeu não foi quem ficou chorando no quarto. Foi quem perdeu você.Levanta a cabeça. O jogo ainda não acabou, e a vida tem um jeito muito bonito e silencioso de colocar cada um no seu devido lugar.

Eu sei exatamente o tamanho do estrago que está aí dentro agora. Sei que o barulho dos teus próprios pensamentos sufoca qualquer tentativa de respirar, que olhar para a tela desse celular apagado te dá náuseas e que, no instante em que deitas a cabeça no travesseiro, o eco daquela indiferença parece um tapa na tua cara. É uma solidão violenta. Dá a nítida impressão de que a vida escolheu você para ser o alvo de uma piada de mau gosto.A humilhação engasga, eu sei. O que destrói a gente por dentro não é só o ponto final; é a covardia do processo. É a sensação agonizante de ter sido descartado como um rascunho por quem trataste como obra de arte. Ver quem te quebrou seguir a vida intacto, blindado, esbanjando uma felicidade barata em redes sociais enquanto mal consegues forças para levantar da cama, gera uma revolta que queima o estômago. A gente se prende na pergunta: "Como alguém consegue seguir tão leve depois de carregar o peso de ter destruído outra pessoa?"Mas escuta aqui com atenção, porque o que eu vou te dizer agora ninguém tem a coragem ou a hombridade de falar: pare de sangrar por quem não moveria um dedo para te estancar.A verdade mais brutal é que essa pessoa não está rindo porque venceu ou porque é imune à dor. Ela faz barulho porque é oca. Gente superficial precisa de plateia e de aparências para esquecer a própria miséria interna. O teu erro nunca foi a tua entrega, a tua lealdade ou o tamanho do teu peito. O erro foi o endereço. Ofereceste profundidade para quem só sabe viver no raso, e quem só sabe nadar em poça d'água sempre vai se assustar com a imensidão do mar.Essa dor que parece que vai te matar hoje não é o teu caixão. É o teu despertar. É o exato segundo em que a tua ingenuidade é enterrada para que a tua maturidade possa nascer. O mundo não virou as costas para ti. O destino só precisou arrancar essa pessoa da tua história com força, porque sabia que o teu coração, orgulhoso e teimoso, jamais aceitaria soltar por vontade própria. Foi um livramento bruto, disfarçado de desastre.Chore o que tiveres que chorar agora. Deixa sangrar até cansar. Mas grava essa lição na pele para o resto dos teus dias: nunca mais permitas que quem não conhece o teu valor determine o tamanho do teu preço. Daqui a algum tempo, quando a tempestade passar e recolheres os teus pedaços, vais olhar para trás com os olhos limpos. E vais perceber que o verdadeiro prejuízo não foi de quem ficou com o peito rasgado na arena. Foi de quem perdeu o direito de caminhar ao teu lado.Sustenta o teu peso. A história não termina no capítulo da queda, e o tempo tem uma paciência cirúrgica para devolver a cada um o troco exato do que plantou. Lembre-se de que o mundo gira.

A vida opera exatamente como uma rede privada virtual. Ela mascara nossa localização real e altera nossos trajetos geográficos inesperadamente.
Essas mudanças de rota servem para blindar o nosso íntimo. O mundo exterior apresenta conexões digitais e humanas extremamente nocivas. Ruídos cotidianos tentam corromper a integridade da nossa história o tempo todo.
Mudar de endereço ou alterar o rumo não significa fuga. Essa dinâmica representa um mecanismo sagrado de preservação da alma. Navegamos disfarçados pelos caminhos tortuosos para manter a nossa verdade intacta. A criptografia existencial protege quem somos das invasões maliciosas do mundo.

PARADOXO I

E pela primeira vez usou da sinceridade.
Confesso que foi exatamente a sinceridade que sempre esperei de você, nada a mais, nada menos. Nenhuma surpresa.
Se bem, que lá no fundo, parte de mim ainda tinha esperança de salvar sua alma de si mesmo, inclusive dos icebergs que constituem sua forma de receber e fabricar amor. Talvez seja o motivo de viver sempre resfriado, o frio pode trazer esses tipos de males.
A sensação que mais uma vez conclui como fato, quanto mais “do bem” as pessoas demonstram que são, mais parecem demonstrar a necessidade de aparentar algo que realmente não são, como uma espécie de capa de proteção para os seus próprios monstros. Porém, elas se esquecem que quando os monstros saem para brincar, elas já não sabem mais quem são.

Talvez eu sempre analise tudo de maneira tão pessoal, afinal, “análise” nada mais é que opinião, mas fatos são fatos, eles não abrem um leque de conclusões, só simplesmente são fatos. Os fatos não se preocupam com sua opinião ou emoção, são só quem são, apáticos e sem proteção.

De qualquer forma, às vezes quando dizem para pensar melhor, talvez seja mais sadio não pensar em nada. Não digo só por uma questão ética, mas por simplesmente dar menos trabalho a nossa mente a qual processa milhões de informações por dia. Ela não se cala, ela não se aquieta, somente faz o que deve fazer, então não a pressione.

Nunca fui boa em contar histórias, sempre demorei mais que as outras pessoas e me recuso a resumir, pois todas as partes são importantes para uma conclusão. As vezes também perco o foco e uma história acaba dando na outra, que puxa outra e me lembra aquela vez de uma certa história que parece muito com aquela outra. É que talvez seja difícil falar de coisas que já se foram ou se passam, assim como o tempo e a sensação que estava na primeira linha do primeiro parágrafo.

Se eu tivesse que explicar você


Se alguém me perguntasse
o que exatamente aconteceu comigo
depois que conheci você,
eu provavelmente não saberia responder.


Porque não foi uma coisa.
Não foi uma palavra, um gesto,
um momento específico.


Foi um conjunto de detalhes
que, separados, talvez não significassem nada...


mas que, juntos,
fizeram você se tornar você para mim.


E talvez seja isso que torna tudo tão difícil de explicar.


Como explicar que uma pessoa
pode se tornar importante sem pedir para ser?


Como explicar que, em algum momento,
a gente percebe que já não está apenas conhecendo alguém...
está conhecendo um mundo.


Um mundo com histórias que eu ainda não conheço,
com cicatrizes que não vi,
com sonhos que talvez ainda nem tenham nome,
com medos que você talvez esconda,
com desejos que ainda vou descobrir.


E eu não quero conhecer esse mundo de uma vez.


Quero descobrir aos poucos.
Quero conhecer a mulher que você é
quando está feliz,
a que aparece quando está cansada,
a que ri das próprias bobagens,
a que fica teimosa,
a que muda de ideia,
a que se irrita,
a que sonha,
a que às vezes duvida de si mesma...


Quero conhecer até as versões suas
que você talvez ache difíceis de amar.


Porque gostar de alguém
pelas partes bonitas é fácil.


O que me interessa é conhecer o conjunto.
A pessoa inteira. Sem recortes.


Sem precisar transformar você
em uma versão perfeita
para caber no que eu sinto.


E talvez seja essa a minha maior declaração:
eu não quero uma personagem sua. Quero você!


Com suas certezas e contradições.
Com aquilo que mostra
e aquilo que ainda não conseguiu mostrar.


Com os dias em que tudo parece simples
e aqueles em que nem você consegue
entender o que está acontecendo aí dentro.


Quero continuar descobrindo.
Porque quanto mais eu conheço você,
menos vontade tenho de encontrar uma definição.


E talvez eu finalmente tenha entendido:
algumas pessoas não foram feitas
para serem explicadas.


Foram feitas para serem conhecidas.


E você...


eu quero passar muito tempo,
mais 1000 anos fazendo exatamente isso.

Eu costumava dizer exatamente as mesmas coisas.
Mantive a calma e não me meti em confusão.
Achei que a luta me fortaleceu.
Como se eu tivesse sido feita para nunca desistir.
Mas eu não consegui consertar, não consegui merecer.
Não consegui me limpar de alguma forma.
Eu me libertei daquilo que estava me matando.
E eu não sou mais o mesmo homem.

O Sagrado Entre-Lugar


Os períodos mais transformadores da vida começam exatamente assim com a sensação de estar entre um lugar que já não é mais nosso e outro em que ainda estamos aprendendo a habitar. E é nesse 'entre' que muitas das nossas maiores transformações e estado de consciência plena acontecem.
​Não é um espaço de conforto, é de verdades. O 'entre' é o lugar onde a pele se sente fina, a respiração fica pesada e onde as certezas de ontem se desfazem e as de amanhã ainda não possuem contornos definidos. É o silêncio que precede o salto e o vazio que antecede a nova forma.
Para a chegada do novo é necessário se desfazer do anterior. Pois eles podem não caberem ou mesmo poder serem juntos.
​Tememos esse intervalo, ansiosos por chegar logo à próxima margem. Mas é justamente no tempo de espera, na suspensão entre a partida e a chegada, que a vida nos convida à escuta. Ali, despidos dos papéis e das "máscaras" que já não nos cabem, temos a oportunidade de perguntar não apenas para onde vamos, mas quem estamos nos tornando durante a jornada.
​Não tenha, pois, pressa de sair do desconforto. O que chamamos de "estar perdidos" é, na verdade, a vida nos dando espaço para o reencontro.
A transformação não acontece no destino, ela floresce na travessia.


Dulias Durreis©

Nada é tão complicado
que não se possa simplificar.


E isso é exatamente o oposto do que o mundo nos ensina, né?!


O mundo, em geral, complica tudo
para depois, de um modo ou de outro,
vender soluções.


Simplificar é um ato de coragem.
É tirar a máscara.
É apagar o ruído.
É liberar-se do supérfluo e do fútil
e permanecer somente
com o que realmente vale a pena
e é essencial.
✍@MiriamDaCosta

Uma corrida, duas histórias
Eram exatamente 4h50 da manhã quando o motorista-peregrino ligou seu aplicativo de transporte. São Carlos ainda estava mergulhada na escuridão quando surgiu uma corrida para uma delegacia na Zona Norte. O passageiro estava a menos de um quilômetro de distância. Por ser madrugada, o motorista ficou um pouco ressabiado, mas aceitou a viagem.
Ao chegar ao endereço, percebeu que o passageiro era um policial militar. Assim que entrou no carro, o policial cumprimentou-o educadamente, e os dois seguiram viagem. Como sempre fazia, o motorista puxou conversa:
— Estou começando o dia com um passageiro que me dá segurança total!
O policial sorriu:
— E os demais passageiros não dão?
— Desculpe! O que quis dizer é que estou tentando tornar esta corrida agradável. Quem sabe o senhor não me conta alguma história interessante para o meu próximo livro?
Curioso, o policial perguntou se ele era escritor. O motorista explicou que era apenas um apaixonado pela escrita, autor de três livros, e que estava preparando outro, chamado “Entre Caminhos, Histórias e Aprendizados”, no qual pretendia reunir histórias vividas em suas caminhadas e aquelas que escutava dos passageiros.
O policial gostou da ideia e perguntou se poderia ganhar um dos livros. O motorista respondeu que sim, desde que ele lhe contasse algumas histórias marcantes de sua profissão.
— Então me conte duas: uma muito triste e outra engraçada.
O policial pensou por alguns segundos e começou pela mais difícil.
A história que nunca saiu da memória.
— Eu tinha pouco mais de um ano de profissão quando fazia uma ronda em São Paulo, pela Marginal do Tietê. De repente, vimos várias pessoas paradas às margens do rio, apontando para a água. Parecia que alguma coisa se mexia dentro de um saco.
Paramos a viatura, descemos e retiramos o saco da água. Quando o abrimos, descobrimos que havia um bebê recém-nascido lá dentro. Provavelmente tinha nascido poucas horas antes e fora jogado no rio pouco tempo depois.
Infelizmente, não havia mais nada a fazer. O coração daquela pequena criança já havia parado de bater.
O policial ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar:
— Fizemos todos os procedimentos necessários, mas aquela cena nunca mais saiu da minha cabeça. Até hoje não consigo entender como alguém pode cometer uma crueldade dessas contra uma criança indefesa.
O motorista ficou profundamente tocado.
— Existem histórias que a gente ouve e nunca mais consegue esquecer — disse.
Depois de alguns instantes de silêncio, lembrou-se da segunda história.
— Agora quero ouvir aquela que o senhor disse que me faria rir.
O policial sorriu.
O amigo do presidente
— Essa aconteceu em Ribeirão Preto. Eu e minha equipe estávamos em frente ao Fórum Criminal quando um morador de rua, bastante alcoolizado, aproximou-se de nós. Começou a nos ameaçar e disse que iria falar com o presidente Lula se não fôssemos até o viaduto onde ele dormia.
O motorista já começou a sorrir.
— Ele dizia que só queria dormir, mas que uns “homenzinhos verdes” passavam a madrugada fazendo dancinha perto do barraco, puxando seu cobertor e não o deixavam em paz. Depois afirmou:
— “Vocês sabem com quem estão falando? Eu sou amigo íntimo do presidente da República! Um telefonema meu e ele manda o Exército confiscar suas fardas e prender esses marcianos!”
O policial contou que a equipe resolveu entrar na brincadeira.
Abriram a porta traseira da viatura e disseram:
— Entra aí. Vamos levá-lo até o presidente da República. Se estiver falando a verdade, deixamos você lá para tomar umas com ele. Se estiver mentindo, vamos prendê-lo.
Segundo o policial, o homem não pensou duas vezes. Saiu andando em zigue-zague e desapareceu pela rua. Não quis mais saber de presidente, Exército nem de marcianos.
Os dois caíram na risada.
A corrida, que começara às 4h50 da manhã, havia se transformado em algo muito maior do que uma simples viagem. Em poucos quilômetros, o motorista encontrara duas histórias completamente diferentes: uma que provocava tristeza e reflexão; outra que arrancava gargalhadas.
Ao chegarem ao destino, os dois se despediram. O motorista agradeceu pelas histórias, que certamente encontrariam espaço em seu próximo livro, e cada um seguiu sua jornada.
Enquanto dirigia de volta, o peregrino pensou em algo que aprendera em suas caminhadas: às vezes, aceitamos uma corrida pensando apenas no destino, mas descobrimos, no caminho, que a verdadeira viagem está na história que encontramos pelo percurso.
Peregrino Nino Carneiro

bom, lutando é uma palavra muito forte, e vencendo não é exatamente a verdade, eu to sem vontade. sem vontade nenhuma..
me vejo morta daqui 10 anos.