Cada um tem de Mim Exatamente o que Cativou e
Aquilo que não tem remédio
Morreu de esperar
Na procura pela cura que não veio
Portanto
Está tudo certo e no lugar
Não faz mal ser preterido
E de vez em quando ser o último
Muitas vezes na vida
Eu fiquei lá no canto, esquecido
Sem pranto e nem lástima
Não sou dono de nada
e nem ninguém
O ar que respiramos é empréstimo
Uma concessão que Deus nos faz
Estou olhando
O mundo e a vida
do lado de fora
Qualquer hora é hora da partida
Não faz mal
Nem ter sido chamado pra festa
Dentro em pouco
Termina essa história louca
E todos se vão
Sim, é assim
Nós todos indo embora
E ninguém vai levar nada
A Inês é morta
Pouco importa o que fiz ou não fiz
O último a sair, por favor
Apague a luz
e feche a porta.
Edson Ricardo Paiva
Tem dias que se olha pro Céu
E procura encontrar figuras nas nuvens
Prende o coração no peito
Com pedaços de arame
E, não havendo outro jeito
Segue a vida
Repleta de dados imprecisos
Indiferente ao nome que a gente a chame
Esconde tristeza no sorriso
Sorrindo onde estiver
Até quando o sorriso durar
de resto, nada
Laços azuis por trás das nuvens
Um espaço, um pequeno indício
do que um dia
Podia ter sido vida
Fadada ao fracasso, desde o início
Esquecimento
O endereço e o rumo de tudo isso
No desenho das pegadas
E poeira da calçada.
Edson Ricardo Paiva
Janela
Paisagem distante
Tem coisas que não dá
Pra enxergar ou definir
Espaço e tempo
Prenúncio de tempestade
Um buraco no Céu
O Sol ainda arde
Mas agora é tarde
Difícil
Segundo a segundo
O dia escurece
Não se pode dizer
Quando a chuva cai
Mas é fácil dizer que ela vem
Janela aberta
Paisagem distante
Nada ou ninguém
Calado
Penso no passado
Tem dias que tudo passou
Eu murmuro uma oração
Ela há de ecoar pra sempre
A janela se fecha
Deserto por dentro e por fora
Agora só me resta uma certeza
Fechou-se a janela certa
A tarde parecia tão morna
Noite morta
Esquecida eternamente
Essa sensação parece boa
Somente a oração
Que no silêncio ecoa.
Edson Ricardo Paiva.
Poema de compreensão.
Na vida nada se tem
Como o ar que te escapa entre os dedos
Vai rodando a longa estrada
Um dia há medo
Em momentos, coragem
A paisagem que sumiu pela janela
Coisas boas e ruins
As pessoas
Nada que se vive
A vida vem para mal ou para bem
Mas passa
Esvaindo igual fumaça
E nada se tem ou se leva
Até mesmo as lembranças evaporam
A tudo que tive
O momento mais suave da existência
Não se leva nada
Nesta estrada estreita
Só se deixa
Nossos passos vão ficando no caminho
A gente só precisa
Aprender o que não sabe
Atentar onde pisa
Para que os passos sejam leves
E as lembranças suaves
Pois
Nessa nossa breve existência
Nada se leva
Nada se deixa
Nada e ninguém nos pertence
A vida é uma curta experiência
De cujos resultados, nada saberemos
Diferente
De tudo que se pensa
Enquanto vive
Tudo passou por mim
Mas eu nunca nada tive.
Eu sob a nuvem
A nuvem sob o Sol
E o Sol, num Céu que não tem fim
Mas, se existisse mesmo a infinitude
Qual seria a razão
Dessas simples existências
Eu, a nuvem, Sol e Céu
Juntos, nesse mágico momento
Que há de ser mais um, entre muitos
Qual de nós tem mais motivo
Pra estar vivo
Amanhã ou depois?
Pode ser que nenhum
Ou um
Talvez dois
Pequeno pedaço de espaço
Curto traço sem chão
Nem feio e nem bonito
Estranhamente finito
Perante tamanha amplidão.
Edson Ricardo Paiva.
De tanto querer
Que o tempo não passasse
Sem querer o vi passar
E tem horas que parece
Que só vi
Porém, sem vê-lo
Penso uma imensa lista
De coisas que queria ter feito
E que fiz
Mas vejo que fiz de outro jeito
Senão não cabia a mim
Esse vasto cabedal de desamor
Eu acho que só se desama
Porque na vida que se vive de verdade
Quando alguém encontra o amor
Pensa, infeliz, que só amor não basta
Difícil dizer
Os nomes dessas coisas tristes
Cidade onde nunca fui
Lugar que só existe em mim
Que no fim compõem as horas
Conjunto de longas horas
Que na falta de quaisquer outras
Insisto em chamar de vida.
Edson Ricardo Paiva.
Tem dias
Que o dia amanhece
Com cara de urgente
Talvez seja porque
Durante o sono o coração se esqueça
Que não existem mais
Urgências na minha vida
Tem dias
Claramente a imensa maioria deles
Em que o dia amanhece
Sem cara de nada
Se cada sonho
Não me desse o privilégio de esquecer
Acho que eu iria desejar
Que nem mesmo amanhecesse
Mas a vida segue assim
O coração quase esquece
E o dia quase amanhece
Até que um dia
Alguma emergência qualquer
Impeça a tarde de anoitecer.
Edson Ricardo Paiva.
Sonhos.
Tem gente que sonha
Tem sonhos que vem a nós
Todo mundo sonha, enfim
Nada que se sobreponha
Às estrelas, que nos encobrem as vidas
Estradas atrozes
Um pouco de poesia
Sobre umas coisas poucas
Uma leveza inexistente
Que se houvesse
De sonhos não carecia
Nem de espera
Um cuidado que parecia excessivo
E não era
Era a gente imaginando a vida
Pouco sabia além
A bem da verdade, nada sabia
Pra tudo mais
Um pouco de poesia
A torná-la mais leve
Nada que se sobreponha
Aos sonhos que não acontecem
Mas teremos pra sempre
A noite, estrelas, palavras que não foram ditas
Ou que talvez tinham sido
Não nas horas em que a gente
Tanto precisava ouvi-las
Um breve devaneio
O olhar desatento
Pensamento errado na hora certa
Todo mundo sonha, enfim
Assim como também desperta.
Edson Ricardo Paiva.
Tem horas em que a gente
Simplesmente olha em volta
e percebe que perdeu tudo
Perdeu o tempo, que não volta
E a posse temporária
da própria vida
e vive a realidade
de nem mais possuir
o direito à uma revolta
Sente somente a dor aguda
Daquelas
que te fazem ficar mudo
Tem dias em que a gente
Finalmente percebe
Que foi tudo uma ilusão
E que na verdade
Nunca teve nada
Portanto, ilusória foi a perda
Derrotas, vitórias
É tudo somente questão
de ponto de vista
Nada é de verdade
Alegrias ou dificuldades
O êxtase da conquista
A Luz que te iluminava
O amor ao qual se apega
A única verdade
À luz da realidade
É que toda a gente é cega
Toda pessoa tem sempre alguém que é para ela o Centro do Universo. Se você não é o Centro do Universo de ninguém, lembre-se: A Terra também não é o Centro do Universo, mas até onde sabemos; ainda não há quem consiga chegar a um lugar melhor que este aqui.
Azar de quem não te elegeu!
Tem horas em que fico me lembrando
Sentindo uma imensa saudade
daqueles bons tempos da inocência
Coloridas peças de encaixe
o brinquedo que vinha no doce
desenhar a minha mãe com tinta guache,
A moeda que meu pai trouxe da rua,
Olhar as figuras nos livros
Sem saber o que é que estava escrito
Correr até ficar sem ar
Parava, dava uma respiradinha
E novamente estava pronto pra brincar
Brincando a gente se machucava
cortava o dedo e chorava
No outro dia, tudo havia passado
E meu medo era de coisas imaginárias
Hoje os cortes são bem mais profundos
Feridas, que apesar de imaginárias
No outro dia não passaram
Eu aprendi a ler o escrito
E não gosto das coisas que eu leio
O tempo da falta de inocência veio
As peças não parecem ser mais assim;
Tão coloridas
Meus medos são reais
Nada mais se encaixa
Tem dias em que simplesmente
Minh'alma se eleva
Flutua por breve momento
É como se meu corpo
voasse ao vento, de tão leve
Não trago comigo
remorsos que me lesem
Não guardei na vida
nenhum ouro
e nem nada que hoje me pese
divido o que me caia às mãos
se não houver o que partilhar
partilho a fome
não quero e não desejo
aquilo que não me pertence
e é desta maneira que eu vejo
que devo viver
minha vida de homem
Não pergunto a ninguém
se estou correto
Na verdade, nem quero saber
a leveza que me invade
faz sentir
Que esta é minha única
e intrasferível
verdade.
Há aves que cantam
e existem aves que voam
tem também
As que são polivalentes
Cantam, voam e são belas
Deus criou também aquelas
Que não voam
As que sujam
e as que limpam
As que tem muita utilidade
E as que na verdade
Se juntam aos bandos em revoada
e nunca serviram pra nada
Algumas somem lá no Céu
de tão alto que voam
e de lá a tudo veem
Assim como os Olhos do Criador
Que fez as que nada enxergam
E assim, aos humanos se apegam
Deus fez as aves ruins
E fez também as muito boas
Depois colheu essas qualidades
E as colocou nas pessoas.
Quando o pássaro tem asas
A gaiola impede o voo
Estando lanosa a ovelha
O homem vem e lhe tosa
Às vezes
devorado, desarvorado
e arrependido
Não me perdoo
Por ter estado aqui
Cantando para quem
Jamais me quis ouvir
Doando minha carne, meu sangue
o que me restava de paciência
Além de toda uma vida
Vida ingrata
Deus me colocou aqui
Sob a reles condição de primata
No país das maravilhas
Covarde como o leão
Sem coração qual o Homem de lata
Agora não me resta nada
Na noite fria
Qual ovelha tosada
Minhas asas agora cansadas
Me relegam à mercê de predadores
E eles não são tantos
Enormes são suas maldades
Porém, nem precisavam sê-las
Quase nada mais me resta
Uma janela,
luz de estrelas no Céu,
Luz de velas cá na Terra,
vontade de fazer o certo
Um coração ausente, que erra
e o diabo sempre perto
tentando que eu desista
Cuspindo em meus poemas
aumentando meus problemas
Rindo da minha alma de artista
Um dia tudo se acaba
Exceto essas verdades
Que me invadem e orientam
Cada um carrega sua cruz
A minha me orienta a direção
da Fonte Universal de Toda Luz
Que haverá de confortar-me
e dar-me um coração
E um anjo de verdade
Pra fazer companhia
Se ainda persisto
E porque eu acredito
Na existência desse dia.
Tem gente que diz que sou louco
Não gosto e também não discordo
Sua opinião resulta
do muito pouco que entende
Eu creio que a gente
não depende de muitas coisas
que nos ensinaram: Estava errado.
mas a imensa maioria
as abraça hoje em dia
Como a Verdade Universal Iluminada
Desde que não lhes tirem nada
Que disseram que era nosso por direito
Mesmo assim eu creio que ainda é possível
haver Perfeição no Mundo e na Humanidade
Acredito que a Verdade nunca esteve oculta
Ela está nas palavras ditas exatamente
Nas horas e lugares em que todos estavam
Pensando em outra coisa, olhando pro lado
ou... não raro e normalmente
Preocupadas com o próprio umbigo
Admirando a sí mesmos
diante dos seus espelhos
Agradecendo a Deus por Tê-los feito
Tão espertos, tão bonitos, tão perfeitos
...tão senhores de si
sabedores de todas as respostas.
Que chegam a comentar intimamente
com seus egos,
"É de mim que Deus mais gosta
olha o resto, veja esta gente:
Eu sou muito mais bonito e inteligente"
Tem gente, então que me acha louco,
por crer piamente que isso tudo
é perfeitamente dispensável
A qualidade essencial de uma vida
É aprender a ouvir a voz que sopra o vento
Conversar com a Lua
ler mensagens nas estrelas
Sentir o carinho nas gotas de chuva
Quando a chuva cai.
Enxergar as irradiações positivas
de energia telúrica
emanando da Terra em direção ao Sol
Toda tarde quando o Sol se vai
reconhecer o olhar de um passante
Transmutado em andarilho
buscando um lugar
pra dormir na rua
compreender que ali vai meu Pai
e aqui está seu filho
É assim que enxergo a vida
é nisto que eu creio
Esta é a minha crua opinião
e, sinceramente
tampouco importa-me a sua
Tem dias em os dias são só dela
Dias há, em que as horas são só minhas
Há momentos em que não pertenço a nada
Nada faço e em mais nada penso
Nascem dias em que eu acordo propenso
a pensar somente em poesia.
Não é todo dia que se ri
Nem todo dia é dia de chegada
Há dias em que a gente chora
Tem dias em que esse dia é agora
Há momentos presentes
Que de alguma forma
Nunca mais haverão de estar ausentes
Pois tudo muda em nossa vida
Quando vemos, infelizes, a partida
De quem no fazia sorrir
e também ria
Adeus, Maria
Tudo muda de repente
Mesmo que não seja repentinamente
O que não muda e não mudará jamais
Será o modo de viver aquele momento
Que eu te via, em movimentos lentos
Me lembro de todos eles
Mesmo que pra ti eu parecesse desatento
Pois eu sei que não mais chegará
Eu fico aqui
E peço que essas palavras voem ao vento
e te alcancem e te abracem
E te digam que o que eu mais queria
Era que você ficasse
Adeus, Maria
Até um dia!
Samba.
Tem emoções
Que a gente sente à toa
Esse tal de amor, por exemplo
Não é coisa muito boa
Ela judiou tanto de mim
Que meu coração se esfola
Me fez eu violar minha viola
E cantar o samba de outra escola
Depois ela foi embora
Só vou gostar de samba, agora
Não estou mais nem aí com ela
Nem sinto mais o arrepio
Por aquele sorriso vazio
Aquela linda boca banguela
Cantou bem alto o samba concorrente
E eu fiquei tão descontente
depois que ela me deixou
levou até as minhas panelas
Me constrangeu, me intimidou
e riu de mim
Eu juro que foi assim
Não quis meu amor, tão puro
Ficou fazendo jogo duro
Eu posso viver sem ela
Mas este samba que eu fiz
Juro que não vai ter fim
Tem hora que a gente
sente vontade
de escrever poesia
mas não algo
Simplesmente convencional
Mas algo concretamente
Abstrato
Que falasse sobre alguma coisa
Que pesa sobre a gente
Apesar de flutuar
Algo lírico e poético
Mas que machucasse
Como se uma flor caisse
e fizesse
Alguém chorar
Como nunca chorou
Por nada
Eu queria ser poeta
Conhecer a maneira correta
De ferir somente o coração
Como uma canção bonita
Que fica na memória
e faz sentir saudade
de um lugar onde nunca esteve
ou se esteve, não se lembra
Mas tem vontade de estar
Agora
Eu não sei como se escreve
Algo que faz alguém sorrir
Enquanto chora.
Tem horas
em que apenas
os ponteiros andam
O tempo, este pára
A rede onde eu me deito
Idem, permanece inerte
E eu estou tão distante...
Caminhando na paisagem
daquele quadro que faz anos
Se move torto
Na parede à minha frente
Porém, todos esses anos
Se passaram em um instante
No momento em que o tempo parou
Não faz mal, tá tudo igual
O movimento, o tempo, a paisagem
Tudo faz parte da eterna viagem
Permeada de sombra e luz
Vida ou não
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