Miguel delibes
Pai, Viemos Ver Luanda.
Hoje, convidei o meu pai
a sair da sala, a desligar o mundo plástico,
e a calçar os pés da verdade.
Convidei-o a conhecer as ruas.
“Vamos, Pai.
Vamos ver as paisagens que os ecrãs escondem.
Vamos passear pela cidade que a televisão não mostra.”
E fomos…
Caminhámos por avenidas onde a esperança já não mora,
por vielas onde a infância morre sem nome,
onde crianças brincam com a fome,
e senhoras mendigam migalhas para alimentar
a última faísca de um amanhã incerto.
“Então, Pai…
o que achaste da nossa bela Luanda?”
Ele calou-se.
E no seu silêncio, a cidade gritou.
Seus olhos marejados
não cabiam no peito das notícias oficiais.
E eu disse-lhe:
“Esta é a graciosidade que ninguém exibe.
Mortes prematuras, abandonos precoce,
corações descartados como lixo.”
Venham todos.
Venham ver Luanda com os próprios olhos.
Não com os olhos que vos emprestam.
Venham vestir a camisola de Angola,
não a do orgulho cego,
mas a do luto ativo,
do olhar que se revolta.
Ganhem coragem.
Desçam das vossas salas refrigeradas.
O solo está quente de lágrimas.
As ruas estão sedentas de testemunhas.
Venham ver o que é ser angolano
fora da publicidade.
Quando se é novo é sempre a somar. Somam-se amigos, emoções, experiências, livros, canudos, lugares, responsabilidades, preocupações e ambições, vícios e prazeres que não viciam.
Até cada ano de vida que se viveu é celebrado como se fosse uma proeza. É triunfalmente que se chega aos 6, 10, 14, 18 ou 22 anos. E com razão. Ainda consigo lembrar-me que eram obra.
Depois, não sei a que idade (é aquela em que nos deixamos de importar tanto com as coisas, daí nunca darmos por ela), começamos a compreender a alegria e a liberdade de subtrair coisas e pessoas que só nos pesam, roubando-nos tempo, paciência e a calma necessária para sobrevivermos e que se vão tornando, monstruosa e deliciosamente, cada vez maiores.
O tempo de subtrair é cruel e frio e imensamente libertador. Dá vida aos últimos anos de vida que temos. Sim, porque a vida acaba. A morte acontece e, irritantemente, dura para sempre. Há quem diga que é como o tempo antes de nascermos (até um gênio como Samuel Beckett caiu neste pensamento impreciso) mas não é. O tempo depois de morrermos é sempre pior do que o tempo antes de nascermos.
Ninguém sobrevive. Nascemos, vivemos e morremos. Sobreviver é tão estúpido como anteviver. A grande diferença entre estar perto da nascença e estar perto da morte é que a proximidade da morte é necessária e suficientemente melhor conselheira.
Antes de morrermos convém nos despirmos até estarmos nus; só com os nossos verdadeiros amores.
Miguel Esteves Cardoso
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
[...]
Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e ações de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência.
[...]
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
[...]
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar."
PRÓLOGO: À PROCURA DO SER HUMANO
Havia muita gente na rua...
Os cônjuges passeavam de mãos dadas; jovens congregavam-se à sombra de uma mulembeira, discutindo a literatura africana dos séculos XVIII e XIX; outros, mais curiosos, discorriam sobre a ascensão do Iluminismo e a Revolução Científica e Tecnológica; alguns, do outro lado do ocidente, ostentavam vaidosamente aquilo que vestiam e consumiam...
Havia ainda aqueles que se entregavam a pelejas por nada menos do que pecúnia. Talvez, à primeira vista, isso pareça fútil, inclusive para um Miserável como eu... irrisório de se dizer e absurdo de se ouvir.
Cheguei a cogitar interceder; não obstante, como estava apenas de passagem, pouco desejava o meu íntimo que assim o fizesse.
Fui-me embora.
Segui adiante como segue o vento: sem olhar para trás.
Pensei se a minha atitude seria passível de apreciação por parte da sociedade. Por outro lado, temia igualmente que ela me censurasse por ter permitido que o meu subconsciente se recusasse a interceder em favor daqueles incompatíveis.
Ponderei, afinal, que a vida se assemelha a um cemitério, onde as tumbas já foram preparadas para nós há muito tempo. Daí que aquilo a que chamamos viver seja, de facto, um belo enterro.
Enfim...
Achei melhor abandonar tais reflexões e prosseguir a viagem de forma tranquila e solene.
Enquanto caminhava pelas terras da Humpata em direção à Chibia, já com a garganta ressequida pela longa jornada, deparei-me, de forma inesperada, com um viajante mukubal. Apressei-me, então, a saudá-lo:
— Graça e paz, amigo viajante. O que o traz a estas terras longínquas?
Então, respondeu-me:
— Estou à procura do ser humano. Pois, de onde venho, existem poucos.
Perplexo ante o que acabara de ouvir, tornei a inquirir:
— Afinal, amigo viajante, que tipo de ser humano procuras especificamente?
Em tom metafórico e exaurido pelo cansaço, replicou:
— Daquele que não deseja afirmação, mas perdão. Daquele que não quer possuir o céu, mas apenas ser digno de habitá-lo.
Estarrecido com as palavras do nômade, ensimesmei-me a refletir:
Que estranho...
De que tipo de ser humano se trata?
Não somos todos nós humanos por natureza?
Afinal, o que nos distingue daquele que ele tanto procura?
Permaneci aturdido diante das minhas próprias indagações e concluí que talvez tudo não passasse de um delírio do viajante mukubal; que o excesso de fadiga o tivesse levado a proferir tais afirmações aparentemente absurdas.
Enquanto monologava com o meu subconsciente, o viajante mukubal disse-me imediatamente:
— Não penses demasiado, filho.
Sabes, houve um tempo em que este mundo era habitado por pessoas verdadeiramente humanas. Pessoas de coração benigno. Zelavam umas pelas outras; faziam de tudo para resguardar a paz e a harmonia social; auxiliavam-se mutuamente, unidas por um único propósito: o bem-estar comum.
Não obstante, com o passar do tempo e com a descoberta dos minerais e de outros recursos naturais — ouro, diamantes, carvão, ferro e tantos mais —, bem como, mais tarde, do petróleo, da energia, das grandes invenções tecnológicas e, por conseguinte, da bomba atómica, esses humanos foram-se dissipando.
Na verdade, o amor tornou-se exótico nos últimos tempos.
O ego, por seu turno, erigiu-se como a suprema afirmação do homem.
Cada indivíduo passou a buscar a própria exaltação perante os demais.
Converteram-se em amantes da guerra.
Possuídos pela febre da opulência.
Famintos de poder.
Endividados pela ignorância.
Dominados pela ganância.
Obnubilados pela ausência de lucidez.
Sepultados na desgraça e engendrados pela cobiça.
É desse ser humano que estou à procura, filho.
Por acaso, viste algum por aí?
Na escuridão silenciosa de nossa própria mortalidade, surge uma pergunta que muitos de nós prefeririam evitar: como será o nosso epitáfio? Afinal, o epitáfio não é apenas uma inscrição gravada em uma lápide; é o resumo de como vivemos nossas vidas, como tocamos os corações das pessoas e o legado que deixamos para trás.
" Em vida é melhor olhar ao céu do que lá viver...
Na certeza de que teremos sempre alguém a olhar por nós, a observar-nos...
Namorar a lua, mas com os pés bem assentes no chão é meio caminho para a felicidade.
E o resto do caminho faz-se todos os dias um pouco de cada vez, porque nesta vida não há caminhos traçados, os caminhos fazem-se a andar, acreditando sempre que aquele será o caminho certo, o caminho por certo que nos levará onde queremos chegar... "
✍ Miguel De Campos
Por mais socialmente correto que o indivíduo seja, quando em dificuldades extremas, terá que se adaptar e, se necessário, ser completamente anti-social.
A importância da preservação da cultura é relevante no
sentido de incentivar a ignorância e estagnação. Deveria
ter sido incentivada há milhares de anos, dessa forma não
teríamos atingido este estágio de desenvolvimento e o
planeta seria mais natural.
Amar pode ser mais doloroso que odiar, por isso entendo como alguns preferem o ódio ao amor, eu prefiro sofrer, amar.
Um aprendiz de ser-humano tentando aprender. Um sistema podre e uma sociedade hipócrita tentando impedir. A vida sofrida de quem fez e faz sofrer. Uma realidade terrível de seres ratos humanos sendo. O fedor dos paludes da mortandade e indiferença. O amor que vai, o ódio que fica, o amor que volta e se junta ao ódio. As chagas incuráveis do underground. Felicidade jamais conhecida. Jazida corrompida. Triste...
Conta-me uma piada! quando eu, de tão triste, não quiser sorrir.
Me norteia! quando eu não tiver para onde ir;
Abraça-me! quando eu desesperado desejar sumir.
Beija-me agora! enquanto Eu, ainda estou aqui.
Penso tanto... tanto nela.
De contínuo, mas enfim!
Olho triste pela janela...
Ah... sera que ela pensa em mim?
Ausento-me de mim mesmo.
Com o pensamento eu corro!
Alegro-me quando de súbito vejo,
Os traços inocentes do seu rosto.
Ah... mas se ela soubesse,
O quanto me dói sentir!
Ah... mas e se ela dissesse:
- Eu sinto o mesmo por ti.
Quando recomponho-me,
Julgo não saber ao certo o que vi.
E ao espelho fitando-me...
Noto, que estou a sorrir.
Penso tanto... tanto nela!
Constantemente, mas no fim;
Fecho triste a janela
E esqueço-me de mim.
No desmaiar da tarde,
Quando insone estou pensando.
Sinto um desespero, uma Saudade;
Da minha vida, que vai passando.
Sou diferente de TODOS!
Sou único e empático.
Propago como um acorde solto
Indo e vindo, Diastrático!
Mas essa dor de não ter
O acalanto que me valha!
Sinto sempre que estou a perder;
Fico só. À beira da praia.
Mas deixa... tudo é nulo!
O meu querer e o meu não ter.
Se fosse-me dado mais um segundo
Eu passaria com Você!
