PRÓLOGO: À PROCURA DO SER HUMANO Havia... Miguel Chiyo Tomás
PRÓLOGO: À PROCURA DO SER HUMANO
Havia muita gente na rua...
Os cônjuges passeavam de mãos dadas; jovens congregavam-se à sombra de uma mulembeira, discutindo a literatura africana dos séculos XVIII e XIX; outros, mais curiosos, discorriam sobre a ascensão do Iluminismo e a Revolução Científica e Tecnológica; alguns, do outro lado do ocidente, ostentavam vaidosamente aquilo que vestiam e consumiam...
Havia ainda aqueles que se entregavam a pelejas por nada menos do que pecúnia. Talvez, à primeira vista, isso pareça fútil, inclusive para um Miserável como eu... irrisório de se dizer e absurdo de se ouvir.
Cheguei a cogitar interceder; não obstante, como estava apenas de passagem, pouco desejava o meu íntimo que assim o fizesse.
Fui-me embora.
Segui adiante como segue o vento: sem olhar para trás.
Pensei se a minha atitude seria passível de apreciação por parte da sociedade. Por outro lado, temia igualmente que ela me censurasse por ter permitido que o meu subconsciente se recusasse a interceder em favor daqueles incompatíveis.
Ponderei, afinal, que a vida se assemelha a um cemitério, onde as tumbas já foram preparadas para nós há muito tempo. Daí que aquilo a que chamamos viver seja, de facto, um belo enterro.
Enfim...
Achei melhor abandonar tais reflexões e prosseguir a viagem de forma tranquila e solene.
Enquanto caminhava pelas terras da Humpata em direção à Chibia, já com a garganta ressequida pela longa jornada, deparei-me, de forma inesperada, com um viajante mukubal. Apressei-me, então, a saudá-lo:
— Graça e paz, amigo viajante. O que o traz a estas terras longínquas?
Então, respondeu-me:
— Estou à procura do ser humano. Pois, de onde venho, existem poucos.
Perplexo ante o que acabara de ouvir, tornei a inquirir:
— Afinal, amigo viajante, que tipo de ser humano procuras especificamente?
Em tom metafórico e exaurido pelo cansaço, replicou:
— Daquele que não deseja afirmação, mas perdão. Daquele que não quer possuir o céu, mas apenas ser digno de habitá-lo.
Estarrecido com as palavras do nômade, ensimesmei-me a refletir:
Que estranho...
De que tipo de ser humano se trata?
Não somos todos nós humanos por natureza?
Afinal, o que nos distingue daquele que ele tanto procura?
Permaneci aturdido diante das minhas próprias indagações e concluí que talvez tudo não passasse de um delírio do viajante mukubal; que o excesso de fadiga o tivesse levado a proferir tais afirmações aparentemente absurdas.
Enquanto monologava com o meu subconsciente, o viajante mukubal disse-me imediatamente:
— Não penses demasiado, filho.
Sabes, houve um tempo em que este mundo era habitado por pessoas verdadeiramente humanas. Pessoas de coração benigno. Zelavam umas pelas outras; faziam de tudo para resguardar a paz e a harmonia social; auxiliavam-se mutuamente, unidas por um único propósito: o bem-estar comum.
Não obstante, com o passar do tempo e com a descoberta dos minerais e de outros recursos naturais — ouro, diamantes, carvão, ferro e tantos mais —, bem como, mais tarde, do petróleo, da energia, das grandes invenções tecnológicas e, por conseguinte, da bomba atómica, esses humanos foram-se dissipando.
Na verdade, o amor tornou-se exótico nos últimos tempos.
O ego, por seu turno, erigiu-se como a suprema afirmação do homem.
Cada indivíduo passou a buscar a própria exaltação perante os demais.
Converteram-se em amantes da guerra.
Possuídos pela febre da opulência.
Famintos de poder.
Endividados pela ignorância.
Dominados pela ganância.
Obnubilados pela ausência de lucidez.
Sepultados na desgraça e engendrados pela cobiça.
É desse ser humano que estou à procura, filho.
Por acaso, viste algum por aí?
