Almeida garrrett
Lindo mesmo, é renascer todas as manhãs, ver o Sol acordar, ouvir a canção da água, e sentir Deus dentro de nós.
Eu quero-me bem e aceito-me como sou. E os meus olhos, quando se olham, em cada momento que se encontram, fazem-me seguir com o que me torna leve.
E é libertador, poderoso, diferente e maravilhoso.
Não sei a conjugação exata, não sei a rima edificada, não sei a estrutura lapidada. Apenas sei amar.
Na transformação que levamos, protótipos de nós mesmos.
A eterna interrogação formulada, milénios de caneta na mão.
Abro o pensamento e os fragmentos amordaçam-se uns aos outros, perante a luz da madrugada que tarda.
O desafio é isto.
Um colorido conciso, entre a magoada indignação e o empalidecer da noite num último sopro de lua cheia.
Acorda, pois eu ainda agora cheguei...
Deixa a luz permanecer, diáfona.
Vim buscar-te, mansa e eleita,
para te levar no meu manto perlado,
a estrela branca da noite,
em que a noite não existe,
e o dia é uma palavra soletrada.
Acorda, pois eu ainda agora cheguei...
Deixa o sonho reinsistir, idolatrado.
Vim trazer-te, suave e altaneira,
na concha do meu longo regaço,
a galáxia azul dos teus ideais,
em que a luz insiste,
e a sombra é uma porta fechada.
Acorda, pois eu ainda agora cheguei...
Deixa o teu âmago fundir-se no meu.
Vim ocupar-te em mim, louca e sôfrega,
querendo o teu limiar nas minhas mãos,
lançando-te nessa profusão inexplicável,
nessa dor de existir entranhada,
nessa alegria de amar glorificada.
Acorda, pois eu ainda agora cheguei...
Quando vi o primeiro brilho de lágrimas nos teus olhos, o meu coração ecoou nos ouvidos do mundo.
Que estás a fazer, Deus?
São as pessoas como tu que trazem luz ao mundo, que transformam o cinzento dos dias no azul infinito das manhãs, que abraçam a vida e aquecem o coração, que empunham, enfim, o estandarte da esperança rumo à trilha suave e sonora do amanhã.
O Universo começa dentro de mim.
E dentro de mim sinto o tudo, sem esperar o nada.
Respiro-te com a fragância doce da existência, o meu pensamento repleto de ti, inesgotável no dorso do tempo, deste tempo que me faz feliz.
Na mancha de todas as luzes, no topo de todas as coisas, no tapete planetário de todas as flores, vejo o Sol nascer.
Não há tempo para decifrar.
Nascida debaixo da terra, a vida pulsa. Pulsa para nascer.
A ausência de respeito tem um tempo, um modo e um lugar.
Depois disso, passa a redundância, expressa na inocuidade do carácter.
Deus, eu sinto-Te e sei que posso, porque a cada madrugada, tudo renovas, recomeças e reinventas em mim.
O vislumbre daquilo que era tornou-se assustadoramente imperceptível.
O som soava longe, para além das miríades de luzes diáfanas numa noite de lua vazia.
Semicerrei os olhos, na tentativa vã de ver o que eu já sentia.
E o arrepio – um único arrepio – percorreu o meu corpo, volatilizando tudo à minha volta, num turbilhão de sentidos, à margem de todo e qualquer entendimento humano.
Gosto, sincera e abertamente, de amar a Deus, de ser eu mesma, de rir, de viver, de fazer o bem, de estar em paz, do meu café da manhã, de caminhar descalça, da amizade que tempera os bons e os maus momentos, de ser feliz e de fazer os outros felizes.
