Sabrina Niehues
Deixo meus fones no ouvido
Não posso ouvi-la reclamar
Não conseguiria aguentar
Meu pulso esquerdo está ardido
Andei pelas ruas escuras
Mas fui iluminada por postes
E carros que passavam no asfalto
Me olhavam, como se eu fosse o absurdo
Eu quis ser um andarilho
Que anda pelas ruas, sem brilho
Mal vestido, maltrapilho
Fui da vida, um péssimo filho
Encontrei no caminho uma pedra
Uma daquelas bem pequena e pontuda
Usei-a no meu braço esquerdo
Doía, mas não como minha'alma
Andei... tantas ruas
Eu quis a morte
Quis as ruas
Quis o inferno
Mas sou fraca demais
Não consigo ir
Ao encontro da morte
Nem das ruas...
Eu sempre volto
Saio à noite
Mas volto
Ao inferno.
Estará ela num momento rápido?
Talvez ela me pegue de carro
Ou então num tiro
Talvez até numa janela alta...
Será ela lenta e dolorosa?
E se for por livre arbítrio
Naquela linda árvore?
Seria ali, enfim...
E se ela vir despercebida?
Enquanto durmo, ou rio
Talvez até enquanto leio
Ou escrevo...
Virá num leito de hospital?
Numa maca, por fumar demais
Por beber exageradamente
Por ter um infarto...
Venha como vier, será aceita
Será bem recebida
Se possível, até com um sorriso
Será o alívio tão esperado...
Será possível que os antidepressivos não fazem mais efeito? Não posso acreditar nessa possibilidade. Caso seja verídica, ela me assombrará. Já me assombra apenas pela sombra de dúvida. Será possível que nem sobre efeito eu hei de conseguir ser feliz? Nem mesmo na ilusão? Me atormenta a mente essa vida demente.
Ontem eu caí na noite. Precisava sair dessa casa. A voz dela me matava. Saí andando pelos becos escuros. Andei sem rumo algum. Eu não tinha pra onde ir. Sentei-me numa beira de estrada. Chorei. Cortei meus pulsos com uma pedrinha pontuda. Levantei. Andei mais um pouco. Sentei na beira de uma ponte. Eu não me reconheço mais. Pensei em pedir ajuda. Pensei em desistir da ajuda que pago para ter. Eu não sei o que fazer, o que pensar, nem sei pra onde ir. Eu nem sei quem sou.
Tenho a leve impressão de que aquele inferno vai recomeçar. Não sei se vou aguentar isso mais uma vez. Todos os elos estão se rompendo de novo. Preciso de elos para me manter presa nessa vida. Sem ninguém por perto, não dá. O elo da minha vida está prestes a se acabar.
A gente podia ser tão felizes juntos. Eu lhe amo tanto... Jamais alguém lhe amará tanto quanto eu. Por favor, acredite em mim. Nas minhas palavras, nos meus sentimentos e olhares. Você não consegue sentir a intensidade do meu sentimento? Eu poderia dar a minha vida por você. Esperar uma vida toda por você. Mas eu também posso ver-lhe feliz com outra e então matar-me.
Não sei o que faço nesse mundo. Ele é tão entediante... Minha vida é. Meus amigos estão todos se afastando, mais uma vez... Quem eu amo não me ama, e muito provavelmente jamais há de amar. Minha família não se entende mais. Meus pais estão em conflito. Eu consigo ver a dor em todo canto. Eles estão infelizes. Eu também. A vida me é um saco pesado que eu arrasto pelo chão. Já não consigo carregá-lo. Acho que vou largá-lo...
Ela disse que não suporta injustiça. Eu disse à ela que o mundo é um lugar injusto e que ela devia se acostumar com isso. Pensando bem, creio que fugi dos meus princípios. Pensando bem, não devemos deixar nosso espírito morrer. Devemos batalhar pelo bem. Justiça. Mas eu disse isso à ela apenas porque meu espírito de vida já morreu. Eu já não tenho mais forças para batalhar pelo bem alheio, mesmo que eu queira...
Queria que a morte me desejasse tanto quanto eu a desejo. Queria que ela viesse ao meu encontro, e não o contrário.
Então eu puxo assuntos que sei que eles vão gostar, mesmo sabendo que esses assuntos não vão me agradar.
Sempre você
Era apenas mais uma manhã de inverno. Céu cinza, sem vida. Como minha'alma. Mas, no meio do céu cinza, apareceu um pequeno raio de sol. Ele. Minha luz. Mas já me acostumei a ver esse raio de sol e não poder senti-lo. Sentei-me numa bancada para ver o jogo de vôlei. Logo após, ele sentou-se ao meu lado. Ficamos em silêncio. Ele virou-se para mim e perguntou:
- Você acha que eu fico feio sem barba?
Achei uma pergunta curiosa. Mas respondi, muito sincera:
- Aos meus olhos, você fica bonito de qualquer modo.
Ele deu um sorriso de canto, disse obrigado e voltou sua atenção ao jogo. Continuei observando-o. Ele, novamente, virou-se para mim:
- Por que sempre me diz essas coisas?
- Porque é o que eu sinto.
- Ainda sente? Depois de todo esse tempo?
- Sim e sim.
Ele me olhou de um modo que parecia querer entrar em minha mente, descobrir a verdade através de meus olhos.
- O que você procura?
- A sinceridade - ele disse.
- Prazer, me chamo sinceridade.
Ele riu da piadinha. E eu me senti feliz e completa. Eu sabia que a razão de meu viver estava bem à minha frente. E ele ria como um garotinho ao ganhar um brinquedo. Eu via nele esse garotinho. Eu sabia que dentro dele habitava um garoto lindo, jovem e apaixonante. E eu sabia que eu era, muito além de apaixonada, encantada por ele.
Dizem que quem tem medo da dor, não merece a alegria. Faz parte da vida sofrer. Opte pelo que lhe faz bem hoje. Amanhã não nos pertence. Amanhã pode não vir mais e você pode ficar sem opção.
Já tem mais de dois dias que não falo mais com meu pai. E hoje ele foi dormir sem me desejar boa noite. E eu lhe compreendo, pai. Sei que é minha culpa tudo isso. Toda essa dor sentida. Mas, sabe, eu gostaria que você tivesse me dado a opção de me explicar... Gostaria que você me compreendesse também...
Tô aqui me arrastando pelo chão, sem conseguir me reerguer, mas ainda encontro forças para apoiar quem eu amo.
E essa é minha rotina, nas férias. Ficar em casa lendo e acordando tarde, e fazendo almoço e lavando louça, e ouvindo meus pais discutirem. E o pior de tudo é que já não tenho mais com quem conversar. Penso que daqui à pouco ficarei sem voz, por falta de uso.
Roberta à flutuar no ar
Ela andava de um modo encantador
E corria como se estivesse flutuando
Parecia que nas nuvens estava dançando
E dançava, de um jeito de causar amor
E ela era, na maioria do tempo, alguém triste
E isso me doía, me magoava, me entristecia
E no fundo de minh'alma eu queria mudar algo
E minha mente vaga por algum lugar, tentando entender
Por que as coisas são assim e por que o mundo é ruim
E por que as pessoas que eu amo tem de sofrer
Eu só queria vê-los sorrir, sentir a paz e amar
Queria vê-los viver de verdade, sentindo a amizade
Mas eu penso nela, e vejo-a dançar no chão
E girar no ar, e sorrir e amar
Mas só quando a vejo dançar...
E eu desejo que ela dance muito, que dance com a vida
E que a vida a faça dançar...
Mas no bom sentido, claro
Quero vê-la à amar, sorrir e se emocionar
Quero vê-la apenas à dançar
Pois sei que assim ela vai estar sempre feliz.
