Paulo H Salah Ad din

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*O Uniforme da Virtude*


O jornal apareceu no meu jardim numa manhã em que eu não estava esperando por notícias.


Não era assinante. Nunca fui muito chegado a jornais, principalmente depois que descobri que as tragédias do mundo chegavam mais rápido pela internet e as mentiras continuavam chegando no mesmo ritmo.


Peguei o jornal pela ponta, como quem recolhe alguma coisa suspeita.


Levei para a varanda.


Sentei na cadeira velha e coloquei os pés sobre o parapeito. O gato estava deitado no degrau. Olhou para mim. Miou.


Parecia perguntar:


— Você vai realmente ler isso?


Não respondi.


Ele se espreguiçou, virou de costas e foi cuidar de assuntos mais importantes. Provavelmente dormir.


Abri o jornal.


Na primeira página havia um cidadão sorrindo.


Era um dos homens que ocupavam um dos cargos eletivos daquela nova cidade. O sorriso tinha aquela medida exata que os fotógrafos gostam. Nem alegria demais, nem preocupação demais. Apenas o suficiente para parecer humano.


Ao lado da fotografia, um título falava sobre dignidade humana.


Li.


O homem defendia respeito, inclusão, empatia, tolerância e todas aquelas palavras que hoje aparecem juntas com a mesma facilidade com que antigamente se escrevia “atenciosamente” no fim de uma carta.


Continuei lendo.


Não havia nada errado com o que ele dizia.


Esse era justamente o problema.


O sujeito tinha aprendido a dizer tudo certo.


Fiquei alguns minutos olhando para o papel.


Pensei que talvez eu estivesse ficando velho demais para certas coisas. Talvez o problema fosse comigo. Talvez fosse apenas implicância de um homem que já viu muita gente falar bonito antes de fazer alguma coisa feia.


Mas então lembrei que tratar alguém com respeito nunca foi o problema.


O problema começa quando a virtude vira uniforme e a consciência passa a usar crachá.


Parei de ler.


O gato voltou.


Sentou ao meu lado.


Olhou para o jornal.


Depois olhou para mim.


— É — eu disse. — Também achei estranho.


Voltei ao texto.


O homem falava sobre uma sociedade mais humana. Era uma boa ideia. Quase bonita.


Só que eu conhecia aquele tipo de discurso.


A cidade continuava cheia de gente que passava por moradores de rua sem enxergá-los. Velhos continuavam conversando sozinhos dentro de apartamentos silenciosos. Crianças aprendiam cedo que certas coisas eram vendidas antes mesmo de serem compreendidas.


E nós continuávamos medindo pessoas.


Pelo salário.


Pela aparência.


Pelos seguidores.


Pela utilidade.


Pela capacidade de nos servir.


Depois chamávamos aquilo de sociedade civilizada.


Talvez fosse por isso que a expressão “politicamente correto” tivesse adquirido tanta importância.


Não porque respeito fosse ruim.


Respeito é necessário.


O problema é quando a palavra passa a substituir o comportamento.


Trocaram a ética pela etiqueta.


É mais fácil.


Etiqueta exige apenas que você saiba onde colocar o garfo.


Ética exige que você saiba onde colocar a própria crueldade.


E isso dá trabalho.


Continuei lendo.


O político falava sobre empatia.


Eu pensei em quantas pessoas conhecia que publicavam frases sobre empatia e não conseguiam ouvir cinco minutos de alguém que discordasse delas.


Era uma coisa curiosa.


A crueldade havia aprendido gramática.


A hipocrisia descobrira o vocabulário da inclusão.


A mentira tinha feito faculdade.


E eu não estava completamente fora disso.


Foi aí que a leitura começou a ficar desagradável.


Porque é fácil apontar o dedo para o sujeito da fotografia.


Mais difícil é olhar para a própria mão.


Eu também já fui injusto.


Já tratei pessoas como inconvenientes porque estavam atrapalhando meu dia.


Já concordei com alguém em público e pensei o contrário em silêncio.


Já me calei diante de uma covardia porque falar custaria alguma coisa.


Já fui educado quando deveria ter sido honesto.


E talvez essa seja uma das formas mais discretas da hipocrisia.


Não mentir para os outros.


Mentir para si mesmo com boas maneiras.


Fechei o jornal.


Fiquei olhando para o jardim.


O gato tinha encontrado uma sombra e dormia dentro dela.


Ele não precisava escrever sobre dignidade.


Não precisava defender ninguém.


Não precisava publicar uma frase bonita.


Se alguém o incomodasse, ele simplesmente iria embora.


Talvez houvesse alguma sabedoria nisso.


A verdadeira decência nunca precisou de cartilha.


Ela aparece quando ninguém está olhando.


Quando você poderia humilhar alguém e decide não fazê-lo.


Quando poderia esmagar e prefere não usar a força.


Quando discorda sem precisar transformar o outro em inimigo.


Quando ninguém está fotografando.


Quando não existe plateia.


Quando não existe recompensa.


Talvez seja aí que começa o caráter.


Todo o resto pode ser teatro.


E o teatro sempre foi um esconderijo confortável para quem tem medo de ser visto sem maquiagem.


Voltei a abrir o jornal.


A fotografia continuava ali.


O sorriso também.


Pensei que talvez o homem da fotografia acreditasse sinceramente no que havia escrito.


Isso também me incomodou.


Porque seria mais fácil se ele fosse apenas um canalha.


Mas ninguém é apenas uma coisa.


Nem eu.


Nem ele.


Nem o sujeito que fala sobre moral enquanto pisa no outro.


Talvez o maior escândalo do nosso tempo não seja a existência de pessoas ruins.


Elas sempre existiram.


O problema é outro.


Aprendemos a vestir a roupa da virtude.


Aprendemos quais palavras provocam aplausos.


Aprendemos quais indignações rendem aprovação.


Aprendemos a parecer bons.


E, em algum momento, esquecemos de perguntar se ainda somos.


Olhei novamente para o gato.


Ele abriu um olho.


— Você tem alguma opinião sobre isso?


Ele fechou o olho.


Justo.


Talvez a humanidade pudesse aprender alguma coisa com os animais.


Eles não costumam fingir que são melhores do que são.


Nós fazemos o contrário.


Construímos discursos para esconder nossos dentes.


Chamamos isso de civilização.


Chamamos de progresso.


Chamamos de consciência.


Às vezes, talvez seja apenas medo de admitir que continuamos sendo animais assustados, egoístas e famintos por aprovação.


A diferença é que agora sabemos escrever sobre isso.


E escrever bem sobre humanidade não torna ninguém humano.


Fechei o jornal de vez.


Coloquei-o sobre a mesa.


O gato continuava dormindo.


Fiquei ali, olhando para ele e pensando que talvez eu tivesse passado a manhã inteira procurando hipocrisia nos outros para não precisar encontrá-la em mim.


Essa foi a parte que mais me incomodou.


Porque a consciência também sabe usar uniforme.


E, quando quer, sabe até sorrir para a fotografia.

Chega de Margens

A chaleira começou a gritar antes de mim.

Fiquei olhando para ela no fogão, esperando que alguém tomasse alguma providência. Ninguém tomou. A casa continuou quieta. O gato estava sentado no corredor, olhando para mim com aquela expressão de quem já descobriu que os humanos fazem muito barulho para resolver coisas simples.

Desliguei o fogo.

Passei café.

Era uma manhã comum. Dessas que não prometem nada e, por isso mesmo, costumam ser mais honestas.

Sentei à mesa.

O gato veio até a porta da cozinha, parou e ficou me olhando. Não pediu comida. Não pediu carinho. Apenas ficou ali. Talvez estivesse esperando alguma coisa. Talvez não. Gatos têm a vantagem de não precisarem explicar a própria presença.

Eu devia ter aprendido isso antes.

Olhei para minhas mãos.

A idade estava ali.

Não como número. Número é coisa de formulário. A idade aparece nas pequenas coisas. Na maneira como o corpo levanta da cadeira. Na demora para encontrar uma posição confortável. No joelho que reclama sem ter sido consultado. No espelho, principalmente.

O corpo começa a diminuir.

É uma espécie de ironia.

Passamos metade da vida tentando ocupar espaço e a outra metade descobrindo que o corpo já não pretende colaborar.

Mas alguma coisa acontece nesse mesmo período.

A cabeça começa a fazer o movimento contrário.

Ela aumenta.

Não sei se isso acontece com todo mundo. Talvez não. Algumas pessoas envelhecem apenas. Continuam obedecendo às mesmas regras, repetindo as mesmas opiniões e chamando isso de experiência.

Eu também fiz isso durante muito tempo.

Aprendi a ser aceitável.

É uma habilidade bastante valorizada.

Você aprende a medir as palavras. A esconder certas vontades. A escolher o que dizer e, principalmente, o que não dizer. Aprende a ser fácil de carregar. Fácil de entender. Fácil de amar.

É cansativo.

E ninguém entrega um certificado quando você termina.

Apenas esperam que continue.

O mundo gosta de gente previsível.

Hoje existe uma palavra nova para isso. Várias, na verdade. Há sempre alguém na internet explicando como devemos viver, envelhecer, pensar, comer, vestir, desejar e até fracassar. Os antigos chamavam isso de conselho. Agora tem nome em inglês, câmera frontal e milhares de seguidores.

Talvez eu esteja velho demais para isso.

Ou finalmente velho o suficiente.

O gato atravessou a cozinha.

Passou por mim sem qualquer cerimônia e subiu na cadeira ao lado.

Ficou olhando para a mesa.

Não parecia preocupado com a opinião de ninguém.

Pensei que talvez houvesse alguma coisa a aprender com aquele animal.

Não era a independência.

Era a ausência de necessidade de justificá-la.

Foi aí que comecei a entender uma coisa que demorei décadas para entender.

Eu passei muito tempo vivendo nas margens da minha própria vida.

Não completamente fora dela.

Isso seria fácil de perceber.

Eu estava dentro.

Trabalhava, fazia planos, cumpria obrigações, amava algumas pessoas, suportava outras. Ri quando era conveniente. Fiquei calado quando era necessário. Fiz o que precisava ser feito.

Mas havia sempre uma parte de mim sentada um pouco mais distante.

Observando.

Esperando.

Pedindo licença.

Talvez esse tenha sido o meu maior erro.

Pedir licença para existir.

Não estou falando de fazer tudo o que dá na cabeça. Isso é apenas outra forma de imaturidade.

Estou falando de não precisar transformar cada escolha em uma defesa.

De não precisar explicar por que quero determinada vida.

De não precisar reduzir minhas opiniões para que alguém não se sinta ameaçado.

De não precisar esconder minhas contradições para parecer uma pessoa coerente.

Aos 62, 63, começa a ficar estranho continuar fazendo isso.

Há uma certa falta de sentido em passar tantos anos aprendendo quem você é e, depois, gastar o resto da vida tentando convencer os outros de que não é bem assim.

O espaço nunca foi o problema.

O problema era que eu insistia em caber.

E talvez o espaço fosse pequeno demais.

Essa conclusão demorou.

Porque admitir isso também significa olhar para trás.

E olhar para trás não é sempre bonito.

Há versões minhas que eu não gostaria de encontrar novamente.

Não porque fossem ruins.

Algumas eram apenas assustadas.

Outras queriam ser aceitas.

Algumas confundiam amizade com aprovação. Amor com concessão. Educação com silêncio.

Eu fui me ajustando.

Pouco a pouco.

Até quase esquecer que ajuste demais também deforma.

O curioso é que eu não quero voltar no tempo.

Não tenho esse interesse.

A juventude tem sido superestimada desde que inventaram os espelhos.

Não quero o corpo de antes.

Não quero repetir os erros com mais energia.

Quero outra coisa.

Quero a liberdade que existia antes de eu aprender a me diminuir.

Talvez seja por isso que envelhecer possa ser um retorno.

Não uma partida.

Um retorno.

Há uma criança escondida em algum lugar desse homem que passou décadas tentando parecer adulto. Não é uma criança inocente. Essa parte já morreu algumas vezes.

É apenas aquela que ainda não sabia que precisava caber.

O gato pulou da cadeira.

Foi até a janela.

Ficou ali, olhando a rua.

Pensei que talvez ele também estivesse cansado de mim.

Seria compreensível.

Terminei o café.

A casa continuava a mesma.

A mesa.

A chaleira.

A janela.

O gato.

Nada havia mudado.

Mas alguma coisa tinha mudado.

Não era uma revelação grandiosa. Não houve música. Nenhuma luz atravessou a cozinha no momento certo. A vida não costuma ter esse tipo de educação estética.

Foi apenas uma compreensão silenciosa.

Eu podia ocupar espaço.

Sem tirar nada de ninguém.

Podia querer mais.

Sem precisar chamar isso de ambição.

Podia não querer certas coisas.

Sem precisar inventar desculpas.

Podia envelhecer sem transformar a idade em pedido de desculpas.

O corpo talvez encolhesse.

A consciência não precisava acompanhar.

Talvez fosse esse o acordo possível com o tempo.

Ele leva algumas coisas.

Eu paro de entregar outras.

Olhei novamente para o gato.

Ele continuava na janela.

Não parecia impressionado.

Ainda bem.

Talvez fosse melhor assim.

Aos 62, 63, não estou me tornando alguém novo.

Estou apenas deixando de me afastar de quem sempre fui.

Isso muda muita coisa.

Porque crescer, nessa idade, já não significa subir.

Às vezes significa ocupar.

Ocupar a própria cadeira.

A própria casa.

A própria cabeça.

A própria vida.

Sem pedir licença.

Sem pedir desculpas.

Sem precisar ser compreendido por quem passou a vida inteira confortável dentro da mesma moldura.

Talvez seja isso que ainda estou aprendendo.

Que posso viver uma vida que me caiba.

E que, se ela finalmente ficar grande demais para algumas pessoas, talvez o problema não esteja mais em mim.

Talvez seja apenas a velha margem chegando ao fim.

A chaleira estava fria.

O café também.

O gato continuava olhando pela janela.

E eu fiquei ali.

Sem pressa.

Pela primeira vez em muito tempo, não senti necessidade de diminuir nada.

Nem a voz.

Nem a vontade.

Nem o espaço.

Nem eu.

*ANTES QUE ALGUÉM ENTRE*


Entrei no bar porque ainda era cedo demais para voltar para casa e tarde demais para fingir que tinha alguma coisa importante para fazer.


O garçom me reconheceu.


Depois de certa idade, ser reconhecido num bar não é exatamente uma conquista. Significa apenas que você esteve ali vezes demais.


Sentei no canto de sempre.


Pedi bourbon.


O primeiro gole resolveu algumas questões que eu não tinha intenção de discutir naquela noite.


Peguei o celular.


Não sei por quê.


Talvez por hábito.


Talvez por tédio.


Talvez porque, depois de certa idade, qualquer tela iluminada pareça uma promessa de companhia.


Havia aplicativos abertos.


Alguns deles eu nem lembrava por que tinha instalado.


Não eram necessariamente aplicativos de namoro.


Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.


Curiosidade também é uma palavra bastante útil.


Passei o dedo pela tela.


Rostos.


Mulheres novas, balzaquianas, maduras.


Pessoas sorrindo diante de praias, restaurantes, cachorros, academias e lugares onde provavelmente nunca tinham estado tão felizes quanto pareciam estar na fotografia.


Algumas apresentavam a si mesmas como se estivessem concorrendo a uma vaga.


Outras apresentavam uma lista.


Não fumante.


Não bebe.


Não aceita determinada posição política.


Não quer alguém com filhos.


Não quer alguém sem filhos.


Altura mínima.


Renda mínima.


Distância máxima.


Personalidade compatível.


Signo compatível.


Vida resolvida.


Passado aceitável.


Pouco passado, de preferência.


Comecei a achar aquilo curioso.


Não exatamente engraçado.


Curioso.


As pessoas pareciam estar procurando alguém depois de verificar cuidadosamente se ninguém entraria.


Era uma espécie de alfândega sentimental.


Documentos em ordem.


Bagagem declarada.


Nenhuma mercadoria proibida.


Continuei olhando.


A lista era maior que algumas biografias.


E talvez fosse justamente esse o problema.


Ninguém mais precisava conhecer alguém.


Bastava verificar se a pessoa atendia aos requisitos.


Como se estivesse comprando um carro usado.


Quilometragem emocional.


Opcionais.


Defeitos ocultos.


Manual de instruções.


Garantia.


Pedi outro bourbon.


O garçom deixou o copo diante de mim.


Fiquei olhando o líquido por alguns segundos.


O bourbon tem essa qualidade.


Não resolve nada.


Mas melhora a aparência dos problemas.


Voltei ao celular.


A tecnologia prometeu aproximar as pessoas.


Entregou um catálogo.


Milhões de rostos ao alcance do dedo e uma quantidade cada vez maior de razões para não tocar em nenhum deles.


Passei para outro perfil.


Não gostei da fotografia.


Passei.


Outro.


Não gostei da descrição.


Passei.


Outro.


Alguma coisa me incomodou.


Passei.


Parei.


Voltei.


Não sei por quê.


Continuei.


Foi aí que percebi que eu também estava fazendo aquilo.


Essa foi a parte desagradável.


É fácil observar a estupidez dos outros quando você não precisa olhar para as próprias mãos.


Eu também tinha critérios.


Só não os chamava de critérios.


Chamava de experiência.


Depois de certa idade, a gente aprende a dar nomes respeitáveis às próprias defesas.


Não quero drama.


Pode significar: já fui ferido.


Não quero alguém complicado.


Pode significar: não tenho mais paciência para descobrir outra pessoa.


Quero alguém maduro.


Pode significar: quero alguém que não me obrigue a mudar.


Quero alguém resolvido.


Essa era uma das melhores.


Como se eu mesmo estivesse resolvido.


Como se tivesse passado décadas acumulando erros apenas para chegar a algum ponto em que pudesse preencher um formulário dizendo:


pronto.


Agora estou funcionando corretamente.


Bebi.


Olhei para o bar.


Duas pessoas conversavam numa mesa próxima.


Não pareciam interessantes.


Depois pensei que talvez eu não tivesse dado a elas tempo suficiente para serem.


Esse pensamento me incomodou.


Eu queria conhecer pessoas ou apenas encontrar versões antecipadas delas?


Talvez fosse a segunda opção.


Uma pessoa antecipada é muito mais confortável.


Você sabe o que ela pensa.


Sabe o que ela gosta.


Sabe o que ela não tolera.


Sabe o que procura.


Sabe o que rejeita.


Tudo antes de ela abrir a boca.


Uma pessoa real é outra coisa.


Chega atrasada.


Tem mau humor.


Fala demais.


Fala pouco.


Ri na hora errada.


Tem uma opinião absurda.


Muda de opinião.


Fuma quando você odeia cigarro.


Bebe quando você prometeu que não queria mais bêbados por perto.


Vota no sujeito que você considera um idiota.


Escuta a música que você não suporta.


Tem cicatrizes que não aparecem na fotografia.


E, às vezes, é gentil.


Isso complica tudo.


É fácil rejeitar uma categoria.


Mais difícil rejeitar alguém que está sentado diante de você.


Principalmente quando essa pessoa não corresponde àquilo que você imaginou.


Fiquei olhando para o meu copo.


Talvez fosse por isso que as listas existissem.


Elas davam a sensação de controle.


Se eu estabelecer critérios suficientes, pensei, posso impedir que alguém errado entre.


O problema é que ninguém consegue estabelecer critérios suficientes.


Sempre existe alguma coisa que ficou de fora.


Um hábito.


Uma lembrança.


Uma maneira de falar.


Uma família.


Uma história anterior à sua.


Alguma coisa que não estava na fotografia.


E então você descobre que não estava escolhendo apenas quem poderia entrar.


Estava tentando decidir antecipadamente o que teria permissão para acontecer depois que alguém entrasse.


Essa parte eu não gostei.


Porque já não era mais sobre os aplicativos.


Era sobre mim.


Passei anos aprendendo a viver sozinho.


Isso tem vantagens.


Você sabe onde estão as coisas.


Sabe o que comprar.


Sabe a hora em que prefere ficar quieto.


Não precisa explicar por que chegou tarde.


Não precisa negociar o volume da televisão.


Não precisa perguntar se alguém se importa com a música.


A casa vai adquirindo o formato de quem mora nela.


E, depois de algum tempo, qualquer outra pessoa parece uma mudança de móveis.


Talvez fosse exagero.


Talvez não.


Eu já tinha me acostumado demais com o meu próprio espaço.


A ideia de alguém ocupando uma parte dele parecia boa enquanto permanecia abstrata.


Quando se aproximava da realidade, começava a parecer trabalho.


Voltei ao aplicativo.


Outro rosto.


Outro.


Outro.


O dedo continuava trabalhando.


Era quase um reflexo.


A cabeça justificava.


O dedo decidia.


E eu nem sabia exatamente o que estava procurando.


Talvez nada.


Talvez alguém.


Talvez apenas a sensação de que ainda poderia encontrar alguém.


Existe uma diferença.


A esperança pode ser mantida durante anos quando não precisa enfrentar a realidade.


A pessoa real, não.


A pessoa real exige presença.


E presença é uma coisa inconveniente.


Ela não pode ser filtrada.


Não pode ser editada.


Não pode ser devolvida depois de sete dias.


Uma pessoa real traz uma vida inteira que começou antes de você.


Traz antigos amores.


Família.


Medos.


Hábitos.


Erros.


Desejos.


Contradições.


Algumas coisas que você vai gostar.


Outras que vai detestar.


E algumas que, para seu azar, vão obrigá-lo a reconsiderar aquilo que você jurou nunca aceitar.


Pode ser alguém que vota diferente.


Pode fumar.


Pode beber.


Pode acreditar em alguma coisa que você considera absurda.


Pode ter uma história que não combina com a sua.


Pode rir de coisas que você não acha engraçadas.


Pode ser exatamente o tipo de pessoa que você teria eliminado no segundo movimento do dedo.


E ainda assim pode acontecer alguma coisa.


Esse é o problema.


Pode acontecer alguma coisa.


O algoritmo prefere outra coisa.


Prefere que você continue procurando.


A próxima pode ser melhor.


Mais bonita.


Mais inteligente.


Mais compatível.


Mais interessante.


Mais próxima.


Mais perfeita.


A próxima está sempre disponível.


A esperança fica um perfil adiante.


Mais um movimento.


Mais uma noite.


Mais um bourbon.


Mais uma promessa silenciosa de que amanhã talvez seja diferente.


Amanhã chega.


A lista continua.


Enquanto isso, as pessoas envelhecem.


As rugas chegam sem pedir licença.


Os bares fecham.


Os amigos desaparecem.


Alguns morrem.


Os discos riscam.


As fotografias ficam antigas.


O bourbon acaba.


E nós continuamos escolhendo.


Eu também.


Talvez essa fosse a parte que mais me incomodava.


Eu podia rir das listas dos outros porque elas pareciam absurdas.


Mas tinha uma lista minha.


Talvez não estivesse escrita em lugar nenhum.


Era pior assim.


Estava na cabeça.


Altura.


Hábitos.


Jeito de falar.


Passado.


Problemas.


Opiniões.


Tudo aquilo que eu dizia não querer.


Tudo aquilo que eu achava que já tinha idade suficiente para não precisar suportar.


Como se envelhecer desse ao homem algum direito especial de exigir uma vida sem inconvenientes.


Não dá.


Só dá mais experiência em reconhecer alguns deles.


Terminei o bourbon.


Fiquei olhando o copo vazio.


Pensei que talvez o problema nunca tivesse sido encontrar alguém.


Talvez fosse aceitar que alguém real sempre traria alguma coisa que eu não tinha pedido.


Uma opinião.


Uma lembrança.


Um medo.


Uma diferença.


Um defeito.


Uma necessidade.


Uma história anterior à minha.


Conhecer alguém significava entrar numa história que começou sem você.


Não havia como editar os capítulos anteriores.


Não havia como selecionar apenas as partes convenientes.


Não havia botão para remover aquilo que incomodasse.


Uma pessoa real não vinha com manual.


Nem certificado de compatibilidade.


Nem garantia contra abandono.


Era justamente isso que tornava tudo tão difícil.


Pedi a conta.


O garçom trouxe.


Guardei o celular no bolso.


Não porque tivesse aprendido alguma grande lição.


Não aprendi.


Apenas fiquei cansado de transformar desconhecidos em candidatos.


E depois reclamar que ninguém me conhecia.


O bar estava quase vazio.


Fiquei sentado mais alguns segundos.


Pensei nas pessoas que eu tinha descartado naquela tela.


Depois pensei nas que talvez tivessem me descartado.


A ideia não era agradável.


Talvez algumas tivessem razão.


Talvez outras não.


Nunca saberia.


Essa é uma das coisas que a gente perde quando decide cedo demais.


A possibilidade de descobrir.


Levantei.


Saí do bar.


O celular continuava no bolso.


Não o abri.


Não porque tivesse desistido de encontrar alguém.


Nem porque tivesse finalmente compreendido o amor.


Não tinha compreendido nada disso.


Apenas comecei a desconfiar de uma coisa.


Talvez eu não estivesse procurando alguém que coubesse na minha vida.


Talvez estivesse procurando alguém que não mexesse nela.


E isso era diferente.


Continuei andando.


Passei anos organizando a casa.


Escolhendo os móveis.


Definindo as regras.


Decidindo quem poderia entrar.


No fim, a casa estava impecável.


E vazia.


Parei por um instante.


Pensei que talvez fosse melhor assim.


Depois pensei que essa frase também parecia uma defesa.


Sorri sozinho.


Era um progresso pequeno.


Ou apenas outro truque da minha cabeça.


Não importava.


Continuei andando.


O bar ficou para trás.


O celular permaneceu no bolso.


Eu ainda não sabia se queria encontrar alguém.


Também não sabia se queria continuar sozinho.


Pela primeira vez, porém, percebi que talvez tivesse passado tempo demais tentando resolver essa dúvida antes que qualquer pessoa tivesse a oportunidade de aparecer.


E talvez fosse esse o problema.


Eu queria saber quem entraria antes de abrir a porta.


Isso me pareceu uma exigência razoável durante muito tempo.


Naquela noite, já não pareceu tanto.


Não porque eu tivesse descoberto alguma resposta.


Só porque, pela primeira vez, a possibilidade de não saber não me pareceu uma ameaça.


Continuei andando.


O resto podia esperar.

*O Campo Que Ficou em Branco*


Fui preencher um formulário porque aparentemente ainda existem coisas que precisam ser comprovadas por escrito.


Nome.


Preenchi.


Idade.


Preenchi também.


Profissão.


Essa demorou um pouco mais.


Não porque eu não tivesse profissão. Tinha. O problema era explicar o que ela significava depois de tantos anos fazendo a mesma coisa. Algumas palavras ficam velhas antes da gente.


Endereço.


Coloquei.


Estado civil.


Também.


Até ali, eu ainda era uma pessoa perfeitamente administrável.


Então apareceu a pergunta.


Quem é você?


Fiquei olhando para aquilo.


Era só uma linha.


Uma linha comprida, esperando uma resposta curta.


O mundo gosta dessas coisas. Coloca uma caixa embaixo de uma pergunta enorme e espera que a gente caiba ali dentro.


Peguei a caneta.


Não escrevi.


Olhei novamente para a pergunta.


Quem é você?


Pensei no meu nome. Não era.


Pensei na minha profissão. Também não.


Pensei na idade. Aquilo era apenas a quantidade de vezes que a Terra tinha girado enquanto eu tentava entender alguma coisa.


Pensei nos documentos.


Os documentos sabiam mais sobre mim do que algumas pessoas que conviveram comigo por anos.


Sabiam onde eu morava.


Sabiam quando nasci.


Sabiam números, datas, assinaturas.


Mas nenhum deles sabia o que eu fazia quando ficava sozinho.


Nenhum sabia das coisas que eu não dizia.


Nenhum sabia quantas versões de mim já tinham morrido sem cerimônia.


Foi então que percebi o problema.


Eu conseguia preencher todos os campos que me pediam uma informação.


Só não conseguia preencher aquele que pedia uma definição.


Talvez porque definir seja uma forma educada de reduzir.


Passei a vida fazendo isso.


Escolhendo palavras para caber em lugares pequenos.


Homem.


Profissional.


Pai.


Amigo.


Filho.


Responsável.


Culpado.


Inocente.


Cada palavra servia por algum tempo.


Depois ficava apertada.


A gente cresce por dentro e continua usando o mesmo contorno.


É uma espécie de prisão sem grades. Ninguém precisa nos trancar. Basta nos dar um nome e esperar que permaneçamos fiéis a ele.


Olhei novamente para a folha.


O campo continuava vazio.


Pensei que talvez fosse isso que mais incomodasse.


Não o fato de eu não saber quem era.


Mas a possibilidade de já ter acreditado, durante anos, que sabia.


Existe uma diferença.


A primeira é ignorância.


A segunda é arrogância.


O telefone vibrou sobre a mesa.


Uma mensagem qualquer.


Alguém perguntava se eu já tinha terminado.


Respondi que sim.


Era mentira.


Eu ainda estava diante daquela pergunta.


O curioso é que a mentira saiu com facilidade.


Talvez eu tivesse passado tanto tempo respondendo ao que esperavam de mim que já nem precisava pensar.


O mundo oferece formulários para quase tudo.


Para nascer.


Para morrer.


Para trabalhar.


Para comprar.


Para vender.


Para existir.


Só não oferece um para aquilo que acontece no intervalo.


E é justamente ali que a coisa complica.


Porque a mente não respeita formulário.


Ela continua.


Lembra de uma coisa enquanto esquece outra.


Deseja o que condena.


Condena aquilo que deseja.


Muda de opinião depois de jurar que nunca mudaria.


A gente chama isso de contradição.


Talvez seja apenas vida sem edição.


Pensei em uma caixa de fósforos que estava sobre a mesa.


Vazia.


Uma caixa pequena.


Quase ridícula.


Ainda assim, cabiam ali dentro uma noite inteira, um cigarro, uma conversa antiga, uma mulher que eu não via há anos, um homem que eu tinha sido e não queria mais encontrar.


Era estranho.


O infinito não precisava de espaço.


Precisava apenas de memória.


Foi quando entendi outra coisa.


Talvez eu não fosse uma resposta.


Talvez fosse o rascunho.


Um rascunho que insistia em sobreviver às próprias correções.


Já tentei apagar partes de mim.


Algumas funcionaram.


Outras ficaram como aquelas marcas de borracha que continuam aparecendo quando a luz bate de lado.


Há coisas que a gente não supera.


Apenas aprende a colocar em lugares onde não tropeça nelas todos os dias.


Terminei de preencher o formulário.


Deixei a caneta sobre a mesa.


O funcionário pegou a folha e conferiu os campos.


Nome.


Certo.


Idade.


Certo.


Profissão.


Certo.


Endereço.


Certo.


Chegou ao último.


Parou.


Olhou para mim.


— E aqui?


Olhei para a linha vazia.


Por alguns segundos, pensei em escrever qualquer coisa.


Seria mais fácil.


Homem cansado.


Sobrevivente.


Idiota.


Contraditório.


Em construção.


Nada disso parecia suficiente.


Então devolvi a folha.


— Pode deixar em branco.


Ele me olhou como quem não entende por que alguém recusaria uma oportunidade tão simples de mentir.


Pegou a caneta.


Passou um risco sobre o campo.


E pronto.


Mais um problema resolvido.


Saí dali pensando que talvez essa fosse a única resposta honesta que eu tinha encontrado em anos.


Não saber.


Não terminar.


Não caber.


Ser aquele ponto onde a pergunta continua existindo depois que todas as respostas já perderam a validade.


Talvez decifrar-se não seja descobrir uma fórmula.


Talvez seja aceitar que algumas partes de nós foram feitas para permanecer ilegíveis.


Cheguei em casa.


O gato estava no corredor.


Olhou para mim.


Não perguntou meu nome.


Não quis saber minha profissão.


Não precisava de documento.


Apenas me olhou por alguns segundos e foi embora.


Achei uma atitude bastante sensata.


Fiquei sozinho.


A casa estava silenciosa.


Na mesa, havia outra caixa de fósforos.


Dessa vez, ainda cheia.


Peguei uma.


Acendi.


Por alguns segundos, a chama iluminou meu rosto.


Olhei para ela.


Depois apaguei.


O rosto voltou a ser apenas um rosto.


E, pela primeira vez naquele dia, não senti necessidade de descobrir quem estava ali.

*O RELÓGIO QUE VOLTOU A ANDAR*
A chuva começou antes do almoço e, por algum motivo, resolveu ficar.
Não era uma chuva forte. Era pior. Daquelas que molham a cidade por horas sem produzir nenhum acontecimento digno de nota. O céu baixo, as janelas fechadas, o frio entrando pelas frestas. Um dia feito para não sair de casa.
Meu bourbon tinha acabado na noite anterior.
Considerei sair para comprar outra garrafa. Cheguei a procurar as chaves. Depois olhei pela janela e achei que morrer de frio por uma garrafa de bourbon seria uma maneira muito idiota de continuar vivo.
Deixei as chaves sobre a mesa.
Foi quando a energia acabou.
A casa ficou quieta de uma maneira diferente. A geladeira parou, o computador apagou, o relógio da cozinha perdeu os números vermelhos. Até a chuva pareceu mais próxima.
Acendi uma vela.
O cheiro da parafina tomou conta da sala quase imediatamente. Nunca entendi por que velas têm cheiro de coisa velha. Talvez porque geralmente só as acendemos quando alguma coisa deu errado.
O gato apareceu no corredor, olhou para a vela e depois para mim.
— Não fui eu.
Ele ficou me olhando mais alguns segundos.
Talvez estivesse tentando decidir se acreditava.
Ou talvez estivesse apenas esperando a hora da comida.
Abri uma das caixas empilhadas no armário.
Eu vinha adiando aquilo havia meses. Dentro havia documentos antigos, fotografias, recibos, cartas, cartões de visita de gente que provavelmente já tinha mudado de telefone três vezes ou morrido. Era impressionante a quantidade de papel necessária para provar que uma pessoa existiu.
Comecei pelos documentos.
Certidões.
Contratos.
Papéis de bancos que já nem existem.
Depois encontrei fotografias.
Uma delas me pegou desprevenido.
Eu estava mais jovem, numa praia que não reconheci de imediato. Havia outras pessoas na fotografia. Algumas eu lembrava. Outras não.
Fiquei olhando meu próprio rosto durante um tempo.
Não gostei muito do sujeito.
Parecia confiante.
Isso me incomodou.
Eu não me lembrava de ter sido tão confiante.
Talvez eu apenas tivesse aprendido a posar.
Continuei remexendo na caixa.
Encontrei um relógio de pulso.
Eu o reconheci.
Era meu.
Coloquei-o sobre a mesa.
O relógio estava parado havia anos. A pulseira estava ressecada e o vidro tinha um risco atravessando o mostrador.
Aproximei-o do ouvido.
Nada.
Era estranho escutar o silêncio de um relógio.
Pensei em quantas coisas param sem que ninguém perceba.
Depois achei a velha chave de dar corda.
Ainda estava junto dele.
Dei algumas voltas.
O ponteiro dos segundos começou a andar.
Tic.
Tic.
Tic.
O gato levantou a cabeça.
Olhou para o relógio.
Depois voltou a deitar.
Eu ri sozinho.
Aquele animal tinha um talento irritante para não se impressionar com as coisas certas.
Fiquei sentado no chão, cercado por fotografias e papéis.
Foi aí que percebi que eu tinha passado boa parte da vida tentando guardar provas de que certas coisas aconteceram.
Fotografias para lembrar de pessoas.
Documentos para provar acontecimentos.
Cartas para conservar frases que alguém havia escrito quando ainda queria que eu as conservasse.
Como se a memória fosse uma repartição pública e, sem carimbo, nada tivesse validade.
Peguei uma fotografia.
Naquela época eu ainda achava que tinha tempo.
Não muito.
Mas algum.
É uma diferença importante.
A gente não percebe quando passa a contar a vida de outro jeito. Primeiro pensa em anos. Depois começa a pensar em coisas que ainda dá para fazer. Depois em coisas que talvez não valha mais a pena fazer.
E então surgem os pequenos acordos.
Não vou hoje.
Amanhã eu vejo.
Depois eu compro.
Depois eu telefono.
Depois eu arrumo.
Depois eu saio.
Depois.
Essa palavra tem uma capacidade impressionante de ocupar uma vida inteira.
O relógio continuava fazendo seu trabalho sobre a mesa.
Eu não.
Pelo menos naquele momento.
Eu estava sentado no chão de uma sala fria, com fome, sem bourbon, ouvindo a chuva e um relógio que eu tinha esquecido que existia.
O gato levantou, atravessou a sala e parou diante da janela.
Ficou ali olhando a chuva.
Pensei que talvez ele soubesse alguma coisa sobre permanecer.
Logo depois percebi que aquilo era apenas mais uma das minhas maneiras de transformar um gato em personagem da minha cabeça.
Ele provavelmente estava olhando um pássaro.
Ou querendo sair.
Ou pensando em comida.
Talvez não estivesse pensando em nada.
Essa última hipótese me pareceu bastante ofensiva.
E útil.
Voltei às fotografias.
Uma delas tinha uma dobra no meio.
Passei o dedo sobre ela, tentando alisá-la.
Não adiantou.
Deixei assim.
Durante muito tempo achei que continuar fosse uma espécie de vitória.
Hoje não sei.
Também não sei se é esperança.
Nunca fui muito bom com essa palavra.
Às vezes continuar é apenas aquilo que acontece quando você ainda não parou.
Você acorda porque o corpo acorda.
Faz café porque sempre fez.
Atende o telefone porque ele tocou.
Paga uma conta porque alguém inventou a conta.
Alimenta o gato porque, aparentemente, o gato não está disposto a participar das suas crises existenciais.
E isso vai formando uma espécie de rotina sem discurso.
Talvez seja pouco.
Naquele dia, foi o que eu tinha.
A energia voltou no começo da noite.
A geladeira ligou.
O computador acendeu.
O relógio da cozinha voltou aos números vermelhos.
A casa recuperou seus pequenos ruídos.
Eu poderia ter ligado a televisão.
Não liguei.
Fiquei ouvindo o relógio de pulso.
Tic.
Tic.
Tic.
O gato dormia no sofá.
Guardei os documentos de volta na caixa.
As fotografias, não.
Deixei algumas sobre a mesa.
Não por nostalgia.
Ou pelo menos foi isso que disse a mim mesmo.
Depois fui até a cozinha.
Abri a torneira.
Bebi água.
Não era bourbon.
Mas era água.
Voltei para a sala.
O relógio continuava andando.
Dessa vez não o tirei do ouvido.
Fiquei apenas escutando.
E, naquela noite, pela primeira vez em algum tempo, não tive pressa nenhuma de fazê-lo parar.

*NINGUÉM ESTAVA OLHANDO*
Naquela tarde eu estava na varanda tentando lembrar por que tinha ido até ali.


Isso acontece mais do que eu gostaria.


Às vezes saio da cozinha com alguma coisa na cabeça e, quando chego à varanda, a coisa desaparece. Fico parado com o copo na mão, olhando o jardim, como se a resposta pudesse ter ficado para trás no corredor.


O jardim vai até o passeio público. Não há muro. Nunca coloquei.


A árvore cresceu torta para um lado e ocupa quase toda a sombra da varanda. O gato gosta de ficar ali embaixo. Naquele dia estava deitado sobre a terra, com as patas recolhidas e os olhos fechados.


Eu tinha um cigarro aceso.


Não lembrava por que tinha ido fumar.


Isso me pareceu mais importante do que deveria.


Sentei.


Na mesa havia uma caixa de fósforos vazia. Peguei, virei entre os dedos e tentei lembrar quando tinha sido usada pela última vez.


Não consegui.


Deixei de volta.


O gato abriu um olho.


— Também não sabe?


Ele fechou o olho novamente.


Talvez estivesse dormindo.


Talvez apenas não tivesse interesse na conversa.


Eu respeitei.


Passei muito tempo acreditando que precisava entender algumas coisas antes que fosse tarde. Não sei exatamente quando comecei com isso. Talvez depois dos quarenta. Talvez antes. A memória tem esse defeito conveniente de reorganizar os fatos para que pareçam ter acontecido quando a gente estava pronto para entendê-los.


Eu não estava.


Ainda não estou.


Lembrei de uma frase que escrevi muitos anos atrás. Não sei onde está o papel. Talvez tenha jogado fora. Talvez esteja dentro de algum livro. Eu costumava guardar essas coisas.


Escrevi que era um rascunho de um plano que o tempo havia esquecido de executar.


Na época, achei que tinha descoberto alguma coisa sobre mim.


Hoje penso que talvez estivesse apenas cansado.


Mas a frase ficou.


Algumas frases fazem isso.


A gente escreve para se livrar delas e acaba passando anos carregando-as.


Levantei para buscar mais uísque.


Na cozinha, fiquei alguns segundos diante do armário sem saber o que estava fazendo ali.


Voltei para a varanda com a garrafa.


O gato tinha mudado de posição.


Só isso.


Eu tinha envelhecido alguns anos desde aquela frase e o gato continuava mudando de posição.


Talvez fosse esse o problema.


Eu sempre quis que o tempo produzisse alguma conclusão.


Ele não produziu.


Produziu contas, fotografias, algumas cicatrizes, nomes que já não significam muita coisa e uma coleção de decisões que, vistas de longe, parecem ter sido tomadas por homens diferentes.


Talvez tenham sido.


Ou talvez eu só goste de pensar assim porque é mais fácil atribuir meus erros a versões anteriores de mim mesmo.


Um homem de vinte anos.


Um homem de trinta.


Outro aos quarenta.


Todos com o mesmo nome.


Nenhum deles me pediu autorização.


Uma mulher passou pelo passeio empurrando uma bicicleta. Olhou para o jardim.


Eu tive a impressão de que olhou para mim.


Ela continuou.


Durante alguns segundos fiquei esperando que voltasse o rosto.


Não voltou.


Foi quando percebi uma coisa que deveria ter percebido muito antes: quase ninguém está olhando.


Passei anos me comportando como se houvesse uma plateia.


Como se cada escolha minha estivesse sendo registrada.


Como se fosse necessário chegar a algum lugar com uma história coerente para apresentar no fim.


Mas não havia plateia.


Havia apenas o passeio, a árvore, a rua e uma mulher que provavelmente já tinha esquecido a varanda antes de chegar à esquina.


O gato levantou.


Caminhou até a borda do jardim.


Parou.


Olhou para o outro lado da rua.


Eu fiquei esperando que ele fizesse alguma coisa.


Ele não fez.


Depois entrou em casa.


Fiquei sozinho.


Pensei novamente naquela frase antiga.


Rascunho.


Plano.


Tempo.


Eu tinha passado tantos anos tentando descobrir qual era a versão definitiva de mim que talvez não tivesse percebido o óbvio: eu continuava escrevendo rascunhos porque não queria assinar a versão final.


Não sei se isso é covardia.


Talvez seja.


Também pode ser apenas hábito.


Acendi outro cigarro.


Fiquei olhando a fumaça desaparecer antes de chegar à árvore.


Pensei nas coisas que deixei pela metade.


Algumas por falta de coragem.


Outras porque perderam o sentido.


Outras simplesmente porque eu era jovem demais para perceber que certas portas fecham sem fazer barulho.


Ainda havia uma parte de mim que insistia em voltar a essas portas.


Não para entrar.


Só para verificar se continuavam fechadas.


Achei isso ridículo.


Depois pensei que talvez fosse apenas humano.


O céu começou a escurecer.


A luz da varanda acendeu sozinha.


A caixa de fósforos continuava sobre a mesa.


Peguei-a novamente.


Dessa vez não tentei lembrar de onde vinha.


Coloquei no bolso.


O cigarro terminou.


Fiquei segurando o filtro entre os dedos por alguns segundos, como se esperasse alguma instrução.


Não veio.


Joguei no cinzeiro.


Eu poderia ter ido para dentro.


Não fui.


Talvez ainda esperasse alguma coisa.


Não sei o quê.


Uma resposta.


Uma lembrança.


Uma vontade antiga.


Uma prova de que todo aquele tempo tinha servido para alguma coisa.


Nada aconteceu.


E talvez tenha sido justamente isso que me fez ficar ali.


Sem resolver.


Sem concluir.


Sem transformar a tarde em uma explicação.


A rua continuou.


A árvore continuou.


Dentro da casa, ouvi o gato derrubar alguma coisa.


Fui ver.


Era apenas um copo vazio no chão.


Peguei o copo.


O gato já estava no corredor, indo embora.


Fiquei olhando.


Depois apaguei a luz da varanda.


A casa ficou escura por alguns segundos antes que meus olhos se acostumassem.


E eu percebi que ainda havia coisas em mim que não tinham terminado.


Mas, pela primeira vez, não tive pressa de terminá-las.

*EU ME QUERO DE VOLTA*


Saí de casa sem saber para onde ia. Não era exatamente uma viagem. Viagem pressupõe algum compromisso com a chegada. Eu só queria andar.


Peguei a moto cedo, antes que a cidade começasse a cobrar de mim as coisas que eu já não sabia se queria pagar. Uma mochila pequena, pouca roupa, documentos, algum dinheiro e aquela sensação conhecida de que talvez, se eu ficasse longe o bastante, certas coisas dentro da cabeça perdessem o endereço.


A estrada de serra estava quase vazia.


Subi sem pressa. Curva depois de curva. Pinheiros, barrancos, casas isoladas, pequenas vendas onde ainda se podia tomar café sem alguém perguntar se você queria açúcar. Em alguns lugares, o mundo parecia ter esquecido de atualizar a paisagem.


Eu gostava disso.


Talvez porque passei boa parte da vida fazendo exatamente o contrário.


Atualizando.


Mudando de emprego. De cidade. De mulher. De opinião. De planos. Trocando certezas velhas por certezas novas, como quem troca uma camisa suja e acredita que ficou limpo.


Quando somos jovens, ninguém nos explica direito o tamanho da brincadeira.


Dizem para estudar.


Trabalhar.


Construir.


Casar, talvez.


Ter filhos.


Comprar uma casa.


Ser alguém.


A gente acredita.


Depois descobre que existe uma diferença enorme entre cumprir o figurino e caber dentro dele.


Eu cumpri algumas partes.


Outras fiz pela metade.


E algumas fiz tão bem que quase consegui destruir a pessoa que deveria ter sido.


Foi só muito depois que percebi isso.


Na juventude, eu achava que as decepções eram acidentes de percurso. Uma mulher que não ficou. Um amigo que virou estranho. Um projeto que morreu antes de nascer. Uma porta que não abriu. Um sonho que parecia grande demais para o quarto onde eu dormia.


A gente sofre.


Depois chama aquilo de experiência.


É uma maneira elegante de não admitir que não entendeu nada.


Continuei subindo.


Em determinado ponto, parei a moto num acostamento. Havia uma venda pequena, dessas que parecem ter sobrevivido por teimosia. Pedi café. O homem atrás do balcão devia ter mais ou menos a minha idade. Talvez um pouco mais.


Ele não tinha pressa.


Fiquei olhando enquanto ele limpava o balcão com um pano que provavelmente já tinha visto dias melhores.


Pensei em quantas pessoas eu havia observado durante a vida.


Homens cansados.


Mulheres que desistiram de certas coisas sem anunciar.


Gente que bebia todos os dias.


Gente que trabalhava todos os dias.


Gente que dizia estar feliz com a convicção de quem precisava convencer a si mesmo.


Eu costumava olhar para essas pessoas de fora.


Agora começo a reconhecê-las por dentro.


Essa talvez seja uma das partes menos agradáveis de envelhecer.


Você começa a encontrar nos outros os mesmos defeitos que passou anos condenando.


O homem que você julgava acomodado.


Você.


A mulher que você achava que tinha desistido.


Você.


O sujeito que dizia não esperar mais nada da vida.


Você.


É uma espécie de justiça tardia.


A vida não manda boleto.


Manda espelho.


Voltei para a estrada.


Desci a serra em direção ao litoral. O ar mudou primeiro. Depois a paisagem. A estrada se abriu e o mar apareceu entre uma curva e outra.


Parei.


Fiquei olhando.


Não senti nenhuma revelação.


Ainda bem.


Tenho desconfiança de revelações.


Quase sempre elas duram até o próximo problema.


O que senti foi uma coisa mais simples.


Cansaço.


Um cansaço antigo.


Não do corpo. O corpo estava funcionando.


Era outro.


O cansaço de carregar perguntas que aprenderam a se reproduzir.


Quando somos jovens, procuramos respostas.


Depois de algum tempo, percebemos que algumas respostas apenas criam perguntas melhores.


E algumas perguntas não querem resposta.


Querem companhia.


Segui pela estrada litorânea.


Pequenos lugarejos apareciam e desapareciam. Uma igreja. Uma praça. Dois cachorros dormindo na sombra. Um bar aberto numa quarta-feira à tarde. Um velho sentado numa cadeira de plástico olhando para lugar nenhum.


Talvez ele soubesse alguma coisa.


Talvez não.


Essa é outra mentira da idade.


A gente imagina que quem chegou mais longe sabe mais.


Nem sempre.


Às vezes só chegou mais longe.


Foi então que lembrei de algumas coisas que eu tinha deixado para trás.


Não pessoas exatamente.


Momentos.


A adolescência.


Aquele período estranho em que a vida ainda não tinha apresentado a conta.


Eu sinto falta de coisas que, na época, pareciam insignificantes.


Uma rua.


Um quarto.


Uma conversa idiota.


Uma música tocando num rádio ruim.


Uma tarde sem obrigação.


A sensação de que ainda havia muito tempo.


É curioso.


Quando temos tempo, queremos futuro.


Quando o futuro já está parcialmente ocupado pelo passado, começamos a querer de volta algumas tardes.


Não quero voltar a ser adolescente.


Isso seria uma estupidez.


Quero apenas recuperar alguma coisa daquele sujeito que acreditava que a vida podia ser diferente.


Não necessariamente melhor.


Diferente.


Talvez seja isso que eu tenha perdido.


Não a juventude.


A capacidade de acreditar antes de exigir garantias.


Passei anos tentando viver de acordo com aquilo que parecia correto.


E algumas coisas corretas fizeram estragos.


Essa talvez seja uma das coisas que ainda não compreendi.


Como alguém pode fazer tudo conforme o figurino e, mesmo assim, terminar diante de uma vida que não reconhece?


Você trabalha.


Paga contas.


Cumpre compromissos.


Evita escândalos.


Engole algumas vontades.


Adia outras.


Diz “depois”.


Diz “agora não”.


Diz “é o melhor”.


E, quando percebe, existe uma distância entre aquilo que você construiu e aquilo que você era.


Não houve uma explosão.


Não houve música triste.


Ninguém percebeu.


Foi acontecendo.


Depois que sangra, seca.


O problema é que a pele fica diferente.


Talvez algumas coisas tenham morrido em mim em dias que eu achei que tinha apenas perdido.


Uma relação.


Uma amizade.


Uma possibilidade.


Uma versão de mim.


Aquilo não me matou.


Mas algo naquele dia morreu em mim.


Demorei para entender.


Ou talvez ainda não tenha entendido.


A diferença entre amadurecer e se acostumar é uma das perguntas que continuam me perseguindo.


Porque existe gente madura.


E existe gente apenas cansada.


Existe gente tranquila.


E existe gente que desistiu de discutir com a própria vida.


Existe gente que aprendeu a viver.


E existe gente que aprendeu a não reclamar.


Às vezes eu não sei em qual grupo estou.


Talvez nos dois.


Continuei rodando.


O vento batia no capacete e levava embora qualquer possibilidade de pensamento organizado.


Foi bom.


Minha cabeça sempre foi um lugar pouco recomendável.


Sou de carne, osso e uma confusão de pensamentos.


Nunca fui exatamente uma pessoa simples.


Durante muito tempo achei que isso fosse um defeito.


Hoje já não sei.


Talvez a simplicidade seja apenas uma forma eficiente de esconder aquilo que não conseguimos compreender.


Eu sempre vou ser uma confusão.


Não digo isso com orgulho.


Também não digo com vergonha.


É apenas um diagnóstico sem médico.


No fim da tarde, parei perto de uma praia pequena.


Não havia quase ninguém.


Tirei o capacete e sentei num banco.


O mar fazia aquele trabalho antigo de ir e voltar sem precisar justificar nada.


Pensei que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando resolver a minha vida.


Talvez a amnésia resolvesse o problema.


Esquecer algumas coisas.


Esquecer algumas pessoas.


Esquecer certas versões de mim.


Mas logo percebi que seria inútil.


Porque não é o passado que continua nos perseguindo.


Somos nós que continuamos voltando até ele.


Voltei para a moto.


Ainda não sabia para onde iria dormir.


Também não sabia o que faria no dia seguinte.


Pela primeira vez em muito tempo, isso não pareceu uma ameaça.


Talvez porque eu tenha finalmente entendido que planejar tudo não me protegeu de nada.


Tudo correu como eu não planejei.


E, apesar disso, cheguei até aqui.


Não é uma vitória.


Também não é uma derrota.


É apenas o lugar onde estou.


A estrada continuava pela costa.


Eu podia seguir.


Podia parar.


Podia voltar.


Não havia placa dizendo qual das três opções seria a mais correta.


Ainda bem.


Passei anos demais obedecendo placas.


Naquela noite, enquanto o céu escurecia sobre o mar, pensei numa frase que não parecia minha, embora viesse de dentro:


eu me quero de volta.


Não o homem que fui.


Isso seria impossível.


Quero de volta alguma coisa que existia antes de eu começar a negociar comigo mesmo.


Antes de transformar desejo em obrigação.


Antes de confundir responsabilidade com abandono.


Antes de aprender a dizer “é assim mesmo”.


Talvez viver seja justamente isso.


Perder algumas versões de si.


Encontrar outras.


E, de vez em quando, reconhecer uma antiga no acostamento.


Parar.


Olhar.


Não tentar trazê-la de volta.


Apenas agradecer.


Depois subir na moto e continuar.


Porque existir é pouco.


É preciso viver.


Mesmo sem saber exatamente como.


Mesmo carregando perguntas.


Mesmo fazendo errado.


Mesmo descobrindo tarde demais que algumas respostas não estavam na estrada, na cidade, nas pessoas ou nos lugares para onde fugimos.


Estavam naquilo que a gente evitou olhar enquanto ainda tinha tempo.


O motor pegou na primeira tentativa.


Pus o capacete.


Acelerei.


Vamos, vida.


Me surpreenda.


Dessa vez eu não vou exigir que você faça sentido.

*VOCÊ NÃO É A CASA*


Naquela noite o bar estava quase vazio. Duas mesas ocupadas, um sujeito dormindo sobre o próprio copo e eu, no balcão, fingindo que ainda havia alguma coisa para esperar. O dono tinha colocado uma moeda no jukebox e a música saía baixa, um pouco torta, como se até ela soubesse que não valia a pena se esforçar demais.


Eu estava olhando para a garrafa quando vi a fotografia.


Uma mulher de vestido branco, descalça, subindo uma escadaria destruída.


Fiquei algum tempo olhando aquilo.


Não sei por quê.


Talvez porque havia alguma coisa familiar naquela escada.


Os tijolos estavam expostos. O reboco tinha caído em pedaços. Havia entulho nos degraus. A casa parecia ter sido abandonada depois de uma briga longa demais. Daquelas em que ninguém lembra mais quem começou e todos saem perdendo.


Ela subia.


De costas.


Não dava para saber quem era. Nem precisava.


O que importava era que ainda estava subindo.


Pedi outra dose.


O homem do meu lado olhou para a fotografia e disse:


— Lugar perigoso.


Eu disse que sim.


Mas não era a escada que me preocupava.


Era reconhecer a casa.


A gente passa uma parte da vida construindo paredes. Trabalho. Família. Amigos. Algumas mulheres. Hábitos. Pequenas certezas. Vai colocando coisa dentro e chamando aquilo de vida.


Depois começam as rachaduras.


Primeiro ninguém percebe.


Uma porta que já não fecha direito. Um joelho que reclama. Um nome que você esquece. Uma pessoa que antes ligava e agora não liga mais. Um amigo que morreu e deixou uma cadeira vazia que ninguém tem coragem de ocupar.


Depois vem o resto.


A casa começa a perder pedaços.


Aos sessenta e poucos anos, eu já não tenho a mesma disposição para fingir que não vejo.


O corpo diminui um pouco.


A paciência também.


A gente começa a carregar menos coisas porque percebe que carregar tudo nunca foi sinal de força. Às vezes era só medo de deixar alguma coisa para trás.


Olhei novamente para a mulher.


O vestido branco destoava daquela destruição toda.


Aquilo me incomodou.


Talvez porque eu tivesse passado tempo demais acreditando que era preciso estar inteiro para continuar.


Não é.


Você pode estar cansado e continuar.


Pode ter perdido gente e continuar.


Pode olhar para trás e descobrir que boa parte daquilo que chamava de futuro já virou entulho.


E continuar.


A escada estava quebrada, mas ainda era uma escada.


Isso bastava.


A mulher levantava um pouco o vestido para não tropeçar. Não havia heroísmo naquilo. Nenhuma grande lição. Ela simplesmente precisava subir.


Foi quando entendi uma coisa que demorei décadas para entender.


Eu não sou a casa.


Passei muito tempo confundindo as duas coisas.


Achei que cada perda arrancava um pedaço de mim. Que cada fracasso derrubava uma parede. Que cada despedida me deixava mais perto do fim.


Talvez não.


Talvez algumas coisas apenas precisem cair.


Há construções que só continuam de pé porque ninguém teve coragem de abandoná-las.


A música terminou.


O dono do bar não colocou outra.


Ficamos alguns segundos ouvindo o silêncio das garrafas, dos copos, da rua quase vazia.


Paguei a conta e saí.


Na calçada, o ar estava frio.


Não me senti renovado. Não houve epifania. Minha vida continuava com os mesmos problemas e algumas contas novas.


Mas, naquela noite, eu tinha uma pequena diferença.


Eu sabia que a ruína não era necessariamente o fim.


Às vezes era só o lugar onde a gente finalmente percebe que não precisa morar para sempre.


E então sobe.


Mesmo descalço.


Mesmo tarde.


Mesmo sem saber exatamente o que existe no andar de cima.


Sobe porque ficar parado dentro dos próprios escombros também é uma escolha.


E eu já tinha passado tempo demais escolhendo errado.