Nilza Carvalho
Feito de Ontens
Recordo-me dos ontens porque estavam repletos de você. Havia a sua risca de luz na sala, o som do seu riso costurado ao vento das tardes e aquela sensação miúda de que o tempo nunca ousaria nos tocar. Éramos imensos no espaço de um abraço. Infelizmente, o presente insiste em me lembrar que você agora é apenas uma bonita história para contar. O silêncio da casa hoje tem o seu formato, e as páginas dos dias correm frias, restando-me apenas o exercício de folhear, na mente, o enredo daquilo que fomos e que o tempo, sem pressa, transformou em saudade.Fecho os olhos e ainda consigo tatear os detalhes: o calor da sua mão morna na minha, o cheiro de café fresco misturado ao seu perfume e os planos bobos que desenhávamos no teto do quarto. Éramos feitos de miudezas que pareciam eternas. Perco-me nos minutos revivendo aquela terça-feira qualquer, o avesso do seu sorriso, o tom exato da sua voz me chamando pelo nome. No fim, a memória é esse labirinto bonito onde eu sempre escolho me perder, só para esbarrar em você mais uma vez.Abro os olhos e encosto a testa no vidro frio da janela, observando o mundo lá fora ser lavado pela chuva mansa que cai. O meu reflexo embaçado na vidraça me devolve a imagem de uma mulher que já não chora, mas que carrega no olhar a calmaria de quem aceitou o fim. Deixo que a última gota deslize pelo vidro assim como você deslizou da minha vida, sabendo que algumas pessoas nascem para ser o nosso caminho, e outras, apenas a nossa mais bonita paisagem. Respiro fundo, viro as costas para a tempestade e dou o último passo para fora do nosso passado
Feito de Ontens: Capítulo II
— O Acorde do AmanhecerO despertador tocou cinco minutos antes do sol vencer a linha do horizonte. Pela primeira vez em muitos meses, o peito não acordou apertado pela urgência de procurar o que já não estava ali. A tempestade da noite anterior tinha deixado um rastro de terra molhada e folhas caídas no quintal, mas o céu que se abria na janela era de um azul limpo, lavado. Preparei o café — apenas uma xícara desta vez, sem a pressa boba de outros tempos. O vapor subia desenhando formas abstratas no ar da cozinha, mas meus olhos já não tentavam enxergar o seu rosto no meio da fumaça. Sentada à mesa, saboreei o primeiro gole em um silêncio que, curiosamente, já não parecia um vazio intransitável. Era espaço. Espaço para o dia que começava, para os passos que eu ainda precisava dar e para a vida que insistia em continuar correndo em minhas veias.Terminei o café e decidi ligar o velho rádio da sala, um hábito que eu havia abandonado desde o dia em que o silêncio se tornou meu escudo. Girei o botão analógico e, como uma ironia bonita do destino, o choro do violão e o ponteio da viola começaram a ecoar pelo ambiente, anunciando a sua canção mais conhecida. Era a sua voz. Aquela mesma voz que outrora comandava coros de milhares de pessoas em arenas iluminadas, arrastando multidões com a verdade de quem cantava a alma do povo, e que tantas vezes cantou baixinho no meu ouvido para me fazer dormir. Fechei os olhos por um segundo, esperando o habitual aperto no peito, a lágrima pesada, o choro que me paralisava. Mas eles não vieram. Em vez de dor, senti um calor manso me abraçar. Sorri ao perceber que a sua arte tinha se tornado o seu jeito de continuar vivo no mundo, e que eu finalmente conseguia ouvi-lo sem me quebrar por dentro. A música preencheu a casa, não como um fantasma que assombra, mas como uma trilha sonora que me abençoava a seguir em frente. Pela primeira vez, eu não mudei de estação; eu apenas cantei junto, baixinho, sabendo que a sua voz seria para sempre a minha melodia de fundo, mas que o show da minha vida precisava continuar.
Capítulo III — A Estação do Reencontro
Quando a última nota da música se dissolveu no ar, o silêncio que retornou à sala já não carregava o
peso de uma ausência. Tinha o frescor de um recomeço. Desliguei o rádio com um toque suave, não
para calar a sua voz, mas para guardar aquele momento como um amuleto dentro do peito.
Caminhei até o quarto e abri o guarda-roupa.
Lá no fundo, sob casacos antigos e memórias empoeiradas, estava a velha caixa de papelão que eu
não tinha coragem de tocar há mais de um ano. Dentro dela, fotografias com bordas gastas,
ingressos de shows memoráveis e aquela sua jaqueta jeans desbotada, que ainda guardava um
rastro quase imperceptível de loção pós-barba e poeira de estrada.
Peguei a jaqueta. Em outros dias, aquele pedaço de pano teria me feito desabar no chão, abraçada
ao fantasma do que fomos. Mas hoje, eu apenas a vesti. Ela ficou grande nos ombros, um abraço
largo e familiar que me protegeu do vento fresco que entrava pela janela. Olhei-me no espelho e vi,
nos meus próprios olhos, um brilho que eu julgava ter esquecido em algum lugar do passado.
Decidi sair. Caminhei pelas ruas do bairro sentindo o sol da manhã esquentar o asfalto úmido. As
pessoas passavam com pressa, imersas em suas próprias rotinas, alheias ao pequeno milagre
doméstico que havia acabado de acontecer na minha sala de estar. Parei na floricultura da esquina,
um lugar que costumávamos frequentar juntos aos sábados.
— O mesmo vaso de sempre? — perguntou o florista, reconhecendo-me com um sorriso
complacente.
— Não — respondi, e minha própria voz soou firme, quase nova aos meus ouvidos. — Hoje eu quero
girassóis. Os mais radiantes que tiver.
Caminhei de volta para casa segurando as flores amarelas contra o peito, como quem carrega um
pedaço do próprio sol. Ao entrar, mudei os móveis de lugar. Abri as cortinas da sala inteira, deixando
a luz inundar cada canto que antes vivia na penumbra. Coloquei os girassóis bem no centro da mesa
da cozinha, onde o vapor do café havia desenhado o futuro algumas horas antes. O passado ainda
estava ali, vivo e eterno, impresso na minha história. Mas o presente batia na janela com a urgência
da vida que não espera. O ontem tinha sido feito; o hoje era meu para construir!
©nilzacarvalho
Feito de Ontens - Capítulo IV — A Poesia das Ruas
A jaqueta jeans, que antes parecia um escudo contra o mundo, agora era apenas um casaco
confortável para uma tarde de outono. Tranquei a porta de casa — não para me esconder do que
ficou lá dentro, mas para descobrir o que estava me esperando lá fora. Havia um burburinho na
cidade, aquela energia típica de um fim de tarde onde as pessoas buscam um pretexto para
desacelerar da rotina.
Caminhei sem rumo até a praça central, o coração pulsante da cidade onde os artistas de rua
costumam se reunir. De longe, notei uma pequena multidão se formando em círculo perto do
chafariz. Um som familiar cortou o ar: o dedilhar ritmado de uma viola e o choro sutil de um
violão. Meu coração deu um salto involuntário, mas não de dor. Foi o eco do reconhecimento.
Aproximei-me devagar, misturando-me aos desconhecidos. No centro da roda, dois rapazes jovens,
com os rostos queimados de sol e o brilho nos olhos de quem está começando, cantavam uma
daquelas músicas do "lado B" do repertório dele — uma daquelas canções profundas que não
tocavam no rádio, mas que ele compôs em uma madrugada chuvosa no nosso quarto.
Fechei os olhos por um segundo. Ao meu redor, as pessoas cantavam em coro, baixinho,
comovidas. Um homem de cabelos brancos limpava o canto do olho; uma jovem segurava a mão do
namorado. Naquele momento, percebi a grandiosidade do que tínhamos vivido. Ele não pertencia
mais apenas à minha saudade ou aos meus discos. Ele pertencia ao vento, ao povo, à memória
afetiva de cada uma daquelas pessoas que nunca o abraçaram, mas que se sentiam abraçadas por
suas palavras.
Quando a música acabou e os aplausos ecoaram pela praça, os rapazes agradeceram e um deles
disse ao microfone: "Essa foi para quem sabe que a boa música nunca morre". Sorri. Dei alguns
passos à frente, tirei uma nota do bolso e a depositei na caixa aberta do violão deles. O jovem
violeiro me olhou, surpreso, e fixou os olhos na jaqueta jeans que eu usava. Ele pareceu reconhecer
a energia.
— Bela jaqueta, moça — disse ele, com um aceno respeitoso com o chapéu. — Ele aprovaria.
— Obrigada — respondi, e pela primeira vez, o agradecimento não veio acompanhado de um nó na
garganta. — Ele com certeza está orgulhoso de vocês.
Dei as costas à roda e continuei minha caminhada. O sol começava a se deitar atrás dos prédios,
pintando o céu de tons de rosa e dourado. Eu estava sozinha na calçada, mas já não me sentia
solitária. O amor dele tinha se transformado em arte pública, e eu, finalmente, fazia parte do público
de novo, pronta para assistir ao espetáculo do mundo.
©nilzacarvalho #nilzacarvalho
