Capítulo III — A Estação do... Nilza Carvalho

Capítulo III — A Estação do Reencontro


Quando a última nota da música se dissolveu no ar, o silêncio que retornou à sala já não carregava o


peso de uma ausência. Tinha o frescor de um recomeço. Desliguei o rádio com um toque suave, não


para calar a sua voz, mas para guardar aquele momento como um amuleto dentro do peito.


Caminhei até o quarto e abri o guarda-roupa.


Lá no fundo, sob casacos antigos e memórias empoeiradas, estava a velha caixa de papelão que eu


não tinha coragem de tocar há mais de um ano. Dentro dela, fotografias com bordas gastas,


ingressos de shows memoráveis e aquela sua jaqueta jeans desbotada, que ainda guardava um


rastro quase imperceptível de loção pós-barba e poeira de estrada.


Peguei a jaqueta. Em outros dias, aquele pedaço de pano teria me feito desabar no chão, abraçada


ao fantasma do que fomos. Mas hoje, eu apenas a vesti. Ela ficou grande nos ombros, um abraço


largo e familiar que me protegeu do vento fresco que entrava pela janela. Olhei-me no espelho e vi,


nos meus próprios olhos, um brilho que eu julgava ter esquecido em algum lugar do passado.


Decidi sair. Caminhei pelas ruas do bairro sentindo o sol da manhã esquentar o asfalto úmido. As


pessoas passavam com pressa, imersas em suas próprias rotinas, alheias ao pequeno milagre


doméstico que havia acabado de acontecer na minha sala de estar. Parei na floricultura da esquina,


um lugar que costumávamos frequentar juntos aos sábados.


— O mesmo vaso de sempre? — perguntou o florista, reconhecendo-me com um sorriso


complacente.


— Não — respondi, e minha própria voz soou firme, quase nova aos meus ouvidos. — Hoje eu quero


girassóis. Os mais radiantes que tiver.






Caminhei de volta para casa segurando as flores amarelas contra o peito, como quem carrega um


pedaço do próprio sol. Ao entrar, mudei os móveis de lugar. Abri as cortinas da sala inteira, deixando


a luz inundar cada canto que antes vivia na penumbra. Coloquei os girassóis bem no centro da mesa


da cozinha, onde o vapor do café havia desenhado o futuro algumas horas antes. O passado ainda


estava ali, vivo e eterno, impresso na minha história. Mas o presente batia na janela com a urgência


da vida que não espera. O ontem tinha sido feito; o hoje era meu para construir!
©nilzacarvalho