Feito de Ontens - Capítulo IV — A... Nilza Carvalho

Feito de Ontens - Capítulo IV — A Poesia das Ruas


A jaqueta jeans, que antes parecia um escudo contra o mundo, agora era apenas um casaco


confortável para uma tarde de outono. Tranquei a porta de casa — não para me esconder do que


ficou lá dentro, mas para descobrir o que estava me esperando lá fora. Havia um burburinho na


cidade, aquela energia típica de um fim de tarde onde as pessoas buscam um pretexto para


desacelerar da rotina.


Caminhei sem rumo até a praça central, o coração pulsante da cidade onde os artistas de rua


costumam se reunir. De longe, notei uma pequena multidão se formando em círculo perto do


chafariz. Um som familiar cortou o ar: o dedilhar ritmado de uma viola e o choro sutil de um


violão. Meu coração deu um salto involuntário, mas não de dor. Foi o eco do reconhecimento.


Aproximei-me devagar, misturando-me aos desconhecidos. No centro da roda, dois rapazes jovens,


com os rostos queimados de sol e o brilho nos olhos de quem está começando, cantavam uma


daquelas músicas do "lado B" do repertório dele — uma daquelas canções profundas que não


tocavam no rádio, mas que ele compôs em uma madrugada chuvosa no nosso quarto.


Fechei os olhos por um segundo. Ao meu redor, as pessoas cantavam em coro, baixinho,


comovidas. Um homem de cabelos brancos limpava o canto do olho; uma jovem segurava a mão do


namorado. Naquele momento, percebi a grandiosidade do que tínhamos vivido. Ele não pertencia


mais apenas à minha saudade ou aos meus discos. Ele pertencia ao vento, ao povo, à memória


afetiva de cada uma daquelas pessoas que nunca o abraçaram, mas que se sentiam abraçadas por


suas palavras.


Quando a música acabou e os aplausos ecoaram pela praça, os rapazes agradeceram e um deles


disse ao microfone: "Essa foi para quem sabe que a boa música nunca morre". Sorri. Dei alguns


passos à frente, tirei uma nota do bolso e a depositei na caixa aberta do violão deles. O jovem


violeiro me olhou, surpreso, e fixou os olhos na jaqueta jeans que eu usava. Ele pareceu reconhecer


a energia.


— Bela jaqueta, moça — disse ele, com um aceno respeitoso com o chapéu. — Ele aprovaria.


— Obrigada — respondi, e pela primeira vez, o agradecimento não veio acompanhado de um nó na


garganta. — Ele com certeza está orgulhoso de vocês.






Dei as costas à roda e continuei minha caminhada. O sol começava a se deitar atrás dos prédios,


pintando o céu de tons de rosa e dourado. Eu estava sozinha na calçada, mas já não me sentia


solitária. O amor dele tinha se transformado em arte pública, e eu, finalmente, fazia parte do público


de novo, pronta para assistir ao espetáculo do mundo.


©nilzacarvalho #nilzacarvalho