Gleidston César

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Se Você Não Tivesse Medo


Se você não tivesse medo,
ergueria pontes de encontro e esperança,
não muros que aprisionam almas,
nem becos onde o silêncio asfixia vozes.


Se você não tivesse medo,
não semearia no coração dos seus filhos
o temor pela pele escura.


Se você não tivesse medo,
ousaria dar voz
a quem está na sua cozinha.


Quem são vocês
que nos mercadejam
como se fôssemos moedas sem face ou história?

Florescer em Silêncio




Passo o dia esculpindo pedras,
Como se as flores nascessem
Sem esperança.
Quanta ingenuidade!


De cabeça baixa, sigo,
Cercado pela desumanidade,
O céu, em silêncio, chora,
Mas o coração insiste.


As folhas secas se agarram,
Mesmo no inverno,
Quando as flores não nascem,
A primavera as faz renascer.


Entre lágrimas aprisionadas,
Ora livres, ora contidas,
Elas não se calam.


O jardineiro de mãos serenas
Observa, enquanto as flores,
Assim como ele,
Florescem a cada manhã.

AMIGO


Precisa-se de um amigo,
não um amigo qualquer;
um amigo que chore,
que abrace e ouça,
um amigo que sinta sua falta,
que, mesmo sem saber onde você está,
saia à sua procura.

Um amigo com quem você não precise mentir,
que te olhe,
te abrace como se não houvesse amanhã;
um amigo que ligue só para contar uma piada,
quando sabe que você só queria desaparecer.

Se não for assim, não quero.

Cansei de ser o ombro amigo,
de ligar,
de ouvir em silêncio, sem nada falar.
Cansei de abraçar,
cansei da falta de reciprocidade,
cansei da ausência de empatia.

Cansei de dizer palavras que acalmam,
de repetir “está tudo bem”
sem ouvir um “obrigado.”
Cansei de ser abrigo
quando meu coração estava em pedaços.

Cansei de ver pessoas entrando e saindo da minha vida,
quando já não havia nada a oferecer.

Então, a quem vier e quiser ficar,
saiba que encontrará reciprocidade.
Caso contrário, vá embora.

Aprendi a caminhar sozinho,
a sofrer sozinho,
a desabafar comigo mesmo,
a chorar e brigar.

Descobri que sou o suficiente.
Eu sou o meu melhor amigo.

Exclusividade


Vês o meu olhar,
tens-me.

Fugitivo e vagante,
sou por mãos alheias.

Mas tens-me, sem lugar,
hora ou dia.
Unicamente
me tens de corpo inteiro.

Imperfeito


Sou um caminhante imperfeito
que aperfeiçoa sua busca
a cada sonho realizado.

É nesse encontro
de sombras e cinzas
que me refaço,
renascendo dia após dia.

A urgência do agora

Quando for tarde demais

Quando for tarde demais,
tu chegarás atrasado.

Não haverá tempo para abraços,
não haverá tempo para despedidas,
não haverá tempo para pedidos de desculpa,
não haverá tempo para explicações.

Será depois —
e o depois é passado.

Será uma urgência perdida,
uma vitória fracassada,
lágrimas dispensáveis.

Hoje, agora,
é tudo o que existe.

O resto são lembranças,
saudades que o tempo não perdoa,
não esquece,
não morre.

Vive o presente,
que é dádiva.

Se o amanhã existir,
será um novo tempo.

Há pessoas que chegam
em silêncio,
e transmite paz —
é de outro nível.

As águas que brotam na primavera


Escrevo-te de próprio punho.


Estamos na primavera; o inverno, na sua pressa, deu lugar às flores, ao cheiro bom e suave.


Neste mundo velho, onde as lembranças têm o seu próprio canto, sou conduzido pela justiça do presente a celebrar a verdade.


Aqueles que nos separam entoam um cântico triste: são desleais e deleitam-se no seu próprio engano.


Outrora, falámos que as águas que brotam na primavera são límpidas; as gaivotas reúnem-se ao teu redor para entoar melodias que só elas sabem cantar.


Assim também são os meus sentimentos pela tua vida: nutridos de lucidez, livres de qualquer mesquinhez.


As tardes aqui, no verão, são quentes e vibrantes, assim como o meu respeito pela tua vida.


Creio que há sempre tempo para expressar a verdade e esclarecer os factos.


Aqui, deste chão que me vê escrever, sou levado a não falar dos espinhos, das ausências nem do esquecimento, mas a registar o sentimento de afeto.


Risco todo o deslaço que os pérfidos celebram.


Digo e repito:


não há outro sentimento
senão o amor.


É com este mesmo espírito que, respeitosamente, te peço:


não te detenhas nos falsos dizeres que têm chegado aos meus ouvidos.


Antes, pelo contrário, mantenhamos este canal de diálogo em sigilo.


Por amor e respeito, escrevo-te:


este gesto é fraterno,
é de amor
e gratidão.


Mantenhamo-nos discretos; só assim estaremos protegidos da celebração dos pérfidos, porque eles anseiam pela discórdia enquanto santificam os seus pecados.

Amanhã saberemos que tudo
não passava de uma piada.


Alguns sorridentes dirão:
«Eu avisei!»
Outros, perplexos,
ficarão mudos de tristeza.


Mas, depois de amanhã,
a vida continuará normalmente,
como se vivêssemos
num paraíso de bestialidade.


Porque o ser humano
transformou a vida
num espetáculo medíocre,
onde os protagonistas
sorriem obrigatoriamente,
mesmo que o choro
lhes estampe no rosto
toda a sua dor.


Mas a plateia não se interessa.
Nem sequer sabe o nome do espetáculo,
mas aplaude efusivamente
cada personagem de si mesma,
tristemente retratada
por outro ser igual a si
no palco da vida.


Só descobrem a verdade
quando o reflexo dos holofotes
revela, no palco,
as suas faces sem brilho,
sem alegria e sem vida.


Espantados,
veem as cortinas fecharem-se,
sem saberem se estão mortos
ou vivos.


Mas, no dia seguinte aos «depois»,
para alguns, o palco nunca mais reabriu;
para outros, nada mudou,
porque nunca compreenderam
quem são.