Fernando Santos
O HOMEM, А BANDEIRA E А TOLERÂNCIA DEMOCRÁTICA
Havia um homem que teve a coragem de levar uma bandeira de Israel para junto de defensores da Palestina. Talvez acreditasse que, numa sociedade que tanto proclama a tolerância, a liberdade de expressão e a democracia, fosse possível empunhar um símbolo controverso sem ser tratado como inimigo.
Mas bastou a bandeira aparecer para que a tolerância desse lugar
à fúria.
Aqueles que tanto falam de paz, respeito e direitos humanos atacaram-no como cães raivosos, como se a sua simples presença constituísse um crime imperdoável.
O homem, coitado, até terá agradecido aos céus por ter sido um abençoado com tão calorosa recepção. Afinal, quando a moralidade se transforma em agressividade e a tolerância se manifesta à pancada, sobreviver já parece uma bênção divina.
As pancadas, essas, só ele sabe a dor que lhe deixaram.
E fica a pergunta: de que serve proclamar a liberdade, se não somos capazes de respeitar a liberdade de quem pensa de maneira diferente?
Porque a verdadeira tolerância não se prova quando estamos rodeados por aqueles que concordam connosco. Prova-se quando temos diante de nós alguém que discorda de nós — e, ainda assim, reconhecemos o seu direito de existir, falar e empunhar a sua bandeira.
A democracia não se mede pelos slogans que gritamos, mas pela violência que somos capazes de recusar.
A METAMORFOSE IDEOLÓGICA QUE NINGUÉM QUER VER
A minha reflexão aponta para uma transformação importante: a substituição da igualdade prometida pela obediência exigida, independentemente da ideologia que legitima o poder. Eu dou mais força ao texto distinguindo a ideologia daquilo em que os regimes autoritários se transformaram.
O comunismo de outros tempos prometia a igualdade, mas, nos seus regimes autoritários, concentrou o poder num partido único, sob a autoridade de um líder, subordinando o indivíduo aos interesses do Estado.
Hoje, assistimos à possibilidade de uma nova metamorfose: um sistema que combina o poder económico do capitalismo com mecanismos de controlo político e social que podem assumir características autoritárias.
No fim, os extremos podem encontrar-se num ponto comum: a concentração do poder, a submissão do indivíduo e a intolerância perante a divergência.
Muda-se o discurso, mudam-se os símbolos, mudam-se os métodos, mas o resultado pode ser semelhante: pessoas transformadas em seguidores obedientes, com cada vez menos espaço para a diversidade, a liberdade de criar e o direito de pensar pela própria cabeça.
Quando a opinião contrária passa a ser tratada como uma ameaça, quando a discordância conduz à exclusão social e quando o pensamento independente é silenciado, a liberdade deixa de ser um direito e passa a ser uma concessão de quem manda.
E quando o poder decide o que podemos pensar, dizer ou ser, já não estamos apenas perante uma disputa ideológica. Estamos perante uma ameaça à própria liberdade humana.
Porque o verdadeiro perigo não está apenas na ideologia que governa, mas na ausência de limites ao poder que ela exerce.
A ideia central merece ser sublinhada: um regime não se torna livre por mudar de ideologia, nem se torna justo por prometer igualdade. A liberdade exige pluralismo, oposição política, direitos individuais e limites efetivos ao poder.
Há, contudo, uma distinção importante: o comunismo e o capitalismo não são, por definição, regimes de partido único ou de líder único. Existem diferentes modelos de ambos. O que a minha crítica identifica é algo transversal: a possibilidade de qualquer sistema económico ou ideológico ser instrumentalizado para concentrar o poder e exigir obediência.
É precisamente essa distinção que torna a minha reflexão mais forte: não se trata apenas de denunciar uma ideologia, mas de questionar qualquer poder que pretenda substituir a consciência individual pela obediência coletiva.
