Fernanda Santoro
É quando a morte se avizinha como uma inimiga dissimulada:
Caminha com uma cortina de fumaça. Até o último fio, pode nos iludir, até que decida se revelar (implacável).
É mestre dos disfarces. Passo na ponta do pé. Som no volume baixo.
A morte será sempre aquela visita indesejada.
E não há mudança de endereço que escape da sua senda. Ela sempre nos encontrará.
Diante da morte, nossa impotência é grafada em letras garrafais. De mãos atadas, acatamos o inaceitável.
Quando tudo parecer derrota, iremos nos reerguer, ainda que feridos.
Haverá tristeza, mas não será um monólogo: forçaremos que ela dialogue com a alegria, e elas se alternarão.
Se a saudade nos cortar com a ausência, devolveremos a ela a presença embrulhada em forma de lembranças.
Quando a dor descolorir o nosso dia, derramaremos novos potes de tintas sobre a tela.
Para cada último suspiro em uma cama de hospital, uma forte puxada de ar do outro lado da cidade.
Sejamos, portanto, igualmente implacáveis com a morte: adversário à sua altura. Essa é nossa única reviravolta possível.
Assim, deixemos que ela se vista de escuridão para nos confundir.
Em resposta, nós nos vestiremos de vida para envergonhá-la.
A criatividade anda de mãos dadas com a curiosidade.
Explorar novidades e questionar são dois traços de curiosidade que estimulam nossa habilidade criativa.
Ser criativo envolve, além de outros aspectos, saber gerar de forma flexível uma pluralidade de ideias e possibilidades a partir de um único estímulo.
Ser curioso consiste em desejar aprender informações novas e eliminar a ignorância, além da vontade de encontrar soluções.
Ou seja, criatividade e curiosidade exigem experimentação.
O escritor deve cultivar a curiosidade como uma semente para ser mais criativo.
Por isso, o "ser fora da caixa" é importante.
É preciso desafiar suposições, revelar caminhos alternativos e abraçar novas perspectivas.
Escrever requer coragem, pois quem escreve se expõe, se colocando, assim, em um lugar de real vulnerabilidade.
Pensar em vulnerabilidade significa pensar em fragilidade, mortalidade e finitude.
Nesta altura, podemos compreender a rede de sustentação da vida como o conjunto em que habitam nosso corpo, nosso entorno e nós mesmos.
Não podemos atribuir à nossa corporeidade o estatuto de objeto ou de mera coisa, pois ela possui afetividade.
Por isso, é por meio da afetividade que o sujeito humano se coloca como um ser no mundo, junto com os outros semelhantes.
A afetividade é essencialmente relacional.
A qualidade dos afetos é o que baliza os encontros presentes nas relações humanas.
É a potência da afetividade que impõe um enfrentamento real às vulnerabilidades.
Quando os nossos vínculos e nosso senso de pertencimento estão fragilizados, nos sentimos totalmente expostos a riscos de todas as sortes.
Contudo, o afeto é capaz de transformar esses territórios de vulnerabilidade. O acolhimento pode ser como um porto-seguro, onde não nos sentimos à deriva.
A abertura emocional depende de coragem.
E a coragem é subsidiada não apenas por nossa própria disposição, mas também pela firmeza da rede que nos sustenta, que inclui o ambiente e nossas relações.
Por isso, o ato de escrever pode ser um verdadeiro divisor de águas, na medida em que revelamos (para tudo e para todos) de que matéria somos feitos.
Arrítmica
A arritmia
Ora tira o ar
Ora arde e alumia
O sangue esquenta
Pulsa até arrefecer
Lança chama nas veias
Como o sol no alvorecer
Se na vida te acelera
No ocaso te sepulta
Se o tempo não te espera
Do luto corre à luta
(Fernanda Santoro)
Poente
As últimas horas de sol
São – deveras – as mais bonitas
É Deus brincando de aquarela
Nas telas da nossa vida
(Fernanda Santoro)
Enfado
Há dias que nos sentimos
Tão sem graça e sem talento
Que nada nos contenta
O dia avança tão mais lento
Como tranças no fio do tempo
(Fernanda Santoro)
Brincante
Fez-se luz onde era sombra
Fez-se festa onde era tédio
Foi um lapso de esperança
Que brotou em meio à seca
Feito riso de criança
(Fernanda Santoro)
Haicais para Brasília
Neste horizonte,
há curvas do arquiteto:
planalto em versos
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Concreto e verde,
tesourinhas que dão nó,
céu e cobogó
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Planos em recorte:
seu lindo abrir de asas
em sul ou norte
(Fernanda Santoro)
AMOR EM VELUDO
O convite à paixão é obra têxtil
Da natureza, extrai seus dotes
Na beleza, converte corações
Como mãos de sacerdotes
O talhe exibe uma feição amorosa
Com abertura nas espinhas dorsais
Em capricho se regeneram os tecidos
Ao se entrelaçar nas fibras naturais
De tudo que se tece e se adorna
Fio a fio, enfeita a alma com forma e cor
Um afago que pousa no corpo como veste:
A eterna procura nas malhas do amor
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Da coletânea “Poemas de Amor para Curar o Mundo”, da Lura Editora
(Fernanda Santoro)
Glassy peartree
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One shall not refuse the heat of the sun
Neither the sweet-seasoned showers
They pray for a lovely and temperate day
Where a choir of loud birds may sing
What the blessed spring must then bring
(Fernanda Santoro)
Na travessia dos humores, a representante da bile negra, a melancolia, é forte canalizadora de inspiração literária ao longo da história.
Padecimento após uma perda. Nostalgia dilacerante. Lamento sobre uma má sorte. Desencanto persistente.
São muitas manifestações possíveis...
O estado melancólico nos transporta para um lugar diferente:
É um lugar que é mais propenso às meditações íntimas.
Durante a experiência melancólica, realizamos um mergulho mais profundo.
Nele, somos capazes de acessar substratos que somente se encontram nessas regiões.
Os resíduos que são encontrados neste estado são as pulsões mais significativas que temos em nosso interior.
A melancolia dispõe de mecanismos únicos que nos permitem uma compreensão maior de quem somos e do que sentimos.
E, por menos vibrante que esse humor pareça, ele entrega uma quota valiosa de contribuição na sociedade.
Basta pensar o que seria da Grécia sem Homero, da Inglaterra sem Shakespeare ou do Brasil sem Guimarães Rosa?
Por isso, há que se valorizar os autores que, corajosamente, se dedicaram a explorar mais a fundo o fator humano.
Essas narrações são pedaços genéticos da constituição da sociedade ao longo do trânsito humano.
Assim, é admirável ver o poder da ficção que se origina do nosso impulso cognitivo.
Ninguém fala para as paredes.
Todo objeto de eloquência aspira a atenção dos ouvintes.
O discurso é, portanto, ajustado a partir do auditório.
Para tomar a palavra e ser ouvido, é preciso demonstrar alguma qualidade.
Todos os autores de comunicação precisam, antes de tudo, capturar o interesse da sua audiência.
Conquistada a atenção, o orador deve então seguir para a argumentação.
A argumentação pressupõe a existência de um contato intelectual entre as partes
Quando esse “encontro” acontece, forma-se a chamada comunidade de espíritos.
Assim, orador e ouvinte têm apreço pelo consentimento e pela participação mental do outro.
Reconhecer o alfabeto não é o mesmo que ler literatura.
A grandeza da literatura é apenas vista por aqueles que conseguem ver além dos signos alfabéticos.
É quando o leitor sente e compreende o ritmo, as alusões, a originalidade verbal, o apelo universal, a verossimilhança e a concepção criativo.
O leitor não deseja reter o texto, apenas mantê-lo em sua vista, sob seu olhar cuidadoso e vigilante, preservando sua essência.
Logo, o oposto de guardar algo é aprisioná-lo, pois isso desnatura sua essência.
A palavra sempre deve ser livre.
