Demétrio Sena - Magé-RJ.
INCONVENIÊNCIA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sempre tento não ser inconveniente. Mas acontece. A boa notícia para quem lida comigo, é que a minha inconveniência não se repete com a mesma pessoa. Basta um leve sinal de contrariedade, uma reticência, um olhar, palavra ou silêncio, e me percebo. Logo me afasto para sempre ou assumo completa formalidade a partir daí, se for uma convivência obrigatória por trabalho, negócios ou outros interesses em comum. Neste caso, passo a lidar como se a minha presença, por si só, já fosse a própria inconveniência.
Depois de me sentir dessa forma, não adiantará qualquer esforço futuro da outra parte, para que haja uma reaproximação. Quem sabe um reaquecimento gradativo dos laços de amizade ou coleguismo. Se me conheço e fui uma vez inconveniente, jamais correrei o risco da reincidência quando menos esperar. E para ter a certeza de que assim será, sem qualquer abalo de minha parte, fico na esperança de que a pessoa em questão seja como eu. Caso contrário, será sua vez de ser inconveniente.
AÉCIO, DILMA & CIA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Aécio e Dilma, os ícones atuais da política partidária brasileira, e que neste momento vejo aos abraços em uma foto que não sei de quando, trocarão quantos beijos, tapas, abraços e xingamentos forem convenientes aos seus interesses ou de seus partidos. E por favor, não incluam por conta própria os interesses do Brasil nesses desempenhos. Não existem tais interesses, embora eu vá respeitar se alguém garantir ou impuser que sim, porque preservo afetos e tenho respeito pelas opiniões divergentes.
Os tolos que brigam país afora por políticos, partidos e suas ideologias voláteis, geralmente se orgulham de não verem novelas. No entanto, eles não enxergam que a política notória que nos rodeia é um folhetim. Apaixonam-se pelas personagens mais canastronas dessas tramas diárias, como telespectadores comuns, e ficam cegos; fanáticos; delirantes. Tornam-se capazes de qualquer arroubo, incluindo acessos de raiva seguidos de agressões verbais e até físicas, em defesa de seus heróis ou mocinhos. Nos capítulos eleitorais a paixão fica tão à flor da pele, que muitos rompem relações românticas, laços de família ou de amizade antiga por essas personagens que não correspondem aos seus amores.
Excluindo as opiniões engessadas, quiçá formadas ou que dançam conforme a música, e mesmo assim merecem respeito, quero fazer uma pergunta: Será que Aécio, Dilma, Lula, Marina Silva, Fernando Henrique ou outros do mesmo grupo, ainda que pareçam rivais entre si, estão dispostos a substituir sinceramente nossos afetos perdidos? Ocuparão as vagas deixadas por quem ofendemos e até agredimos por não terem a mesma paixão pelos heróis ou mocinhos dos nossos contos políticos de fadas?
NÃO AMEI
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sei que ainda circulas entre os vivos,
pois te vejo e não sou de assombrações,
mas as minhas versões de quem é quem
te atravessam nos muros das lembranças...
Não estás no meu sótão de saudades,
nos momentos de minhas nostalgias,
longos dias de vastos pensamentos
ou aquelas quimeras que me aprazem...
na verdade me assusta essa lacuna;
ver que nunca te amei nem foi paixão;
foste chão provisório em meu naufrágio...
Fui capaz de querer sem sentimento,
meu amor se forjou pra ter contexto
em um texto que o tempo rabiscou..
PARA SEMPRE EX
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Qualquer ex que não se conforme com essa condição, vive à caça de artifícios para reviver o passado. Não quer assumir a realidade ou deixar, como se diz comumente, cair a ficha. Visando garantir esse videotape constante, aproveita qualquer ensejo para discutir uma relação inexistente, quase sempre com pretextos briguentos. Briguentos, mas que pelo menos garantem a manutenção da intimidade que não pode mais se manifestar por meio de afagos.
Antigos pares ou cônjuges, essas eternas criaturas apaixonadas se mantêm atuais, ainda que feito pedras nos caminhos de seus alvos. Problematizam, para sempre, antigas questões que deixaram de ser questões reais, e por isso perderam contexto. Tais ex que não se aceitam ex, inventam motivos; disfarçam gestos e vozes; inventam trejeitos... mas não conseguem mascarar os semblantes de seus corações feridos.
OPINIÕES
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quem não concorda comigo
não é tacanho, incapaz,
desinformado e sem letras...
nem é meu inimigo...
É apenas alguém
que não concorda - nem tem
de concordar comigo...
POÇO ESCURO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Dou notícias do mundo ao teu canto sombrio;
lá nas ruas há sonhos novinhos em folha;
muita gente sorri, também chora, tem brio,
sabe quando precisa escapulir da bolha...
Tua triste visão fatalista e caolha
é do caos; do dilúvio; da treva; o vazio;
desconheces a pinga e condenas a rolha,
falas tanto em amor e teu conceito é frio...
Trago muitos recados da vida lá fora;
tem um povo que segue, desenvolve, aflora,
cai do galho no tempo de ficar maduro...
Vê a barra do céu que te nina com farsa,
pelas lendas do inferno, do fogo e da sarça
e da luz que te prende nesse poço escuro...
PASSADO PRESENTE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Lá no futuro, o nosso presente será uma caixa imensa de passados.
DENTRO DA LEI
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ao brincar de brincar amenizo esta culpa
de querer sem querer e ferir o consenso,
mastigar o que penso da chama que sinto
se lhe vejo tão perto; ao alcance da pele...
Galanteios zelosos me acodem aos poucos,
fantasias verbais entre tons bem amenos,
pra pescar um sorriso entreaberto em seu lábio;
pelo menos o cheiro da hora impossível...
Linha tênue que marca e vigia o mau gosto;
há um posto em minh´alma que me policia;
filtra gestos, olhares, inconveniências...
A criança que brinca de propor miragem
sabe quando a viagem requer meia volta;
solta o sonho igual pipa; com linha e cabresto...
FUMAÇA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Outro dia de olhar e não poder;
ter bem próximo à mão e não pegar;
conhecer os caminhos a seguir
e não ir; não achar a sua placa...
Seu calor no colar do meu suor,
mas a pele à deriva em plena praia,
uma vaia simpática e sem voz
ata os nós do meu sonho de você...
Outra vez adiando a minha vez
para quando já sei que assim será;
pra contar até dez outras dez vezes...
Mais uns dedos de prosa e muitos dedos
de segredos do fogo entre a fumaça
que disfarça os sinais e me sufoca...
PERCURSO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Entre o franco e o ranzinza
tem o frágil percurso
do branco ao cinza...
FOME & FOME
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Comerei sem parar,
porque comer
(para ser sincero),
é aquela metáfora
da poesia
sobre o que mais quero...
BIPOLAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Teu incenso de humor
enfumaça o bom senso
numa guerra sem fim
entre o bem e o mal...
O QUE SE DEVE SABER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenha pena dos que sabem ou julgam saber tudo... seja tolerante com quem chegou ao fim da linha, por não ter mais o que aprender.
CAMPOS DE MINH´ALMA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Nunca fui um guerreiro; prezo a paz,
mas ainda estou vivo; ainda sonho;
realizo ilusões de mundo e vida
e me ponho a caminho do amanhã...
Não supero inimigos nem os tenho,
porque vale o que sinto, e sou assim,
há um sim entre os campos de minh´alma,
que não são de batalhas e torneios...
Tenho mãos desarmadas, peço e dou,
jamais tive ou causei qualquer despeito,
sou afeito às conquistas em comum...
Não me aprazem troféus, medalhas, faixas,
caixa, rótulo, título, renome
ou pronome de fino tratamento...
PECADO IMPECÁVEL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Só tenha calma e consinta... e se permita. Sinta os panos etéreos dessa fantasia que nos veste. Forme sutilmente comigo essa cumplicidade velada... que não podemos confessar a nós mesmos... apenas vivê-la, nos limites bem próprios do não poder.
Não tenha medo, entretanto, porque sabemos que sonhamos sem alvo. Sem nenhuma pretensão pra depois. Nossa única esperança é a de podermos manter uma esperança, costurando imagens... estilizando o que jamais avançará o campo da idealização.
Só assim nos provocamos a salvo. Trocamos desejos, com olhares secretos que ninguém sabe ler. Negociamos armadilhas ocultas em gestos dissimulados. Adivinhamo-nos mutuamente, protegidos pela própria bolha da probidade que nos rodeia.
NÓS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já entendo seus nós;
su´alma fechada
nos lábios seus...
Você quer minha voz
emprestada
pra me dar adeus...
BALAS PERDIDAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Que toda bala perdida
no morro, asfalto, viela(...),
seja se hortelã; caramelo;
groselha; coco; morango;
cereja; menta; canela...
SEGUINDO SEUS PÓLOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Estou pronto a nevar, se tiver de ser frio;
sendo assim tudo bem, me preparo pra isto;
posso ter pela frente o pior desafio,
mas a sua vontade já tem o meu visto...
Se trouxer uma cruz, aceitarei ser Cristo;
sou exposto ao seu choque; desencape o fio;
seja tudo e também me tornarei um misto
que no fundo é produto natural do brio...
Aprendi a lidar com seus pólos contrários,
com seu rosto e su´alma de muitos sudários
no mistério afetivo do meu sentimento...
Mas me deixe saber das mudanças de fase;
saberei ser espelho se tiver a base
ou noção sustentável do temperamento...
PARA GOSTAR DE LER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Jamais obrigue o seu filho a ler. Seduza-o. Quem é constantemente obrigado a fazer algo, tudo com o que sonha para o futuro é justamente o dia em que não terá mais de fazer aquilo. Mas quem é seduzido, não. Esse aprende a gostar, e a cada dia se apega mais ao ato de seja lá o que for de bom ou ruim que alguém lhe apresente com as devidas táticas de sedução.
Um exemplo forte, mas negativo dessa verdade está na forma com que os traficantes de drogas induzem crianças e jovens ao vício, e depois ao tráfico. Eles traçam projetos de sedução pela falsa ideia da inclusão em grupos ou galeras, e logo à frente a fantasia de força, dinheiro e poder de afrontar a sociedade que os relegou à má sorte via família, poder público e predadores econômicos.
Leia para seu filho, desde a sua gestação. Ele não entenderá palavras e sons, mas um feto já é capaz de sentir o mundo externo pelas vozes que o rodeiam. Se forem vozes agradáveis, carinhosas e sedutoras, ele se formará sadio. Se forem vozes agressivas, indiferentes ou frias, o efeito será o contrário. Assim será por todo o processo de sua educação, se nós conseguirmos manter o hábito, incentivando-os a ler, mas também permitindo que eles não gostem de alguns livros ou leituras que apreciamos e gostem de outros que não correspondem aos nossos gostos.
Pais que leem; que promovem cultura, bom entretenimento e ambiente saudável, quase sempre criam bons filhos. Quase sempre, porque às vezes a natureza humana surpreende com cidadãos de boa índole criados por maus pais, ou com cidadãos de má índole criados por pais amáveis e zelosos. Anomalias da vida, mas que não devem nos acomodar na criação dos nossos.
Voltando aos livros, criemos filhos atentos ao mundo que os rodeia; filhos capazes de compreender os enunciados da vida e ler as pautas do tempo ao pé da letra ou nas entrelinhas. Para tanto, é necessário seduzi-los com livros; com o hábito não obrigatório de ler. Faremos isto, se formos tão ou mais eficientes e sedutores do que os traficantes de drogas.
SANGUE FRIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
De repente o vazio que me toma;
uma grande lacuna sobre o nada
que já teve uma essência, uma coluna,
mas não foi de fumaça; foi de amores...
Quero ter meus sentidos novamente;
coração que não caiba no meu peito;
minha mente repleta em fantasias
e um leito pra mais do que dormir...
Sem amar e também sem ser amado,
sou leão acuado; nau sem mar;
ter pra dar, e pra ter, faz tanta falta...
De repente o repente que me acorda
com a corda no pulso que nem pulsa,
pois o tempo esfriou meu sangue quente...
NÓS, LAÇOS E NÓS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Bem sei que tenho minhas variações de humor. No entanto, são variações de pessoa para pessoa, porque lido com diferentes personalidades ou naturezas humanas. Se gosto muito de algumas e de outras nem tanto, ou se detesto aquelas e sou indiferente a estas, é natural que revele, a depender da pessoa, um indivíduo diferente. Que outra pessoa desconhece.
Se neste contexto sou assim, minha natureza muda, individualmente. Para o mesmo indivíduo, tenho sempre a mesma temperatura; o mesmo grau de humor. Sorriso ou cara feia; empatia ou apatia; proximidade ou distanciamento; limite ou intimidade. Sou previsível para quem me conhece. Alegre ou triste, assoberbado ou vago, preocupado ou não, manterei cumplicidade ou sigilo; serei formal ou desinibido, avexado ou sem pudor como fui ontem, hoje ou no ano retrasado, conforme a relação interpessoal.
De vez em quando me distancio de alguém bem próximo, depois de relutar muito, internamente. Sei que deixo interrogação, mas isso ocorre quando me sinto na iminência de mudar a natureza da relação: estabelecer novos critérios, diminuir a cumplicidade ou burocratizar os laços. Transformar quem ponho acima de qualquer cuidado, cerimônia, suspeita ou intenção, numa pessoa impessoal, por suas variações de humor que me deixam inseguro e apreensivo sobre como deverei me comportar no dia seguinte. Muitas vezes, até na hora seguinte.
A desbotar os laços mais estreitos, os afetos mais íntimos e pessoais, prefiro apagá-los totalmente. Não tenho nenhuma disposição para tanto, nem é de minha natureza operar um processo de abatimento nos valores afetivos, até que sejam negociáveis conforme a conveniência de quem já não pode acompanhar o meu jeito fixo, definido e previsível de ser.
ALMAS FECHADAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Poetas fazem poesias. Em prosa ou verso. Em formas e fôrmas de poemas, crônicas, contos e artigos, porém sempre poesias. Em seus escritos, falam do que sentem ou pensam. Falam também do que pensam ou sentem que os outros sentem ou pensam. Escrevem sobre terceiros na primeira pessoa, e sobre si mesmos na terceira, sabedores de que tanto faz.
Jamais pretenda saber o que atormenta, entristece ou alegra um poeta, por meio de seus escritos. Não diga nem a si próprio que você o conhece como a palma da mão, mesmo que seja um cigano. As linhas de um poeta estão todas n´alma, e poetas têm as almas fechadas. Isso pode ser lido nas fachadas expostas em seus olhos blindados de poesia.
VERDADES MENTIDAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Eram tantas as vindas,
tantos aindas,
depois nunca mais...
Foram muitos te amo,
juro por deus,
de repente adeus;
verdades mentidas...
Neste canto esquecido,
sou todo partido
por partidas...
