Talvez habitar-se seja também renunciar... Daniel Avancini Araújo
Talvez habitar-se seja também
renunciar à necessidade
de encontrar uma versão definitiva de si.
Permitir-me mudar,
desconhecer-me por vezes,
reconhecer minhas próprias contradições
sem transformá-las em condenação.
Por tanto tempo procurei nos outros
um lugar onde pudesse pertencer
que, às vezes, me esqueci
de permanecer comigo.
Confundi a entrega com a permanência,
a presença com a segurança
e o desejo de ser amado
com a necessidade de ser reconhecido.
Hoje, começo a compreender
que nem todo encontro será abrigo,
nem toda despedida será abandono.
Há quem permaneça por uma vida e quem, por um instante, nos revele algo que desconhecíamos em nós.
E, quando o mundo se tornar distante,
quando os encontros terminarem
e a maré novamente me trouxer à margem,
quero encontrar em mim
um lugar onde seja possível permanecer.
Quero aprender a estar sozinho
sem fazer da solidão uma sentença.
A reconhecer minhas ausências
sem procurar em cada presença
alguém que possa preenchê-las.
Sei que ainda haverá dias
em que desejarei fugir de mim.
Dias em que antigas feridas
voltarão a exigir atenção
e em que o passado parecerá
mais próximo do que realmente está.
Nesses dias,
quero me conceder a mesma delicadeza
que tantas vezes ofereci aos outros.
Sem a necessidade de respostas imediatas,
sem transformar cada recaída
em fracasso definitivo,
sem esperar que todas as minhas partes
estejam finalmente resolvidas
para me permitir viver.
É na intimidade do que fui
e na incerteza do que ainda serei
que continuo a me reconstruir.
