A arte de permanecer Algumas rachaduras... Daniel Avancini Araújo

A arte de permanecer


Algumas rachaduras permanecerão visíveis.
Outras talvez nunca recebam ouro.
E haverá fragmentos que já não encontrarão seu antigo lugar.


Ainda assim,
não preciso recuperar todas as partes
para reconhecer aquilo que permanece.


Talvez o verdadeiro pertencimento comece
quando já não preciso me abandonar
para caber na expectativa de alguém.


E talvez, um dia,
diante do meu próprio reflexo,
eu reconheça meu rosto,
ainda que não o compreenda por inteiro.


Sem procurar nele
a criança que deveria ter sido,
o homem que esperavam que eu fosse
ou a promessa de alguém
que ainda não me tornei.


Apenas eu.


Com tudo aquilo que fui,
o que consegui preservar
e o que ainda me permitirei descobrir.


E, pela primeira vez,
talvez eu não precise partir.