Habitar-se é um tipo de exílio... Daniel Avancini Araújo

Habitar-se é um tipo de exílio sagrado!


Minha infância era um espelho embaçado, onde ninguém parecia me reconhecer. E, por muito tempo, tampouco soube distinguir meu rosto daquilo que esperavam de mim.


Cresci tentando compreender por que o mundo parecia tão distante, por que havia tanto de mim que não encontrava lugar nos outros. Às vezes, sequer em mim mesmo.


Havia uma solidão que me acompanhava, mesmo quando eu não estava sozinho. Uma antiga sensação de desencontro, de estar presente sem necessariamente pertencer.


Ainda assim, sempre que alguém cruzava meu caminho, eu me doava inteiro, sem hesitar.


Entregava o que em mim era força, o que era luz, e até aquilo que eu sabia que me faria falta depois.


Amar, mesmo em ruínas, sempre me pareceu uma forma sincera de tocar a vida que tanto almejo.


E, por um instante, eu me permitia viver aquela realidade sonhada. A presença bastava, e o agora parecia conter tudo aquilo que eu havia esperado.


Mas, depois do inevitável “até logo”, a maré me devolvia à margem de mim.


Ali, onde já não havia ninguém a quem oferecer minha inteireza, eu reencontrava as partes que havia deixado para depois.


As ausências antes negligenciadas, os sentimentos que havia silenciado e as perguntas que permaneciam mesmo depois de todas as despedidas.


Tentava compreender, reconstruir, encontrar algum sentido naquilo que repetidas vezes me escapava.


Parecia inútil. Às vezes, era mesmo.


Houve dias em que viver foi apenas sobreviver. Dias em que a própria existência pesava e nenhuma explicação parecia suficiente para tornar a dor mais suportável.


Ainda assim, nunca deixei de desejar a vida por inteiro.


Ainda creio na beleza dos dias, embora nem sempre consiga encontrá-la. Houve dias que apenas aconteceram. E outros dos quais trouxe somente a consciência de ter conseguido atravessá-los.


Foi preciso tempo para compreender que nem toda dor traz um ensinamento e que minhas feridas não precisam de justificativas para merecer cuidado.


Penso, então, no kintsugi.


Na delicadeza de recolher os fragmentos, na paciência e na precisão de cada encaixe, no ouro que acompanha as rachaduras sem apagar as marcas da ruptura.


Por muito tempo, acreditei que precisava reparar tudo aquilo que havia se partido em mim. Que somente depois de inteiro poderia finalmente viver bem.


Hoje, acolho meus cacos com reverência.


Há partes que ainda compreendo pouco, outras que já não desejo recuperar. Há marcas que permanecem dolorosas e algumas que o tempo tornou familiares.


Nem todas precisam se transformar em beleza. Nem toda perda precisa encontrar um propósito. E nenhuma das minhas feridas, por mais profundas que sejam, contém a totalidade do que sou.


Há muito de mim que existia antes delas. Há muito que nasceu depois. E há, sobretudo, aquilo que ainda desconheço.