Ame mas Nao Seja Trouxa
Quanta distância houver
Melhor será o parâmetro
Pra aferir o que quer que seja
Tente ver o que está distante
E talvez o fato de não poder
Te faça enxergar melhor
Aquilo que está a um passo
No alcance do teu abraço
E você não abraça
Faça as suas contas
Eu sei que vai errar
Portanto
Guarde pra si a resposta
Quanto tempo na sua vida
Poderá durar um instante?
Quanta dor se pode e se deve viver
à guisa de amor?
Quantos metros de distância
Será que você precisa
Pra dizer que algo
Está longe ou perto?
Quantos lances na escada da vida
Seja pra baixo
Pode ser que pra cima
Pra poder ter ao seu alcance
Aquilo tudo, que você, sem ajuda
Tem poder de transformar em nada
Como descrever
Aquilo que se pensa ter visto
de longe e de relance?
Em qual parte do coração se esconde
Aquilo que se quer de verdade
E que causa tanta saudade
Quantos pedaços da vida abrange
E por que é que tanta gente
Tão esperta e tão inteligente
Foi deixar ficar assim
Tão longe?
Edson Ricardo Paiva
Chuva fina
A cara cinzenta do dia
Deseja a todos
Mais uma semana
de qualquer coisa que seja
Alegre ou triste
O dia começa igual a tarde
Parecendo que acaba e escurece
Sem nascer nem por de Sol
Apenas passa
Tão sem graça quanto a vida
Só isso
Chuva cinza
Como tem sido
Cinza e vazia
A cara de cada dia
Que tem nascido
Parece uma canção
Cuja melodia remete
A um tempo que há de nascer
Um tempo que promete
Ser tão cinza e tão frio
Tão vazio
Quanto tem sido
A própria vida
Dividida
Entre cinza e vazia
Embora também
Tenha sido bem fria
Mas isso ninguém viu
Pois já faz tempo demais
Que amanheceu
Chovendo assim
Edson Ricardo Paiva.
Tem dias
Que o dia amanhece
Com cara de urgente
Talvez seja porque
Durante o sono o coração se esqueça
Que não existem mais
Urgências na minha vida
Tem dias
Claramente a imensa maioria deles
Em que o dia amanhece
Sem cara de nada
Se cada sonho
Não me desse o privilégio de esquecer
Acho que eu iria desejar
Que nem mesmo amanhecesse
Mas a vida segue assim
O coração quase esquece
E o dia quase amanhece
Até que um dia
Alguma emergência qualquer
Impeça a tarde de anoitecer.
Edson Ricardo Paiva.
Creio que me seja preferível
Viver de saudade, talvez até
de insanidade, uma curta loucura de mentira
À viver as verdades que amanhecem com os dias
Eu acho que esse quotidiano mundano
É horrível demais, para vivê-lo assim
da maneira que ele me vem
Prefiro conversar com as almas do além
A gente vai falando sobre as coisas
que nos eram costumeiras
lealdade, coragem, galhardia e outras besteiras
bobagens que não fazem mais
parte deste infame dia a dia
em que impera a covardia
na triste realidade
Que os modernos amanheceres nos apresentam
Calço meus chinelos e vou ao quintal
até os voos mais inocentes
das transeuntes borboletas soam falsos
Elas dão-me a impressão
Que se esqueceram como se voa
e voam à toa um voo desajeitado
De inseto que não poliniza nada
Voa um voo meio que andando
de vez em quando vêm-me a impressão
Que ela está a ponto de pedir minha ajuda
A vantagem que vejo no inseto
é que ele voa mal, mas voa quieto
seu voo suicida de quem se autoatropela
Deus fez muito bem
Em fazer da borboleta
Uma criatura muda e bela
Que a vida venha desgrenhada
igual aos meus cabelos de menino
venha e seja difícil transpor
Qual fosse mata fechada
a gente passa um pente fino
e vai vivê-la
A gente se embrenha
pra poder conhecê-la
A gente vai descalço
sempre que hover espinhos
Onde não houver dificuldade
Eu crio uma
Sempre que eu vir espaço
conveniente para criá-la
Que minhas mãos se encham de calos
Que a vida venha
Só não quero passar por ela sem vivê-la
E que ela se vá um dia
do mesmo jeito que um dia veio
Não peço facilidades para mim
Quero apenas
que entre o início e o fim
Eu possa deixar algo ali no meio
Eu creio que o Céu seja assim,
Um lugar onde haja muito capim
Pra alimentar os cavalinhos que existirem
E maçãs bem vermelhinhas
ou verdinhas...todas maduras
As manhãs são todas belas
E à noite existem velas coloridas
Pra iluminar com cores
As aconchegantes noites escuras
As tristezas de antes
Se convertem em diamantes
As dores se traduzem em flores
E tem um barranco gramado
Com um papelão bem grandão
E o nome da gente escrito ao lado
Os anjos levam a gente pra escorregar lá
E brincam de gangorra com a gente
Na hora do almoço
Tem ervilhas e tremoços
E tantas maravilhas pra se ver
Que não dá pra descrever
Mas eu creio
que o melhor que Deus nos faz
É nos conceder uma certa paz
Que chega a dar pressa de estar lá
Tem horas que tudo que eu preciso
é somente rever alguns sorrisos
Que eu sei que hei de rever
Até lá...não tenho muita coisa pra dividir
Além dos poucos e bobos
Poemas que Deus me ajuda a escrever
e que eu sei que pouca gente lê
Mas Deus lê
Isso me deixa imensamente grato
Deus, se um dia eu for pro Céu
Me conceda a graça
de nunca mais usar sapatos
e me devolva as tão boas companhias
Que o Senhor havia me dado
Cá na Terra um dia.
"Seja qual for a sua missão neste mundo, faça com satisfação, gratidão e um sorriso no rosto. Um dia todo mundo se vai, não há remédio. O que a gente vai deixar pra sempre aqui, foi a maneira que viveu."
Por mais que eu seja visto
como incompreensível
Por este mundo complicado
Eu creio que vou morrer
Sem também compreendê-lo.
Por mais que cada gesto meu
Repleto de amor e desprendimento
seja, a cada dia mais
repelido somente com indiferença
Eu creio que vou morrer
Sem levar comigo qualquer sentimento
de vingança, ingratidão ou ofensa
Por mais que eu saiba
O quanto de tristeza vou sentir
Por distorcerem aquilo que eu digo
Simplesmente
Por não haverem prestado
A mínima ou a devida atenção
é a vida
Tudo isso me vem do coração
e eu não vou me calar
mesmo sabendo que eu digo
Em português
A quem só lê javanês
E mesmo que nada esteja igual
e eu esteja sempre
Nos fundos do quintal deste mundo
eu vou permanecer pra sempre lá
e tenho certeza
Que um dia haverão de me procurar
pra me dizer
Que finalmente a minha piada
inteligente e sem graça
realmente, anos mais tarde
Fez muita gente rir
Principalmente pelo fato
de eu não estar mais aqui.
Talvez seja verdade
Que eu e você sejamos
Apenas mais um
Apenas um, num Mundo cego
Ou, quem sabe
Eu não chegue nem ao menos
A Ser Um
Antes, Metade
Mesmo assim
Eu não me entrego
Pois eu sou Um
do qual se pode, realmente
Extrair tão somente a verdade
Não sou uma gota d'água na chuva
Uma areia na praia
Ou mais um Inseto na Terra
Eu sou mais uma Estrela
A brilhar no Infinito
Eu sou um Astro no Universo
E, mesmo que você
Pense o Inverso
Meus Versos são Escritos
Para ser lidos por Deus
E Ele Lê, tenho Certeza
Talvez, por isso
Você não enxergue a Beleza
Neles contida
É preciso saber
Enxergar muito além
das coisas que vão e vem
É preciso ver a Luz
Na Luz contida,
Que apesar de proeminente
Tem sempre o poder
de permanecer escondida
Para aqueles, cujos olhos
Só aprenderam a ver
As coisas
que vemos em vida.
Podia ter sido fácil
Mas nem tudo depende
da nossa vontade
Até que seja tarde em nossas vidas
Aliás
O Sol já por demais se pôs
E a cada dia mais mudo
Hoje mesmo o olhei
Até que sumisse de vista
Pensei no passado
Em cada conquista
Que podia ter sido tão fácil
Mas não dá pra eternizar
O momento ou lembrança
de cada abraço que se desfez
Agora cada passo
É sempre dado em direção oposta
Teria sido fácil
Mas tornou-se aposta
Insanidade insensata
Resta a ingrata missão
de saber e reconhecer
Que nem tudo depende
da nossa vontade
Há liberdade de escolha
E ao cair da última folha
Um grito lancinante de tristeza
de longe será ouvido
Diante da certeza
Que podia ter sido fácil
Mas aquilo que tanto queria
E podia ter sido fácil
Longe se vai
Deixando pra sempre o vazio
Que essa ausência traz
A felicidade já terá partido
Dessa vez pra nunca mais..
Edson Ricardo Paiva
A vida da gente
É um labirinto
Que pode ser que seja breve
E pode ser que o veja imenso
Mas é tudo ilusão
Penso que há
Quem tenha passado por ele
Na desenvoltura de um sonho leve
Há quem o apenas transforme
Numa enorme moldura de espelho
Sem noção do próprio orgulho
Pra ver a si mesmo perdido
A vida pode ser um Céu
Repleto de ventos mornos
Carregado de estrelas brilhantes
Pode ser um jornal que se lê
Simplesmente um tribunal
Repleto de juízes, cadafalsos
Um estábulo, um patíbulo
e acusações sem perdão
Ou então pode ser que seja
Um lindo jardim florido, onde há Sol.
Um pasto de capim a ser comido
Uma cama sem lençol
Um bornal de mau-caratismo
Um abrigo, um abísmo
Um vasto caminho
Onde estamos todos perdidos
Eu, buscando alguma saída
Enquanto a minha própria vida
Simplesmente espera por mim
Porém, num ver mais profundo
Ninguém vive mais que uma vida
A vida é vivida no mundo
O mundo uma estrada
A estrada uma esfera
A vida é uma espera
Onde nada, absolutamente nada
Um dia não chegue ao fim.
Edson Ricardo Paiva
Eu peço ao dia de hoje
Que ele esteja vivo
E seja livre como o pássaro
Que fugiu quando eu abri a porta
E que se a vida pudesse
Ser ao menos boa
e deliberadamente linda
Qual canto do grilo
Cantando pra Lua
Antes que finde a madrugada
E que a Lua empalideça
Grilada dos pés à cabeça
Carente daquela beleza
Que mata a gente de saudade
Mas que à luz da verdade
O morrer por saudade
Nâo seja morte que vem à toa
E quando a chuva cair
Ela jamais impeça
Que a gente peça ao dia
A presença
do pássaro que voa
Nem das flores
Que a chuva planta
Na beira das estradas
Que se percorre
durante o correr da vida
E se a vida puder ser assim
Não peço ao dia mais nada.
Edson Ricardo Paiva.
"Vale o escrito
Desde que tal ato
A ninguém seja dito
E assim segue a vida
Mesmo que ninguém saiba pra onde
E no fim se descobre
Que o maior alívio é viver sem motivo
Evitando o desconforto
De saber-se vivo
Apesar de morto"
Edson Ricardo Paiva.
De vez em quando
Ainda dá tempo
Escreva mais uma página
Que seja diferente
De tudo que se imagina
Pois vai ser
Você pensa saber viver
Mas ainda não é capaz
De fazer melhor do que a vida
Pode lançar
Um último olhar de gratidão
À página arrancada
Na voz interior
O destino presente
Semana passada
Está feito
E tem sido assim
O pretérito imperfeito
Te desaconselha
A gente não precisa crer
Mas é tão bom acreditar!
Cedo entardece nas nossas vidas
Enquanto se avermelha esse horizonte
À luz do final do dia
Tem sido bem diferente
E de tão diferente
Tem parecido ser
Tão igual, de repente
E é assim que será pra sempre.
Edson Ricardo Paiva.
Quem sabe
Se olhar pra frente
Pode ser
Que só o presente
Amanhã seja passado
Quem sabe
Se olhar pros lados
No meio da madrugada
E num beco escuro
Perceba que só agora
Eu me sinto seguro
Fui criado à beira
De uma vila chamada loucura
Minha casa ficava na esquina
Da rua impossível, com a difícil
Foi difícil, mas saí de lá
Quem sabe
Se olhar pra baixo
E caminhar depressa
Nessa fria madrugada
Eu ache a solução da diferença
Entre vida e tristeza
Quando a vida inexiste
Tristeza é voz perdida
Vaga-lume, precipício
A parte mais difícil
Se esquecer como se faz
E eu quero paz
Quem sabe
O olhar pra cima
A chuva fina
Me perdoe
Pra que eu possa prosseguir
Perdido
E descansar os pés
Lá na praça do passo esquecido
Onde eu queira
Finalmente olhar
Pra dentro da minha alma
Quem sabe, pode ser até
Eu escute o som das palmas
Aplausos que se escuta
Quando a gente finalmente aceita
Que de fato perdeu a luta.
Edson Ricardo Paiva.
Hoje, surge meio que atalhado
Creio que seja esse meu jeito
Esse jeito meio que imperfeito
De olhar sempre de lado
Para as coisas do horizonte
Surge um Sol minguante, meio alaranjado
Emerge uma luz meio apagada
Iluminando meio que quase nada
Na fresta por entre as telhas
Restando um pouquinho pra cada telhado
Era o ventre do mundo, era uma luzinha assim...de nada
Reflete no espelho, me olhando de esguelha
Repetindo a imagem de alguém que hoje sou
Mas que ontem não era eu
Esse é algo que eu resgatei
Antes que se perdesse por completo
Pode ser que seja ainda alguém
Quem sabe ainda tenha uma alma
Eu sei que, ao caminhar na chuva, se molha
E, que ao pisar na folha, chega quase a barulhar
Mas elas farfalham também ao vento
Quem sabe todos nós, sejamos folhas que arremedam gentes
Hoje, surgiu meio que atalhado, o Sol
E eu olhei-o meio de soslaio
Percebi como sou diferente das folhas
As folhas são filhas de Deus e se quedam
Eu caio.
Edson Ricardo Paiva.
Pra que eu seja o autor da minha vida
E se a vida fosse o meu almoço, que eu preciso preparar
Como se eu tivesse uma panela de barro e só
Um jarro de água, apenas
E muita paciência, em pequenas porções
Viver qual se fosse um pássaro, um velho passarinho
Asas cansadas
Nada além de um breve canto
Um leve pranto
Nada de longas canções
Um fino fio de luz de lua
Talvez um tanto mais tênue
Luz de estrela, que eu, na minha ingenuidade
Nem perceberia a diferença ou quem me deu
Pra que seja eu, autor da minha história
Preciso lidar com a dor, a saudade
e o cansaço, em pequenas porções
E em grandes manhãs frientas
Friorentas margens de rios
Saber ser só, nas solidões que a vida traz
E fazer disso sempre o meu melhor
Jamais, jamais permitir
Que o jarro se quebre
Que a luz se apague
Que um dia vazio se torne em vida vazia
Ou que a dor e o cansaço me entreguem
Me vençam, carreguem
Sem que tenha sido eu
O autor de toda essa balbúrdia.
Edson Ricardo Paiva.
Sorrir
De vez em quando
Permitir que o mundo veja
Mas, que seja perene
O que fica no ar
Chorar
e, às vezes permitir a crença
Mas é certo que fica
Entre mim e o criador
O que me vai no coração
E que seja a vida poesia
Que poderá ser lida hoje
Como um mero poema sem rima
Que vinha e que não veio
E deixou oculta a linha
Porque foi preciso
Um pranto ou sorriso
Detrás da armadura
Uma mistura
De malícia com doçura
Porque assim o mundo exige
A beleza da poesia
Pode ser que outro dia
A quem mereça
A luz que vem de longe
Há muito se apagou
A estrela finge.
Edson Ricardo Paiva.
É tudo ilusão.
Tristeza
Seja ela qual for
É como as nuvens do céu
Pássaros em revoada
As estações
Uma alegria que se foi
Quando ela vai
Manhãs, felizes por amanhecer
Entardeceres lilases
Chegando ao ponto de esquecer
Num mero instante eles se dissiparam
A despertar de um sonho
A vida segue adiante
No tropel da cavalgada
Existência, uma quimera
Camada por camada
Ela foi sendo desfolhada
De cinzel na mão
Seguimos sós, pungindo a vida
Éramos nós, sem tomar tento
Vazando pela tangente
Não há cuidado e nem talento
Ferro quente em fogo brando
Lá se vão no vento os dias
Eu fico me dizendo
Creio que não foi perdida
A vida, o bom da vida
Vejo que, em contrapartida
Pode ser, ter sido a vida a ter perdido
O que havia de melhor em mim
Não existem grandezas
Tudo é fantasia
Tristeza
Seja ela qual for
É como as águas de um rio
A canção perdida nos ares
Melodia esquecida, que tanto sentido fazia
Noutros dias
O vento por entre as folhas
Tudo se vai na ilusão
Como cada um que vai
Moldando a própria vida
Cada forma escolhida
Tristeza, seja ela qual for
É somente uma grande alegria
Que foi tomando forma
A cada investida
Nada fica
O que existe em nossas mãos
Martelo e cinzel
É só o tempo presente
Nunca ouvi da voz da vida
Que havia urgência ou precisão
E, mesmo ela sendo ilusão
Eu procuro estar atento à direção.
Edson Ricardo Paiva.
Respeito Próprio.
Por respeito a si mesmo
Dias haverá
Que te seja necessário
Permitir aos teus olhos
Ver o ouro
Mas que esse não reluza
Permitir aos teus sentidos
Saber que o vento sopra
E não ouvir o farfalhar das folhas
Abandonar a condição humana
Não amar, em amor próprio
Por amar-se em primeiro lugar
e não mais apegar-se a nada
por honrar a vida
Deixar-se ficar
e, não mais permanecer
Saber o escuro da noite
O brilhar das estrelas
O canto dos grilos
Compreender aquilo que não te cabe
e o que te cabe também
Mas apenas calar-se num pranto
Calar-se por respeitar-se
E deixar que as águas fluam
Sem jamais delas beber
Belas serão as paisagens
Das janelas, das sacadas
Belas sem as querer
Mantenha tuas portas fechadas
Tua mente calada
Gosta antes de ti mesmo
Por respeito próprio
Sê tu teu universo.
Edson Ricardo Paiva.
