Ame mas Nao Seja Trouxa
Viver talvez não seja derrotar o absurdo, mas recusá-lo como argumento suficiente para desistir da existência.
A razão não precisa declarar guerra ao mistério; precisa apenas impedir que o mistério seja usado como licença para afirmar qualquer coisa.
Levar a vida excessivamente a sério talvez seja a forma mais sofisticada de não perceber que ela está passando.
Talvez a maior conquista da razão não seja descobrir respostas, mas impedir que homens armados de certezas transformem dúvidas em crimes.
O maior perigo para a liberdade talvez não seja o tirano que proíbe, mas a multidão que exige proibições em nome da própria virtude.
Reconhecer os limites do conhecimento não diminui a razão; impede que a ignorância seja disfarçada de certeza.
A liberdade política exige que o cidadão não seja apenas destinatário das leis, mas parte da comunidade que participa de sua formação e reconhece nelas uma expressão da vontade coletiva.
Talvez Deus seja uma resposta; talvez seja a pergunta que a humanidade ainda não aprendeu a formular.
O último território da liberdade talvez não seja o mundo, mas aquilo que ainda conseguimos pensar sem autorização.
Talvez a questão mais importante sobre aquilo que não identificamos no céu não seja o que está lá, mas quem possui o direito de decidir o que podemos saber sobre isso.
Talvez a solidão do século XXI não seja estar sozinho, mas possuir milhares de interlocutores sem encontrar uma única consciência diante da qual seja possível abandonar a própria máscara.
O maior mistério do universo talvez não seja saber se estamos sozinhos, mas saber por que existimos.
A maior forma de liberdade talvez seja não permitir que terceiros detenham jurisdição sobre nossa consciência.
Aquilo que chamamos de realidade talvez seja apenas o nome provisório que damos ao que ainda não conseguimos interpretar.
O absoluto talvez não seja aquilo que sabemos, mas aquilo que permanece maior do que tudo aquilo que sabemos.
Talvez o universo não tenha um primeiro instante; talvez seja a nossa consciência, aprisionada ao tempo, que transforma a eternidade em uma sequência de acontecimentos.
Talvez a pergunta mais filosófica não seja ‘quem criou o universo?’, mas ‘por que nossa razão sente necessidade de que exista alguém ou algo que o tenha criado?
A verdadeira autonomia não proclama guerra contra o amor; apenas recusa que o amor seja transformado em argumento contra a liberdade.
