25 anos
Nem toda conexão precisa de anos para ser verdadeira.
Algumas conexões são imediatas,
e são eternas dentro do tempo que duram
Em 2 anos não fiquei velho. Fiquei casca: dor me cortou, fé me costurou, esperança me assinou: Pauleremonopsicofilosofante. E hoje: um eremonopsicofilosofante.
"Há alguns anos atrás comecei a escrever em silêncio aquilo que minha alma já gritava há tempos. Entre versos soltos e sentimentos profundos , descobri que cada palavra carregava pedaços de mim, dores amores, cicatrizes e renascimento. Escrevi não para ser compreendida por todos, mas para não me perder de mim mesma. Porque há sentimentos que transbordam tanto, que só encontram paz quando se tornam poesia. E foi assim... Nas entrelinhas da saudade, na força das minhas verdades e na intensidade do meu coração, que transformei emoção em arte."
jordeane lemes
QUEM SÃO?
Há muitos e muitos anos, um poeta revoltado
Escreveu Navio Negreiro, pois estava indignado
Com o povo que emprestava a bandeira para cobrir
A infâmia e a covardia que se viam por aqui!
E no palco da cidade, ao som do toque do tambor
Ouvia-se o poeta clamando ao Nosso Senhor:
“Senhor Deus dos desgraçados!
dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura...ou se é verdade,
tanto horror perante os céus?!”
Quem são estes miseráveis sem acesso a habitação?
Nas praças, sob as marquises
Buscam no lixo seu pão
Quem são? E de onde vieram?
Quem são? E por que miseram?
Quem são? E o que fizeram
Para tal condenação?
Quem são estes que, transportados, piores do que gados, vão?
Subempregados, suburbanos, exaustos na condução
Sem ter moradia digna, nem acesso à educação
Sem saneamento básico, com parca alimentação
Quem são estes cidadãos?
Quem são? Quem são? Quem são?
Tantos anos se passaram, mas tão pouca evolução
Ainda se usa a bandeira para encobrir a inação!
E no centro da cidade, ao som do toque do tambor
Ressoa a voz do poeta, clamando ao Nosso Senhor:
“Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se eu deliro...ou se é verdade,
tanto horror perante os céus?!”
Os anos passam
e quando penso que já me formatei, percebo que preciso continuar me esculpindo para caber dentro das surpresas que aparecem. Seria muito mais fácil se minha mente e coração fossem de pedra…
Ninguém é capaz de parar os anos, mas consegue parar de envelhecer quando mantém viva a criança que existe em si.
O Inventário do Tempo
Trinta e sete anos é o tempo exato que a memória leva
para transformar o luto em monumento. As décadas passaram
como forças erosivas, mas falharam em desgastar o essencial:
o incêndio absoluto dos teus cabelos ruivos e a lucidez
cortante dos teus olhos verdes que desafiam o esquecimento.
Para quem vive da arquitetura das palavras, a tua ausência
não é um vazio abstrato, mas uma presença muito concreta,
uma matéria densa que molda o contorno de tudo o que escrevo.
O tempo limpou o excesso e o sentimentalismo ruidoso do peito,
deixando apenas a estrutura firme daquilo que nunca morre.
O que resta hoje é uma sobriedade clássica e definitiva,
a crônica de uma partida que fixou a tua imagem na eternidade.
Tuas cores vivas não desbotaram com o avanço dos invernos;
permanecem salvas da decadência dos anos pelo registro exato,
gravadas para sempre na folha em branco através da narrativa.
O mundo seguiu o seu curso perecível, confuso e esquecido.
Aqui, contudo, a tua existência permanece totalmente intacta,
guardada com zelo no ponto mais alto e frio da minha história.
Testemunha do tempo e também o guardião dessa eterna memória,
deixo registrado o fato que o destino jamais apagará.
AnjoPoeta
Sou o encontro de passado e presente
uma história que se enlaça
em tantas outras vidas
são anos de aprendizado,
de gente querida
de momentos bons
e outros nem tão presentes
Mas em mim está a força
de seguir em frente
a certeza de que a vida
é mesmo uma partida
e que cada passo dado
nos leva a outra vida
q ue o tempo é gigante
e ao mesmo tempo tão carente
Eu sou um livro aberto,
folhas amareladas pelo tempo
mas ainda trago em mim
a esperança e o sentimento
de que é possível criar
um mundo melhor
E assim vou caminhando,
entre o passado e o agora
tão vasta é minha jornada,
tão grande é o meu tesouro
sou o tempo que persiste
e que não tem borda nem sabor.
Se eu fosse falar a verdade
Talvez você se comovesse.
Perdi meu pai aos onze anos — e com ele, o lar.
A casa deixou de ser abrigo, tornou-se lembrança.
O conforto e a segurança que uma infância promete
se desmancharam na poeira do tempo.
A vida se desenrolou como um fio invisível
que eu apenas seguia, sem saber aonde levava.
Mas não escrevo para comover ninguém.
Sou um homem realizado no pouco que premeditei:
ser poeta — não por escolha, mas por destino.
Desde menino, tive uma clarividência silenciosa
sobre o que viria a ser.
Uma voz interior me dizia
que havia um mandato das alturas:
cantar, mesmo que o canto fosse triste;
dar forma ao invisível;
soprar o fio de Ariadne
que me conduziria pelo labirinto da vida.
Entre fragmentos e quedas,
fui forjado por dores que não escolhi.
E nelas, descobri a necessidade inevitável
de escrever — sempre com lágrimas,
sempre com o sangue secreto da alma.
Não havia mapa, só o instinto e a necessidade.
E foi nas escolhas, muitas vezes cegas,
que aprendi a me reconhecer.
Hoje compreendo que minha existência,
apesar de comum, sempre esteve repleta de sentido:
era o ensaio do homem que eu me tornaria —
um ser moldado pela perda,
mas iluminado pela busca.
A Canção em Valparaíso
Eu tinha vinte e seis anos e usava um anel que não significava nada.
Nem amor.
Nem compromisso.
Apenas hábito.
Tocava piano em um bar pequeno, escondido nas encostas de Valparaíso — um lugar onde os telhados se inclinavam em direção ao mar e as noites carregavam cheiro de sal, vinho barato e vidas inacabadas. O piano era meu altar. A noite, minha cúmplice.
Já havia estado ali antes, visitando um amigo — músico, livre de um jeito que eu não era. Ele morava com o irmão numa casa que sempre cheirava a pão quente e conversas silenciosas.
Foi ali que a vi.
Helena.
Cabelos escuros. Olhos que não olhavam — atravessavam. Tinha dezoito anos, mas nada nela era inacabado. Havia um fogo contido em seus gestos, como se soubesse exatamente o que podia causar — e escolhesse quando.
Já tínhamos nos cruzado antes.
Um almoço.
Um olhar sustentado um segundo a mais.
Nada além disso.
Mas naquela noite, dividíamos o mesmo espaço. O mesmo silêncio.
Então toquei.
Uma canção que raramente me permitia — uma das poucas que eu podia executar sem me esconder. Não toquei para o ambiente. Toquei porque algo em mim precisava ser ouvido.
As pessoas falavam. Copos se moviam. A noite seguia.
Ela não.
Deu um passo à frente.
Não o suficiente para chamar atenção.
Apenas o bastante para escutar.
Quando a música terminou, não houve aplausos.
Apenas um sorriso pequeno — inteiro, definitivo.
E aquilo bastou.
A casa foi se esvaziando devagar, como todas as noites fazem.
Corpos desapareceram em colchões e cobertores improvisados. As conversas se dissolveram em respiração. As luzes se apagaram sem cerimônia.
Ficamos.
Uma televisão acesa ao fundo mostrava algo que nenhum de nós via.
No começo, nada.
Um ombro tocando o outro.
Uma pausa longa demais.
Então ela virou o rosto.
Sem perguntar.
Sem hesitar.
Permitindo.
O beijo veio sem negociação.
Não havia inocência ali —
mas também não havia culpa.
Apenas reconhecimento.
Não fomos para um quarto.
Não houve necessidade de distância, preparo ou significado.
Ficamos ali mesmo — entre almofadas, entre horas — dentro desse território frágil onde o desejo se torna imediato e a linguagem deixa de ser necessária.
Foi intenso.
Não por ser selvagem.
Mas por ser certo.
Há noites que acontecem.
E há noites que decidem algo.
Essa decidiu.
De manhã, não havia nada a dizer.
Nenhuma promessa. Nenhuma pergunta. Nenhuma ilusão de continuidade.
Ela se vestiu em silêncio.
Eu não pedi que ficasse.
Ela não fingiu que ficaria.
E talvez essa tenha sido a única verdade que fomos capazes de oferecer um ao outro.
Para ela, pode ter sido curiosidade.
Um instante.
Um desvio.
Para mim, foi outra coisa.
Não amor.
Nem memória.
Reconhecimento.
O momento em que entendi que aquilo que eu carregava — nas mãos, na voz — podia alcançar alguém além da superfície.
Que, por um breve instante, eu não estava apenas tocando.
Eu estava sendo sentido.
Às vezes, quando toco aquela mesma canção — com o mesmo cuidado, a mesma precisão silenciosa — não lembro do rosto dela.
Nem do corpo.
Nem da voz.
Lembro de outra coisa.
Do exato instante em que me tornei inesquecível
na vida de alguém que nunca ficou.
Uma pessoa jovem que entre no mercado de trabalho a partir dos anos 2000... quase não tem qualquer hipótese de trabalhar para a mesma empresa nem uma década. Neste mundo as pessoas têm que tomar a responsabilidade pelos seus próprios futuros. Não podem simplesmente contar com a subida numa escada de carreira.
Sem te ver eu mim apaixonei ao te conhecer eu te amei, vivi 24 anos sem você hoje não passo um dia sem te querer.
A.K
Hoje a nossa bela flor faz anos
parabéns minha linda e amada filha
que olhes sempre para o futuro com otimismo
com essa alegria contagiante que tens
pois ninguém consegue ficar triste ao teu lado
tu és um um raio de sol que ilumina a nossa vida
Parabéns e felicidades meu amor.
Um dos meus maiores desejos ao entrar na psicoterapia era descobrir quem eu era. Após cinco anos me deparo com o mesmo questionamento. Me deparo com o mesmo questionamento mas, o que mudou, foi o espanto da descoberta. Se segue assim, no inicio: o mundo. Logo depois vem a ideia: associação livre. Quando a apreendi, nunca mais parei. Meu inconsciente não se segurava mais. Ainda o seguro. Estava prestes a descrever uma série de etapas que se seguem quando se quer seguir etapas afim de obter uma máxima quando percebi que, depois da associação livre, me perdi. Descobri tantos novos caminhos. Poderia falar da série de fragrâncias com cheiros exóticos que descobri: sangue, plástico, pele, iodo. Não, não era isso o que queria dizer. O que quero dizer é que: aprendi a gostar de fragrâncias! Lembro de quando era pequeno, ia ao mercado central da cidade. La encontra-se de tudo: Galinha, pombo, cobra, rato, queijo, tempero, goiabada. Tudo isso misturado me gerava uma extrema náusea - odor fétido. O estranho que, depois de organizado, se tornou cheiro. Sei que, quando criança não era capaz de distinguir todos os odores, acabava misturando tudo em uma coisa só. E ai vinha um odor fétido - que não pode nem ser chamado de cheiro. Ah.. as produções humanas. Todas sempre me fascinaram assim como seus criadores. Gosto mesmo é de pegar um pensamento e escamá-lo. Moldá-lo. Emaranhar-me em sua elasticidade, tocá-lo de dentro para fora a tornar visível externamente o relevo de meu toque sob a superficie. Depois quero virá-lo do avesso. Durante o processo, caso o locutor se perca assim como perde-se entrando em uma rua desconhecida, seu corpo é passível de acomodar-se entrando em sincronia invertida, descompasso de onda - pulsar, assim como se faz o coração: Tu dum. Percebe, entre o _Tu_ e o _Dum_ existe um espaço, eles não são no mesmo tempo mas também não são espaços iguais em tempos diferentes. Uma vez li que a diferença de um pulsar para o outro indica a capacidade do ser vivo de se adaptar e permanecer vivo em meio as mudanças. Quem diria que, através do coração se pudesse saber da mente. Milênios que separam a mente do coração. Nunca pensamos na possibilidade de serem um sistema conjunto. Meu coração bate, minha mente age. As vezes minha mente bate de frente, mas meu coração não mente: age! Não é todo dia que isso acontece, mas quando acontece, sinto que posso enfrentar o mundo: A brisa do amanhã oferece, ao encontrar-me em meu caminhar, um suspiro aldeídico de esperança - movo-me, ajo! Os dias ordinários continuam, o que muda é a lente ocular. Foi tarde que descobri a possibilidade de troca. Claro, está muito abstrato. Amiúde, quando lhe desabrocharem as graças, troque-as. A mudança exige um certo tipo de expertise. Esteja disposto a encontrá-la e aprimorá-la, afinal, ninguém anda por ai com os óculos sujos. Mas chega de falar de óculos até porque, não faço uso. As vezes não enxergo. Não por falta de luz. Não enxergo à luz do dia! Não como Diógenes. Não enxergo pois estou tão entranhando em uma linha de pensamento que, as vezes esqueço de processar as imagens que estão sendo recebidas e processadas. Deixo esse processamento em Stand-by. Ah como seria bom se pudéssemos levar as coisas mais no stand-by. Logo sinto um calafrio, assusto, começo imediatamente a ação mecânica de analisar e categorizar toda luz que entra nesse cano que chamo de olhos. Não sei, poderia falar mais quanto quisesse. Não estou falando! Me dispus de um tão mais renomado trabalho, o da seleção de palavras para dizer - mas dizer o que se não falo nada? A diferença entre dizer e falar é da mesma natureza ontológica entre hear e listen, no inglês. Seguimos com o exemplo:
Can anyone hear me?
Alguém pode me ouvir?
Curiosamente podemos escrever e traduzir:
Are you listening to me?
Você esta me ouvindo?
Percebe? O emprego de duas palavras, em inglês, distintas se deu em uma tradução, em português, idênticas.
A diferença esta no afeto. Há sim! As palavras afetam. Primeiro: Nossas cordas vocais geram ondas físicas que são percebidas por partes do nosso aparelho auditivo que separam e, com a ajuda do cérebro organizam o som para nosso entendimento. Ufa...! Não só isso, estava prestes a dizer o modo que a diferença ontológica entre hear e listen se dá: Hear é vago, pense, podes ouvir um ruido na rua de um carro. O som se torna tão insignificante que sei bem que mal percebeu. Agora, acredito que, ao primeiro contato da onda do som de um homem aos berros aos seus tímpanos, o interesse florescerá e a atenção será furtada de modo tão sutil como o da arte dos batedores de carteira. Define-se essa diferença ontológica através da atenção do ser que se coloca naquilo. Quando se fala, se pode falar qualquer coisa, minha mãe dizia: Até papagaio fala! Mas quando se diz, deposita-se a verdade da existência de si ao que está sendo proferido: Quando digo Digo, digo Digo, não digo Diogo. Quando digo Diogo, digo Diogo, não digo Digo. Na maioria do tempo estamos falando - ah, e como falamos! Mas quando queremos dizer algo, em inglês diríamos: _I mean it_. Em tradução literal: Eu significo isso. Em tradução livre: quero dizer. A palavra interpola entre a ideia e o ser da coisa, o sentido. Nem sempre funciona muito bem, mas pra isso, temos as outras artes. Claro, como exprimir os infinitos pensamentos do ser humanos nas palavras? Delas, faço de instrumento. E, nessa repetição mecanicamente instrumental que é falar, um dia, disse. Disse: Não quero ser! Mal sabia o que era, mas, o que era, não me dizia mais. Mal sabia se era, mas se o era não queria mais o ser. Quero ser! Mas o que ser? Não sei, quero ser, não importa o que ser, além do mais, passei a achar o ser em seu singular muito tedioso. Quem é, é! Não há de ser outra coisa. Se a maçã é vermelha é porque é! A não ser que seja maçã verde - não é. Nunca vi uma maçã cor de rosa.
E se um dia eu, como maçã, não querer mais ser vermelha? A quem devo à suplica de meu ser? Pergunto pois, no mesmo instante rogarei: quero ser cor de rosa! E se o Deus das maçãs escutar as minhas preces, ficarei feliz ao saber que, ao mínimo pigmento que cobre a superfície lisa e brilhante de meu ser, fui inventada enquanto maçã. Bom, é da palavra que tenho então hei de usá-la! Usarei-a sem sentido dessa vez: Biboca, Pimpolho, coração de neném, cão, gato, sapato, amianto, aparelho, internato. Proponho um desafio, já propus o dizer - e o falar - bem como o escutar - e o ouvir. Agora peço que, escute o que vou lhe escrever. Não. Não. Melhor. Escute as palavras. Não! Não! Melhor! Se escute as palavras que tenho a lhe dizer:
Biboca, Pimpolho. Coração de Neném. Cão, gato, sapato, amianto, aparelho. Internato!
Se pões atenção ao que se ouve, creio que tenha sacado de inicio o rimar das palavras antes mesmo de eu as dividir na ordem que devem ser faladas. Aqui _faladas_ pois aqui o que importa é seu som, não seu sentido. Repita mecanicamente e verá que criou-se do que se imaginava não ter serventia alguma, a mecanização instrumental de falar as palavras, uma rima! Usai-vos os sentidos! Acredito que a ideia acerca da existência de sentido quando a palavra falta tenha se lançado a luz da dúvida aos instrumentalistas de plantão. Repito: Para isso temos outras artes. Se o que tenho é a palavra, hei de usá-la. Desta vez, usarei-a com sentido: preciso ilustrar uma imagem que ganhe sentido através da palavra: eis o ser. Sendo assim, comecei a falar dizendo. Sempre que falo, digo! Sempre que digo, digo de mim. Por ai, digo que escuto o que dizem de mim e assim, sou sendo.
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