Vontade de te ver nem que Seja de longe
A ciência não precisa matar o mistério; basta impedir que o mistério seja falsificado como conhecimento.
Talvez seja preciso morrer algumas vezes por dentro para entender que viver também é deixar para trás quem já não somos.
Talvez o amor seja uma de nossas escolhas mais arbitrárias: encontramos uma pessoa entre milhões e damos ao acaso o nome de destino.
Talvez a maior rebeldia intelectual não seja destruir os valores, mas submetê-los ao tribunal de sua própria genealogia.
A inteligência humana talvez não seja medida pelo número de respostas que possui, mas pela quantidade de perguntas que consegue preservar sem mutilá-las.
Talvez a mais honesta frase diante do universo seja também a mais difícil: não sabemos, e continuaremos investigando.
A religião frequentemente promete respostas onde a filosofia encontrou perguntas, e talvez seja precisamente essa diferença que explique sua força.
O homem procura sentido no universo porque talvez seja incapaz de aceitar que o universo não tenha sido escrito especialmente para ele.
Talvez o mais silencioso dos naufrágios seja perder a própria identidade enquanto se aprende, pouco a pouco, a representar aquilo que o mundo espera de nós.
A felicidade talvez seja uma porta que só se abre quando deixamos de arrombá-la; há destinos que recuam justamente diante daqueles que tentam possuí-los à força.
O contrário do pecado talvez não seja a perfeição moral, mas a coragem de acreditar que a existência pode ser vivida para além daquilo que nossos próprios limites conseguem demonstrar.
O homem talvez não seja senhor do ser, mas seu mais inquieto guardião, condenado a escutar aquilo que jamais consegue possuir.
Talvez o primeiro problema da filosofia seja descobrir se a vida merece ser abandonada antes que tenhamos compreendido por que desejamos abandoná-la.
Viver talvez não seja derrotar o absurdo, mas recusá-lo como argumento suficiente para desistir da existência.
Filosofar talvez seja aprender a contemplar a morte sem permitir que ela transforme a vida em mera antecipação do fim.
Existir é estar em relação; talvez o isolamento absoluto seja apenas outra maneira de começar a desaparecer.
A razão não precisa declarar guerra ao mistério; precisa apenas impedir que o mistério seja usado como licença para afirmar qualquer coisa.
Talvez a verdadeira liberdade intelectual seja esta: poder acreditar sem precisar fingir que acredita saber.
Levar a vida excessivamente a sério talvez seja a forma mais sofisticada de não perceber que ela está passando.
