Voce foi meu Pecado
O consentimento perde densidade quando a arquitetura da escolha foi construída para tornar previsível a resposta.
Uma lei não se torna cientificamente verdadeira porque foi aprovada pelo Parlamento; uma hipótese não se torna juridicamente obrigatória porque foi publicada em uma revista científica.
Quanto mais conhecemos o mundo, mais difícil fica acreditar que ele foi desenhado especificamente para nossa satisfação.
O homem não foi lançado ao mundo apenas para contemplá-lo, mas para agir dentro dele e responder pelas consequências de seus atos.
Quase toda tirania começa pedindo uma exceção e termina explicando por que a exceção sempre foi necessária.
Nenhuma afirmação merece o estatuto de verdade apenas porque foi repetida, ensinada ou aceita; antes da certeza deve existir o exame da razão.
O verdadeiro triunfo do Iluminismo não foi retirar Deus do céu, mas impedir que qualquer homem falasse em Seu nome para silenciar outro.
Nenhuma lei é verdade apenas porque foi escrita; sua legitimidade começa quando pode sobreviver ao tribunal da razão.
Um fenômeno não identificado não pertence ao segredo apenas porque foi observado por instituições militares.
O Iluminismo foi um dos mais poderosos movimentos intelectuais da história, por transformar a razão crítica em princípio de investigação do conhecimento, da sociedade, do Estado e da própria condição humana.
O Iluminismo não foi necessariamente o movimento que produziu as ideias mais complexas da história, mas foi um dos que mais sistematicamente transformaram a razão crítica em projeto de reorganização da vida humana.
O ser humano constrói instituições para organizar a realidade e, às vezes, esquece que foi ele próprio quem lhes concedeu autoridade.
Elegia para Quem Esqueceu o Caminho
Perdeste-te…
Não foi na curva de uma estrada,
nem no desvio de um destino qualquer.
Perdeste-te onde a esperança já não envia socorro,
onde até o silêncio desiste de chamar pelo teu nome.
Habitaste uma mente em guerra,
um céu permanentemente coberto por tempestades,
onde a revolta fez morada,
o orgulho ergueu muralhas,
e a lucidez partiu sem se despedir.
Os teus ouvidos permaneceram atentos,
mas apenas às vozes errantes,
aos ecos daqueles que também caminham às cegas,
como náufragos convencidos
de que o horizonte pertence ao mar
e não à coragem de remar.
Fizeste das pressas uma religião,
das decisões impulsivas um altar,
e sacrificaste a verdade
em nome de promessas que nunca tiveram raiz.
Quiseste resgate,
mas nunca aprendeste a ajoelhar diante da humildade.
Quiseste respeito,
mas esqueceste que o caráter
não se veste como uma roupa de ocasião.
Constrói-se.
Sustenta-se.
Honra-se.
Vi-te entregar as cordas da tua própria vida
às mãos de quem nem sequer sabia
desatar os nós da própria existência.
Marionetas a conduzir marionetas.
Cegos a desenhar mapas.
Almas vazias a ensinar o significado da plenitude.
E assim foste caminhando,
cada passo mais distante de ti,
até deixares de reconhecer
o reflexo que o espelho, por compaixão,
ainda insistia em devolver.
Hoje parto.
Sem ódio.
Porque o ódio aprisiona.
Sem vingança.
Porque ela alimenta apenas quem já morreu por dentro.
Parto com a serenidade
de quem compreendeu que nem todas as batalhas
merecem ser vencidas,
e que algumas despedidas
são a mais pura forma de renascimento.
Não olharei para trás.
As águas passadas não movem moinhos;
apenas alimentam rios
que seguem o seu curso
sem pedir licença à saudade.
Deixo para trás o peso das ilusões,
o cheiro amargo das promessas quebradas,
as noites onde a verdade sufocava
sob o perfume enganador das aparências.
Levo comigo apenas o que o tempo não conseguiu roubar:
a consciência tranquila,
a dignidade intacta,
a paz de quem escolheu caminhar sozinho
em vez de permanecer perdido na multidão.
E se algum dia o destino voltar a cruzar os nossos passos,
que seja apenas para te mostrar
que havia, afinal, um caminho.
Mas esse caminho
nunca começou nos outros.
Sempre começou dentro de ti.
Adeus.
Que a vida te ensine
o que as palavras nunca conseguiram.
Que o tempo te devolva
a bússola que abandonaste.
E que um dia descubras
que a maior perda de um ser humano
não é perder alguém…
É perder-se de si mesmo.
Hassamo Abdurrahimo
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