Elegia para Quem Esqueceu o Caminho... Hassamo Abdurrahimo
Elegia para Quem Esqueceu o Caminho
Perdeste-te…
Não foi na curva de uma estrada,
nem no desvio de um destino qualquer.
Perdeste-te onde a esperança já não envia socorro,
onde até o silêncio desiste de chamar pelo teu nome.
Habitaste uma mente em guerra,
um céu permanentemente coberto por tempestades,
onde a revolta fez morada,
o orgulho ergueu muralhas,
e a lucidez partiu sem se despedir.
Os teus ouvidos permaneceram atentos,
mas apenas às vozes errantes,
aos ecos daqueles que também caminham às cegas,
como náufragos convencidos
de que o horizonte pertence ao mar
e não à coragem de remar.
Fizeste das pressas uma religião,
das decisões impulsivas um altar,
e sacrificaste a verdade
em nome de promessas que nunca tiveram raiz.
Quiseste resgate,
mas nunca aprendeste a ajoelhar diante da humildade.
Quiseste respeito,
mas esqueceste que o caráter
não se veste como uma roupa de ocasião.
Constrói-se.
Sustenta-se.
Honra-se.
Vi-te entregar as cordas da tua própria vida
às mãos de quem nem sequer sabia
desatar os nós da própria existência.
Marionetas a conduzir marionetas.
Cegos a desenhar mapas.
Almas vazias a ensinar o significado da plenitude.
E assim foste caminhando,
cada passo mais distante de ti,
até deixares de reconhecer
o reflexo que o espelho, por compaixão,
ainda insistia em devolver.
Hoje parto.
Sem ódio.
Porque o ódio aprisiona.
Sem vingança.
Porque ela alimenta apenas quem já morreu por dentro.
Parto com a serenidade
de quem compreendeu que nem todas as batalhas
merecem ser vencidas,
e que algumas despedidas
são a mais pura forma de renascimento.
Não olharei para trás.
As águas passadas não movem moinhos;
apenas alimentam rios
que seguem o seu curso
sem pedir licença à saudade.
Deixo para trás o peso das ilusões,
o cheiro amargo das promessas quebradas,
as noites onde a verdade sufocava
sob o perfume enganador das aparências.
Levo comigo apenas o que o tempo não conseguiu roubar:
a consciência tranquila,
a dignidade intacta,
a paz de quem escolheu caminhar sozinho
em vez de permanecer perdido na multidão.
E se algum dia o destino voltar a cruzar os nossos passos,
que seja apenas para te mostrar
que havia, afinal, um caminho.
Mas esse caminho
nunca começou nos outros.
Sempre começou dentro de ti.
Adeus.
Que a vida te ensine
o que as palavras nunca conseguiram.
Que o tempo te devolva
a bússola que abandonaste.
E que um dia descubras
que a maior perda de um ser humano
não é perder alguém…
É perder-se de si mesmo.
Hassamo Abdurrahimo
