Voce a Luz do meu Viver
O MENDIGO
Todo dia o mendigo Manoel saía andando pela cidade a procura de pessoas que lhe dessem uma esmola em dinheiro ou em comida. Ele não tinha nada de bem material nesta vida. Tudo que tinha se resumia a trapos de roupas, panelas velhas, sapatos velhos e chinelos, também, velhos. A sua jornada em terra distante começa quando ele sai do Piauí rumo a São Paulo a procura de serviço e por muitos e muitos anos conseguiu trabalhar em uma firma da "terra da garoa". Em um certo dia foi demitido e depois disso não conseguiu mais emprego. Como escape se entregou à bebida e a mendicância. A única coisa que ainda esperava dessa vida era a chegada da morte. Sonhava com ela todas as noites. Apesar da mente já estar bastante enfraquecida pela pouca comida e pela muita cachaça ele pensava nas injustiças dessa sociedade perversa. Para ele a maior parte da burguesia era constituída de pessoas insensíveis que se alimentavam do suor do trabalhador. Ele pensava muito e muito que poderia ser tudo diferente. Talvez, uma sociedade mais igualitária onde todos seriam mais irmãos nessa curta passagem pelo planeta terra. Pobre Manoel!
No final da década de 40, a frase ' o petróleo é nosso" dita por Getúlio Vargas tinha o objetivo maior de garantir a soberania nacional e hoje em pleno ano de 2026 não podemos dizer que temos casa e carro, pois ambos estão plenamente vinculados ao IPTU e ao IPVA, respectivamente.
TRISTE!
CRISE
Aos poucos o silêncio da madrugada se despede e a cidade acorda para mais um dia. O barulho gerado por pessoas e veículos, gradativamente, vai aumentando.Tudo agora é vida.Vida se movimentando em todos os sentidos e em todas as direções. Tudo parece está dentro da normalidade, mas andando pelas ruas da cidade dá para perceber como o povo anda triste. Placas e mais placas com o nome aluga-se, vende-se ou esta unidade fechou, espalham-se ao longo de toda urbe.
As únicas classes que não sentem tanto o efeito da crise é a do rico e a do pobre. O rico tem o suficiente para inibir qualquer crise e o pobre também não sente tanto , pois toda sua vida já está calejada das agruras desse viver.
O tempo passa rápido e logo as luzes dos carros e da cidade anunciam o final de mais um dia e em poucas horas, quando a alta escuridão chegar, todos esquecerão, momentaneamente, dessa terrível crise financeira ,tendo como maior remédio o sono que leva para longe os problemas e as amarguras de cada ser.
O FIM DO MUNDO
Em uma tarde do ano de 1977, no município de Simplício Mendes, tudo indicava que seria apenas mais um dia comum. Como de costume, a criançada corria e brincava pelas praças do centro da cidade. Nas calçadas, havia muitas cadeiras e gente conversando ou apenas apreciando o final da tarde, um hábito bastante comum naquela época. No abrigo da praça, a velha radiola tocava, e lá dentro José Olimpio e Baíca vendiam seus picolés e sorvetes.
Nesse momento, um homem passava com uma tropa de jumentos carregados de lenha para vender nas residências. A lenha era o gás de cozinha de hoje. Tudo transcorria normalmente. Mas, de repente, o que era só tranquilidade e rotina agitou-se, motivado por um estranho objeto barulhento que descia do céu.
Todo mundo se assustou. A meninada correu para casa, os adultos trancaram as portas, e três irmãs da família da senhora Sinhá Campos que moravam em frente à praça e nessa hora conversavam animadamente na calçada, apavoraram-se e começaram a rezar e ao mesmo tempo correr para dentro da casa, gritando que era o fim do mundo.
O estranho objeto desceu na pracinha em frente à casa do saudoso Dr. Antônio, que nessa época era apenas um campinho de piçarra rodeado de pedras de calçamento, onde a criançada jogava bola, brincava de pião, pipa, etc.
Naquele tempo, ainda não existia o campo de aviação. Lá era só mato. Depois do grande susto, veio a explicação: o objeto estranho era um helicóptero que trazia políticos de Teresina para Simplício Mendes
Como os meios de comunicação da época se resumiam praticamente aos correios, houve uma falha de comunicação. Os políticos da cidade esperavam que eles viessem de carro, e não de helicóptero. Se hoje essa máquina voadora ainda causa curiosidade, imagine naqueles velhos tempos.
PEQUENA HOMENAGEM
Não sou poeta muito menos aboiador e nessa seara vou me aventurar como uma simples maneira de homenagear aos moura de Zé Moura que no céu já foram morar.
No raiar de um ano de bonito inverno o dia já estava a clarear e lá para as bandas da localidade juá, Zé Moura e seus filhos estavam a se preparar a trazer o gado que na seca estava a vagar. ChIquinho e Neto iam a frente e Alcides e Alberto na retaguarda para não facilitar e deixar o boi escapar. Naquele exato instante Antônio e Joãzinho que eram os filhos mais novos no curral estavam com o leite a tirar e na cozinha da casa Ana Araújo e Maria Amélia a cozinhar e a preparar o café da manhã para a turma poder tomar. Era uma vida dura que dava até para reclamar, mas tinha também muitas alegrias para poder contar e só em ter uma família tão unida melhor tesouro não podiam encontrar. E,hoje, toda essa felicidade a mãe terra veio a deixar e agora vive no céu a morar.
Ô saudade!
QUIRINO
Quirino, velho Quirino, viveu boa parte da sua vida em dedicação aos serviços da Igreja Matriz de Simplício Mendes. Alto, moreno, magro e de rosto pequeno, causava, à primeira vista, a sensação de ser circunspecto, mas, era mesmo só aparência, pois tinha uma voz e uma maneira bastante engraçada, e essas características lhe ajudava bastante a conseguir mais fácil a simpatia das pessoas.
Nas suas festas de aniversário, compareciam muitos convidados. Uma boa parte da turma, principalmente a que não tinha muito dinheiro para comprar um bom presente, não queria perder os comes e bebes dessas festinhas. Por isso, compravam sabonetes, embrulhavam-nos e os entregavam como presente. Outros não tinham dinheiro nem para isso e enrolavam pedras no formato de algum objeto.
Quirino, já cansado de tanto embuste, resolveu ficar na entrada da casa recebendo os convidados com seus presentes. Ao apalpar o embrulho e notar que era parecido com sabonete, dizia logo:
— Sabonete não, menino! Sabonete já tem.
Em outra ocasião, sentindo-se chateado no acerto de contas de uma das festas religiosas da Igreja Matriz de Simplício Mendes, ele saiu às ruas gritando e dizendo que ia se enforcar em um pé de coentro que tinha no quintal da sua casa.
Nas pequenas cidades do sertão nordestino, a cachaça, que é a causa maior de mascarar a realidade objetiva e subjetiva, subjuga não só os que, por algum motivo,já entregaram suas vidas e seus sonhos à ociosidade, mas também se apodera da grande massa trabalhadora ativa, principalmente dos construtores das cidades, ou seja, pedreiros, carpinteiros, eletricistas, etc. A maioria desses indivíduos entram nesse ciclo para tentar esquecer as mazelas cruéis desse mundo capitalista.
Não preciso de palavras bonitas e grandes para dizer o que quero, até porque as vezes não há palavras existentes que possam dizer o que quero. As vezes as palavras que queremos ouvir não são bem palavras, as vezes o silêncio fala mais alto. As vezes pequenas frases sem muita complexidade nos mudam completamente. As vezes as palavras nos dizem tantas verdades de maneira tão rápida que não conseguimos acompanhar. As vezes temos medo de ouvir algo diferente do que estamos dispostos a aceitar. As vezes. E quantas vezes algumas palavras se repetiram na sua mente de forma devastadora? De uma maneira pela qual nem todo o dicionário é capaz de explicar a junção de todas essas palavras na sua mente, ou o significado delas realmente. Como algo não tão “palpável”, como as palavras, tem um peso tão grande? Não sei como chegar a uma conclusão certa de algumas dessas perguntas, mas sei que as respostas se encontram nas próprias palavras, mas qual delas, eu ainda irei descobrir.
Lasciva, bem mais que carne viva
Olho da vontade descabida
Rasgo do vestido vai até o canto da boca
Louca assumida, arrasa quando passa, cheiro de atrevida
Na pele registros, marcas, roxos, casca polida exibida
insegura se assegura dominante do vento levante
Amarga e formosa menina.
O desamor é sem cheiro, o desamor é sem gosto, o desamor é branco sem brilho, o desamor nasce no diafragma e não tem vida.
Na minha estante de menina tem cores brilhantes,
nobres amantes e esquina.
Depois de certas manhãs, certas manhas de menina.
Saia e alcinha.
Vinho de camomila
nessa fronha em que eu deitei dormi
eu fiquei pensando se ela estava cheirosa
depois percebi que o cheiro era do vinho
que a rua tomava com ela
numa taça feita de espera
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