Vida Amorosa
A vida finaliza e recomeça novos ciclos a cada instante. E sabes o que faz diferença no novo desenho? O exercício incansável da coragem e da resiliência. Somos os contornos de cada linha de nossa história.
Ainda que o mundo seja um tanto torto e a vida um tanto imprecisa, a gente entende o tempo, refaz o caminho e salta.
Eu queria por um instante definitivo qualquer, ser a soberana artesã do desenhar de uma vida. Queria que esse hoje a àquele futuro mais distante, tivessem as cores, as formas e os cheiros dos meus sonhos.
Seria bom se por uma noite apenas, os fantasmas se fantasiassem de palhaço e sorrissem de si mesmos, experimentando o avesso do susto e rendendo-se à luz de um sorriso.
Quem dera mesmo se o fim existisse apenas para os medos e jamais para as nossas tão breves e raras vertigens de felicidade. O outono perderia a hora no manso sossego do sono e a primavera seria senhora do tempo que regala os olhos e suaviza a alma.
Eu queria que os afetos fossem livres e eternos como penso serem as borboletas. Morrer para em outra forma nascer, faz eterna uma existência. E não há nada mais legítimo à liberdade do que a promessa de um recomeço.
Se eu tivesse que pintar com tinta fresca as mais sublimes emoções, estariam lá estrelas que embalam redes, sereias que durante nossas viagens de sono, nos levam a passear pelos mares de Netuno, lá onde se é possível ver e sentir tudo aquilo que não podemos tocar, a emoção não vista que nos tira o ar. Eu pintaria ninfas que nos guardam em cama de folhas no alto das árvores, onde nada mais nos alcança a não ser as brechas de sol por entre os nimbos. Estariam lá, conchinhas misteriosas, ainda fechadas, com cheiro de algas, trazidas até meus pés pela espuma do mar fiel e cansado.
Eu pintaria com a mais fulgente das cores, um colo de afeto chamado minha mamãe. Braços com o alcance do céu, ternos e fiéis, acalanto de toda uma vida em cada abismo meu. Nem sei se todas as cores, dariam conta de tanta ternura, de tanto zelo, da soberania de um amor valente e incondicional, desses que só se tem um a cada vida.
Estariam lá também os meus sorrisos, os sorrisos de quem amo e de cada um que numa inesquecível passagem por minha vida, me fez sorrir. Os abraços, os mimos, minhas pérolas e afagos de afeto, estariam lá, por certo. E o que diriam todos.... Jamais conheci alguém que gostasse tanto de sorrisos e de abraços. E num cantinho à direita do quadro, com traços tímidos e quase imperceptíveis ao correr dos olhos, eu pintaria o que mais sou. Uma emoção desajeitada, um sonho não prometido, uma crença não corrompida, um sempre, um nunca. Um outono cinza que enevoa as flores, breve e clandestino em muitos, eterno e raro em poucos.
As decepções, os sofreres, as flechas DE TÃO PERTO em meu peito, essas eu não pintaria. Seria tornar-lhes perenes, epitáfio confesso de mim. Em meus traços não haverá pandora. As marcas feitas a ferro em brasa, devem ser vistas e traduzidas apenas por quem as tem em sua carne. A vida se já se encarrega de fazê-las retrato inexorável de nós. Ventanias infames ao amor mais puro, desertos de princípios que chocam, assim como as folhas tortas após a tempestade, é luz apagada dentro da gente, é esperança corrompida que, por fim, te embrutece e te esvazia a alma.
Pelos caminhos de um universo paralelo que tem os contornos de minhas buscas e de meus sonhos, encontro-me e, por vezes, perco-me. Talvez porque eu não seria uma boa artesã, talvez porque a ponte que deixa para trás o que só a ilusão permite viver e sentir, jamais me será possível atravessar.
A prestimosidade da vida com o entendimento das coisas e com a clareza de nós nem sempre entra pelas janelas da frente da gente. Quando o que fomos fora, nos joga para nosso mais fundo dentro, não há concessões de verdades, tão pouco aceitações injuntivas dos porquês, nem mesmo dos não gratos e ásperos porquês. Não há arremates nos destinos, atalhar nos percursos... não há barganhas com o tempo exato de ser e, de igual modo, de deixar de ser.
Há sim, o tempo de tirar para descanso, o avental da tolerância e da passividade com os equívocos sabidos e tidos. Tempo de descortinar as janelas do adiante, ainda que de seda seja o véu se, por detrás dele, está o único seguir possível a um reencontro nascente, dulcíssimo e grato consigo. Tempo de deslizar as mãos sobre o embaço úmido nas vidraças, embaço diviso e rompante do ser. Sem importar se esse mesmo ser foi outrora, soneto ardente, fiel e víscero de mim. Tempo de rasgar o útero amadurecido pelo rigor da primeira ou da derradeira lucidez e... nascer. Cada ser nascido é um ser querido e já sido. Agigantamos o parto ao celebrarmos os gritos e os gemidos no ato para neles, apequenarmos a dor. Morremos um pouco quando perdidas de nós. Nascemos de todas as mortes e para todas as vidas quando decididas, de cada perder-se, NASCER.
Sim, nascer, posto já tão lacerado o perder. Não digo renascida porque nascida, outra me quero ser. Outra, um tanto mais esvaziada de meus avessos, de meus desajeitos, dos vazios e dos tropeços de mim . Outra, inimiga da dúvida perdiz, àquela paralisante. Outra mais íntima de si e menos vagante sem licenças no outro. Uma outra, amante plebéia ou princesa do olhar que a despe em alma. E quão louca e linda e livre alma. Outra, urdida do mais legítimo profundo de si para quiçá, jamais sabotar-se em ser e assim, jamais permitir-se censurada e abortada em ir.
Quero - me amor que vai, amor que chega , deusa profana de cada sentir, mar de chamas em cada querer. Quero - me sede imprudente, alheia ao veneno que tolhe e talha. Quero -me em cada exato ou inexato tempo, largo espaço criador e abrigo feliz de mim.
Estreitando pendências com a vida...
O tempo que nos instala nisso faz surgir no seguinte, outros grávidos e hídricos tempos. Os vácuos vida a fora são sólidos, são ácidos, são sãos. Os enfrentamentos trazidos vida a dentro, são intérminos, são curvos de rumo, são ensaiantes prenhes de outras muitas -nós-. Outras sempre inacabadas -nós-.
Viver a vida consiste em perdoar, para desafogar o nosso coração e oferecer espaço para ser recheado com amor.
A vida tem a beleza das cores que as mãos de Deus pintam...
Que são debotadas pela hediondez que as mãos dos homens pintam...
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