Versos sobre a água
MORRER É NORMAL
Uns morrem por armas, em chacinas;
outros em acidentes. uns morrem na água; outros, no fogo. Há quem morra por assumir um determinado cargo, e há quem morra por amor. Há quem poderá morrer por ter muita saúde e outros pela paz. Mas morrer é normal.
Chora o sertão
No sertão, a chuva forte despenca,
Cortinas de água dançam, se entrelaçam em pencas...
O céu azul, em contraste, se estende,
Nuvens pesadas silenciosas, como segredos que sussurram entre si e se entendem.
A terra sedenta, em êxtase, agradece,
cochichando promessas de vida e renovo...
As folhas vibram com cada gota que desce,
Um milagre sutil, um amor renasce completamente novo.
Os pássaros cantam, festejando a clemência...
Nos riachos fios de água dançantes refletem o brotar de nova alegria...
O chão, antes árido, agora em essência,
recebe a bênção que transforma a secura em terra fértil em florescência.
Da dor à esperança, o ciclo se completa...
Coração do sertão, pulsando em harmonia,
Na dança da chuva, a vida se propaga,
E em cada gota, a natureza se transformando na mais pura poesia.
Não há colheita sem água.
Não há crescimento sem tempestade.
Aprendi assim:
é nas tempestades da vida que a gente floresce.
Desilusão
Ó realidade,
que me toca
e fere minha carne.
Através dos reflexos da água,
vejo histórias se formarem:
contos do passado
que, outrora preciosos,
tornaram-se fardos
para o presente.
Águas turvas.
Silêncio mórbido.
Quisera eu
adormecer no abraço da ignorância,
para que a realidade
não me revelasse
que a joia mais bela
transformou-se
numa sórdida bijuteria.
E o que antes eu chamava de tesouro
era apenas o brilho breve
de um metal sem valor,
capaz de enganar os olhos,
mas jamais o tempo.
Hoje, ao tocar essa falsa riqueza,
meus dedos não encontram ouro,
apenas o frio
de uma ilusão desfeita.
Às vezes, olhar para dentro é como encarar um oceano em dia de ressaca,a água é profunda, escura e se move rápido demais para que eu consiga acompanhar. Eu sou o meu próprio maior mistério. Em um segundo, estou aqui, ancorado na rotina, com os pés pesados e os olhos fixos no chão. No segundo seguinte, sem qualquer aviso, um gatilho invisível é disparado. Minha mente ganha asas. O pensamento desenha um voo uma urgência cega de largar as malas de quem eu sou, esquecer o nome, esquecer tudo, e simplesmente sair por aí, sem rumo, sem bússola, sem destino. É exaustivo habitar uma mente que não pede licença para decolar, é exaustivo não conseguir entender seu próprio caos e esperar que alguém veja o que você não é capaz de enxergar .
Enzo Ruchell
Calmaria
Depois do temporal a calmaria.
Surge um céu brindando um novo dia.
Chuva raivosa foi aguar em outro lugar...
Deixou espaço para o Sol brilhante no horizonte raiar.
Brisa suave a manhã vem suavizar.
Pássaros cantam um novo dia a chegar.
Borboletas coloridas... sobre flores perfumadas... no jardim estão a bailar.
Novo dia. Dia novo.
Sol... calor de manhã de verão.
Sopra um vento meigo de novo.
Folhas das árvores a cobrir o chão.
Do rio
A mesma água não volta... nada se repete... o rio abre passagem, rodeia, circula, obstáculos são deixados para trás, supera limites, reflete as nuvens e tudo o que em suas águas vem se espelhar... contorna, adapta-se aos novos contornos... funde, funde-se, confunde-se... joga-se em cascata, cachoeira... e volta a deslizar suavemente em seu leito nupcial.
Não quero água, luz e gás de graça. Eu quero escola, capacitação, trabalho e bom salário.
Benê Morais
Na COP30, a coxinha custas 45 reais, a água 20 e ainda querem querem salvar o planeta vendendo luxo em papel reciclado.
Benê Morais
Na COP30, a coxinha custa R$ 45,00, água R$ 25,00 e ainda querem salvar o planeta, matando os turistas climáticos de fome.
Benê Morais
A rendição
De joelhos a rendição foi covarde,
Na podridão da futilidade a água suja era servida, mas as suas taças quebraram ofuscadas pelo brilho perpétuo do pecado,
Um grito muito forte umedeceu a sala fria e despertou a inquietude de um corpo teimoso, preso na melodia da recusa,
Na promessa quebrada a confissão veio como canção melancólica e de sabor agridoce,
Quem não soube dividir o mundo comigo, jamais poderia ter levado o meu coração junto a si.
Papéis invertidos
Te carreguei nas minhas sombras,
Te dei pão e água quando precisou,
Te apresentei um mundo que você não conhecia,
Sou grato hoje pôr os papéis terem se invertido,
São tantos ensinamentos, são tantas experiências,
O acaso abraçou o que causou impacto e agora vive da razão.
Doce foi o veneno experimentado inocentemente,
A água bate na rocha e ela não corresponde, mas sente,
A neve cai, o tapete na floresta é branco, o lobo ruiva sagaz na escuridão, mas a fogueira continua acesa,
A lua ficou escura por breves minutos deixando o mar agitado, depois voltou a iluminar o céu e tudo se acalmou, o rio corre solto levando os troncos secos e os podres, a coruja vigia a noite, alguns pássaros dormem, a natureza sabe se organizar,
O amor não é algo a temer escuto estes ruídos por aí, então me ensinem a viver sem medo de amar.
Bom dia.
Enquanto a água do café esquenta e a manhã vai entrando pela janela, a gente nem percebe que a vida também se ajeita devagar dentro de nós.
Há coisas que permanecem. Há coisas que, aos poucos, aprendemos a deixar ir.
E talvez a paz esteja justamente nisso: confiar que Deus cuida daquilo que precisa ficar e, com carinho, alivia as mãos daquilo que já pode ser solto.
Edna de Andrade
Alguns cavam em busca de água, tesouros, petróleo ou procuram a própria história; já os bolsonaristas cavam a própria cova!
Nem mais lento que a água
Nem mais depressa que o vento.
Para tudo nesta vida
A vida tem seu próprio tempo.
