Versos de Clarice Lispector
Eu me dou melhor comigo mesma quando estou infeliz: há um encontro. Quando me sinto feliz, parece-me que sou outra. Embora outra da mesma. Outra estranhamente alegre, esfuziante, levemente infeliz é mais tranquilo. Tenho tanta vontade de ser corriqueira e um pouco vulgar e dizer: a esperança é a última que morre.
No fundo ela não passara de uma caixinha de música meio desafinada.
Já que ela não era uma pessoa triste, procurou continuar como se nada tivesse perdido. (Ela não sentiu desespero etc. etc.) Também que é que ela podia fazer? Pois ela era crônica. (...) Tristeza era luxo.
Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Nota: Trecho da crônica As três experiências.
...MaisA feiura é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual.
Antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado.
Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.
Nota: Trecho da crônica O milagre das folhas.
...MaisE, antes de aprender a ser livre, eu aguentava – só para não ser livre.
Nota: Trecho da crônica Medo da libertação.
...MaisEu sou nostálgica demais, pareço ter perdido alguma coisa não se sabe onde e quando.
Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil.
Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa. A garantia única é que eu nasci. Tu és uma forma de ser eu, e eu uma forma de te ser: eis os limites de minha possibilidade.
Escrevo como se estivesse dormindo e sonhando: as frases desconexas como no sonho. É difícil, estando acordado, sonhar livremente nos meus remotos mistérios.
Eu cheia de saudade de você, mas aguentando firme.
Nota: Trecho de carta ao filho Paulo Gurgel Valente, de 25 de abril de 1969.
...MaisMas nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima a qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.
Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto – uivaram os lobos, e olharam intimidados as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir.
Nota: Trecho da conto Os desastres de Sofia.
...MaisEu te amo, disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não querê-la.
Abandone-se, tente tudo suavemente, não se esforce por conseguir – esqueça completamente o que aconteceu e tudo voltará com naturalidade
Está fazendo um dia lindo de outono. A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto. O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar. Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina.
Nota: Trecho da crônica Ao correr da máquina.
...MaisVivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
