Velha
Entre tragos, me trago em dúvidas, desejos e angústia. Busco o alívio da velha companhia emagrecendo os meus pulmões, e me deito em meio ao enjôo desconhecido. Pensativa, reflexiva, na escuridão que sempre me acalma, enquanto desperdiço boa parte do segundo cigarro que já não consigo fumar. Queria aquela presença, enquanto necessito do isolamento, e entro em pânico pela fobia do mal estar. Não há palavras a dizer, mas há muito a falar.
Haverá sentido na vida, ou a existência é apenas a dor com delírios de alegria? A ilusão da felicidade, em memórias que se perdem como folhas jogadas ao vento, tirando da árvore a beleza suprema? E se for apenas ilusória a ideia de que tudo dará certo ao final, me levando a me arrepender de mudar o imutável, e ser feliz, sabendo que tudo valeu? E se for apenas um fardo no futuro de quem mais amei?
- Marcela Lobato
A Vida foi feita para se gastar, não a economize. Tem gente que morre velha com a vida novinha em folha.
HAIKAIS SOBRE A COPA DO MUNDO
Velha televisão
mostra heróis correndo livres
na sala apertada
Rãs junto ao lago
cantam depois da vitória
e depois da derrota
No bar da esquina
todos viram treinadores
por uma noite só
Autor: Sandro Sansão da Silva Costa
Guarda também esta velha verdade, meu neto:
"Todo homem que sobe ao alto usando o ódio das pessoas…
um dia precisará manter esse mesmo ódio vivo para continuar de pé."
Infelicidade Humana
Como a projeção astral de um ser onipotente, a velha filosofia grega já nos dizia: somos seres distintos, egoístas ao ponto de criar deuses à nossa própria imagem. Tudo na tentativa de buscar sentido nesta terra enferma, que nos enlouquece e nos faz delirar. Delírios que nos fazem matar.
Guerras e mais guerras a criar; distúrbios e sangue ao chão. O sangue manchando as nossas mãos, o choro e as lágrimas derramadas pelos nossos antepassados. Por isso a existência dos deuses se faz necessária: somos tão cegos a ponto de nós mesmos nos cegarmos, numa busca desesperada para aplacar a nossa solidão.
O vazio que corrói e aflige o coração. A cura dos enfermos, a cura da alma... afinal, onde está?
Nossa maior dor aguarda à espreita, na nossa própria solidão. Desesperados, que seja a morte a nos amparar. Crescemos, vivemos, perecemos e à terra voltaremos. Com a consciência enfim extinta, restarão apenas as marcas de nós que por aqui deixarmos.
Há vários de mim sobre a mesa em que me sento: o tolo, o velho, o sábio, a criança e os delírios. Não sabemos quanto tempo passaremos com cada um de nós mesmos ao longo da vida que iremos trilhar. Diante desta mesa, só não se sabe o tempo que me restará.
[Boa e Velha Selvageria]
Eles querem
adestrar todo mundo,
querem todos
mansos e humildes;
risadinhas,
aplausos e brindes;
risadinhas,
aplausos e brindes;
mas nosso espírito
é indomável
e não se dobra
com palavras vazias.
Só podemos
prometer a eles,
nossa boa e velha
selvageria.
(Michel F.M. - Atlas do Cosmos para Noites Nebulosas - Trilogia Mestre dos Pretextos)
"A morte baterá à sua porta, ao abrir, diga apenas: "Bem-vinda, velha amiga", até porque você sempre soube da existência dela, temia ela, mas, no fundo, ansiava pela sua chegada"
Vida, corriqueira vida
Poeira ao vento
Velha avenida
Que era só pó
A corrida, a carreira
O aspirar , suspirar
Ouvir o rangido
Das portas do tempo
O estampido do tiro
Dos poetas
Os hipócritas desapareceram em meio
As cinzas num redemoinho
Enquanto os artistas
Que semeiam
A euforia
Vive seus delirios
Fascinantes
No Gan Éden
Chacrona, mariri
Cânhamo trágico,
Fruto que alucina
daime santo,
O manjar dos deuses.
Nada mudou
Na avenida da vida
O tempo não para
Há agora um deserto
Comumente de certo
surgiste do pó
Puro pó...
A insanidade
A desigualdade
Falácias, falácias, falácias
O buchicho, o bocejo, o nó
A célula, a cédula
A sensura
O desejo
Poeira só.
100126
Sob a velha Hercílio Luz, diante da imensidão do mar que se perde no horizonte, sinto a mão de Deus me abraçando, lembrando-me da dádiva de ter nascido neste pedaço de paraíso que pulsa com a brisa, a chuva e o som das ondas.
O passado é uma casa velha que insiste em ranger quando o vento da lembrança passa. Podemos trancar portas, entulhar janelas, mas o eco do que vivemos sempre encontra um jeito de entrar. E talvez não seja para ferir, mas para lembrar que o sobrevivente ainda habita aqui. E isso já é vitória demais para quem quase não existiu.
Atravessando o rio gélido de um destino não tão bonito, em uma velha jangada, anunciando sua trajetória lenta, pesada, tocando um sino enferrujado, com seu som abafado, como se estivesse submerso, sendo afogado, feita de almas atormentadas, cheias de dor, pelo fundo pedregoso, margens lamassentas e ao horizonte, não existem margens, o rio não se finda e o céu, baixo e cinzento, curva-se como um teto prestes a ruir, comprimindo o ar nos pulmões já cansados, a corrente não conduz, apenas arrasta, e cada braçada é um adeus ao que ficou para trás, enquanto a jangada range, como se soubesse que não há porto, não há farol, não há terra firme, apenas o curso interminável dessa água fria que não acolhe, não absolve, não esquece. E assim sigo, não por esperança, mas por não haver retorno, deixando que o sino continue seu lamento mudo, até que o próprio som se dissolva na névoa, e eu me torne parte do rio que jamais termina.
Minha mente é uma casa velha, em ruínas, com portas trancadas por fora. Nos dias escuros, o teto cede e as paredes mofadas se fecham sobre mim. Divido o espaço com fantasmas que sussurram traumas passados; o medo é o ar que respiro, a fome é uma ferida aberta que nunca sela. É um isolamento pavoroso, um cativeiro assombrado. Mas quando o pânico me paralisa e a escuridão é total, o assoalho racha. Como uma fresta de luz que corta o sótão esquecido, as epifanias rasgam o pavor. Uma lucidez violenta, fria, que ilumina as assombrações. Eu morro de medo aqui dentro, mas decifro cada cicatriz. Esta casa condenada é o meu lar.
- Tiago Scheimann
Percorri caminhos , tantos que nem sei...às vezes eles surgem em minha mente, na velha sensação de deja vu, uma fugaz lembrança do que fui ou do que sou, por onde andei, não sei...Talvez sejam sonhos...Talvez sejam reais.Só sei que às vezes penso que nada sei.
Atenção, atenção, foi dada a largada,
na corrida eleitoral da velha bancada,
candidato atacando de forma desesperada,
e a verdade ficando sempre abafada.
Banco formando teia de corrupção,
dinheiro girando dentro do salão,
senado abrindo o bolso da população
como se fosse normal tanta exploração.
Oh, que sensação!
Helaine Machado
- OS MORTOS QUE AINDA RESPIRAM - O pub fede a cerveja velha, tabaco barato e promessas que nunca sobreviveram ao amanhecer. A madeira do balcão conhece mais derrotas do que qualquer igreja conhece confissões. Ninguém ali é santo. Ninguém ali espera um milagre.
É por isso que gosto deste lugar.
Aqui a mentira morre cedo.
Vejo homens afogando décadas dentro de um copo. Vejo outros contando moedas enquanto fingem que ainda têm tempo. Todos repetem a mesma oração miserável:
"Amanhã eu começo."
Mentira.
O amanhã é um golpe inventado para tranquilizar covardes.
A vida acontece agora, enquanto o gelo derrete no copo, enquanto a fumaça sobe em espirais e enquanto o coração ainda insiste em bater. Cada segundo desperdiçado é um pedaço da própria existência vendido por quase nada.
Você pode esperar.
Esperar o dinheiro. Esperar o amor. Esperar a oportunidade perfeita. Esperar que o medo vá embora.
Só não reclame quando descobrir que a morte nunca esperou por você.
Não se curve.
Porque o mundo adora homens de joelhos. Gente obediente compra mais, pensa menos e morre em silêncio.
Não quebre.
Quebrou o nariz? Levante. Quebrou o coração? Continue. Quebrou os planos? Construa outros com os pedaços. Ferro só vira lâmina depois que conhece o fogo.
Não desista.
Os maiores túmulos não estão nos cemitérios. Estão andando pelas ruas, respirando por obrigação, existindo sem nunca terem vivido um único dia de verdade.
Eu só quero viver enquanto estou vivo.
Não quero uma biografia limpa. Quero marcas. Quero erros. Quero noites mal dormidas, gargalhadas inconvenientes, amores intensos, fracassos honestos e histórias que façam alguém baixar o copo para escutar até o fim.
No fim da noite, o dono do pub apagará as luzes.
Um dia alguém apagará as suas.
A única pergunta que importa é esta:
Quando isso acontecer, você terá vivido... ou apenas ocupado espaço entre o nascimento e o enterro?
A morte não leva apenas os vivos. Ela coleciona, principalmente, aqueles que passaram a vida inteira pedindo licença para existir.
O CICLO QUE NINGUÉM VÊ
Há uma folha desenhada sobre a madeira velha deste balcão. Não está realmente aqui. Está apenas na minha cabeça, entre um copo de uísque barato, a fumaça de um cigarro que insiste em sobreviver e o silêncio que os bêbados confundem com paz.
A vida inteira cabe numa folha.
Ela nasce verde, arrogante, convencida de que o vento é liberdade. Dança porque acredita que escolheu dançar. Depois aprende que era apenas o galho decidindo por ela. Mais tarde, o tempo amarela suas certezas, rouba o brilho, seca suas vaidades e, por fim, a entrega ao chão, onde ninguém mais olha.
Engraçado... fazemos exatamente o mesmo.
Neste bar há homens falando sobre carros que nunca comprarão, mulheres sorrindo para pessoas que jamais amarão e jovens planejando futuros que venderão na primeira promoção de estabilidade. Todos parecem ocupados demais para perceber que estão envelhecendo enquanto discutem banalidades.
A correnteza não faz barulho.
Ela apenas leva.
Leva os sonhos, a curiosidade, a coragem de dizer "não". Leva aquele impulso infantil de observar uma chuva, ouvir um disco inteiro, sentir o cheiro da madeira molhada ou reparar como a fumaça desenha fantasmas sob a luz amarela do teto.
As pessoas chamam isso de amadurecer.
Eu chamo de desistir.
Não falo da resistência dos heróis estampados nos livros. Essa costuma render medalhas e discursos. Falo da resistência silenciosa, quase invisível: a de não acreditar em todas as mentiras que vendem como felicidade; a de não transformar a própria existência numa fila de boletos, relógios e domingos ansiosos; a de continuar enxergando beleza numa folha caída enquanto o resto do mundo só enxerga sujeira para ser varrida.
Porque morrer não começa quando o coração para.
Começa quando deixamos de notar os detalhes.
Quando o café perde o aroma, o abraço vira protocolo, o beijo vira rotina e a janela deixa de ser uma moldura para o mundo e passa a ser apenas vidro.
Olho para o fundo do copo. O gelo já desapareceu, como desaparecem tantas coisas sem pedir licença.
A folha da fotografia teve uma vida inteira. Nasceu, brilhou, alimentou a árvore, envelheceu e caiu. Nunca fingiu ser outra coisa.
Nós, ao contrário, passamos décadas fingindo viver.
E talvez seja essa a tragédia mais elegante da espécie humana: não a morte, mas a facilidade com que entregamos nossa vida à correnteza, chamando de destino aquilo que foi apenas falta de coragem para abrir os olhos.
No fim da noite, o garçom apaga as luzes. A fumaça desaparece. O balcão continua ali, velho como sempre.
E, em algum lugar, outra folha começa a nascer.
Tomara que ela aproveite melhor o vento do que nós.
No canto do espelho quebrado, um peixe com asas azuis engole o som de uma música velha que vem do fundo d'água. Pingos de prata escorrem pelas teclas de um piano invisível, fiapos que não se encostam, mas cochicham coisas no escuro. Por que o relógio amolece nas mãos de outro relógio parado? Uma abelha de vidro voa entre nuvens de algodão doces, levando pó de lembranças que nunca existiram. O vento leva folhas de jornal velhas, letras misturadas como cartas num baralho sem jogo.
Antigamente se dizia assim:
“Ano Novo, vida velha.”
Não espere mudanças nem milagres apenas porque o ano é novo, sem lutar para mudar
os próprios hábitos e, assim, favorecer o “milagre” das transformações.
Não há milagre no calendário!
O ano não muda nada e ninguém.
Mudam-se os dias,
mas os vícios permanecem,
os hábitos se repetem,
as desculpas ganham roupa nova.
Quem não enfrenta a si mesmo
atravessa o réveillon
carregando as mesmas correntes.
Transformação não nasce da virada do tempo,
nasce do atrito, da renúncia,
da coragem de romper consigo
todos os dias.
De nada vale pular as famosas
“sete ondas” na virada do ano
se não se dão saltos reais
de mudança no dia a dia.
✍©️@MiriamDaCosta
Alma Velha
Quando cheguei a este mundo
trazia no âmago
um traço de ancianidade...
desde a infância e adolescência
vivenciei n’alma
uma marca registrada,
como se meu ser fosse bordado
com fios de uma profunda e doce velhice...
e esse fato me fez apreciar,
de forma especial,
vivências e saberes antigos,
totalmente fora dos interesses
comuns às infâncias e adolescências...
Não sei como, nem por quê.
Só sei que, desde sempre,
percebo trazer em mim
uma alma velha...
✍©️@MiriamDaCosta
