Vaidade
Você pode ser bonito ou feio, ter o guarda roupa cheio, com vaidade e pompa, mas a felicidade não se compra.
Ora, mas o que é a vaidade? É quando os afagos da bajulação do outro se encontram com as carícias da minha incapacidade
Nós poderíamos estar mais atônitos nos dias atuais em fazer adormecer nossa vaidade do que nos preocuparmos em exorcizar demônios
Na escalada rumo à sabedoria, a vaidade sempre preferiu elevador enquanto a humildade não dispensa as escadas
A vaidade sempre nutriu um amor platônico pela realidade, mas esta foi arrebatada pela humildade, enquanto aquela preferiu ser ludibriada pela soberba
Autoestima independe do juízo de valor que os outros fazem a meu respeito, enquanto a vaidade, é um aprisionamento de valores alheios
A vaidade é o veneno que aprisiona em relação ao julgamento alheio. Autoestima é o antídoto, que faz da liberdade o meu esteio
Bancar o bom samaritano sob holofotes é permitir que a vaidade atinja o mais alto dos céus, antes mesmo de passear pelas profundezas do inferno
A vaidade não reflete sua beleza, mas sim o quanto se gastou para parecer aos olhos dos outros menos ridículo.
A vaidade outrora um pecado. Agora é uma virtude. Postada, compartilhada, seguida, influenciada e viralizada endiabradamente.
Degraus da Vaidade
A vida é feita em degraus,
e cada degrau, uma entrega.
Subimos com esperança,
mas a escada é feita de brumas.
O primeiro degrau brilha com sabedoria,
mas logo aprendemos que saber não salva.
O tolo e o sábio partilham o mesmo pó,
e o tempo apaga ambos os nomes.
No segundo degrau, plantamos com suor,
mas a colheita, por vezes, vai às mãos de estranhos.
O herdeiro não labutou,
mas ceifa o que não semeou.
O terceiro é o do propósito —
mas há planos que não nos pertencem.
O Altíssimo ri dos acúmulos dos ímpios,
que servem, sem saber, aos justos.
O quarto degrau é o sucesso,
espelho dos olhos alheios.
Corremos por glórias vazias,
esquecendo que pó não segura troféus.
O quinto degrau é o da solidão dourada:
o homem que junta, mas não se alegra,
sem mãos que lhe toquem o ombro,
sem olhos que o chamem de irmão.
O sexto é a coroa da fama,
que brilha até o trono se esvaziar.
O povo esquece o nome do rei,
e suas obras morrem com seu eco.
O sétimo é o ouro que nunca basta.
Quem ama a moeda,
nunca ama o bastante.
A alma faminta não se farta com cifrões.
O oitavo é a cobiça —
o desejo de sempre mais.
Mas o que se contenta com pouco
já possui o que o mundo inteiro busca.
O nono é o riso sem alma,
o som dos espinhos queimando em vão.
O tolo se diverte com fumaça,
e não percebe a cinza que resta.
O décimo é o louvor aos perversos:
morrem os maus,
e recebem flores da mesma cidade
que sofreram por seus feitos.
E assim subimos os degraus,
cada um ensinando o peso da vaidade.
Mas mesmo em meio ao vazio,
há sabedoria para quem escuta.
Pois o homem sábio
não nega os degraus,
mas sobe por eles
com olhos no alto —
onde não há vaidade,
só eternidade.
