Use o Silencio quando Ouvir

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A maturidade chega quando percebemos que nem toda ausência faz barulho, algumas apenas retiram lentamente a luz das coisas.

Descobri que sobreviver é, muitas vezes, carregar o peso silencioso de continuar existindo quando tudo dentro de nós já desmoronou em cansaço, quando a alma pede repouso, mas a vida insiste em permanecer acesa mesmo entre os escombros.

O coração amadurece quando aprende a suportar o que não pode mudar.

A alma aprende a caminhar mesmo quando o destino desaparece da vista.

O sofrimento, quando não me destrói, me afina, ele remove excessos e deixa exposta a nota grave que sempre esteve escondida.

Quando ninguém me espera, o tempo perde sua educação e mostra que a existência não tem plateia, tem apenas presença.

O vazio não me assusta quando o reconheço, o que me apavora é a tentativa de preenchê-lo com qualquer coisa que não seja verdade.

A existência pesa menos quando paro de fingir que preciso caber em todos os olhares.

O homem se perde com mais facilidade quando tenta ser espelho para os outros e se esquece de ser casa para si.

O desamparo é menos cruel quando aceito que nenhuma existência se resolve sem uma boa medida de incerteza.

Quando finalmente eu contemplar a face de Cristo, acredito que entenderei que cada lágrima que derramei na terra jamais caiu fora das mãos de Deus.

Algumas despedidas não terminam quando a porta se fecha; continuam acontecendo dentro de nós por anos, em silêncio, como um inverno que se recusa a partir.

Passei tanto tempo construindo muralhas contra a dor que, quando o amor finalmente chegou, encontrou apenas ruínas e portas enferrujadas.

A maior prova de existência não é ser visto, mas continuar íntegro quando ninguém se dispõe a compreender.

A negligência que encontrei na infância não terminou quando deixei de ser criança. Ela aprendeu a crescer comigo. Mudou de rosto, de voz, de silêncio, mas nunca deixou de caminhar ao meu lado.


Há dores que não gritam; elas se infiltram na arquitetura da alma e passam a sustentar tudo o que somos. A minha fez do afeto um território estrangeiro. Nunca aprendi a reconhecê-lo sem antes procurar a ausência que costuma vir depois.


Por isso, amar, para mim, nunca foi um gesto espontâneo. É uma travessia sobre uma ponte construída com tábuas podres. Cada passo parece anunciar uma queda.


Mas existe algo ainda mais difícil do que amar.


É permitir que alguém me ame.


Há uma parte de mim que permanece escondida, como se tivesse sido convencida, ainda menino, de que carinho sempre cobra um preço e de que toda permanência é apenas um atraso para o abandono. Quando alguém tenta atravessar essa distância, meu primeiro impulso não é abrir a porta. É procurar a saída.


Talvez a pior herança da negligência não seja a solidão.


Seja a incapacidade de acreditar que um dia alguém possa olhar para todas as minhas ruínas e, ainda assim, decidir ficar.


Porque existem infâncias que não acabam. Apenas aprendem a respirar dentro do adulto que sobreviveu.


- Tiago Scheimann

Quando a alma se dobra, a fé não a endireita à força, ela a sustenta até que o peso deixe de ser sentença.

Há uma parte de mim que só se organiza quando dobra os joelhos por dentro.

O destino raramente nos tira pessoas, ele leva embora as versões de nós que só existiam quando elas estavam por perto.

O coração não se parte quando perde alguém, parte-se quando entende que jamais voltará a existir da mesma maneira.

A maturidade começa quando deixamos de perguntar por que sofremos e passamos a perguntar o que o sofrimento ainda pode nos ensinar.