Use o Silencio quando Ouvir
A realidade é uma ideia, nós a compreendemos ao senti-la. As palavras só podem definir, quando tudo é o infinito. A Verdade é a imaginação, pois além de nós está Deus e o que vemos é o que nós somos. Nunca a visão será suficiente para contentar a nossa sede de saber.
Eu sou assim
Quando achamos que os pensamentos nos atrapalham, que tropeçamos no raciocínio e nas palavras, estamos enganados. Nós estamos muito além do pensamento. Nós somos o pulsar das galáxias, somos o fluxo interminável dos átomos, o choque das forças em movimento. E também a comunicação de mentes sem fim. A sombra dos astros no encontro entre a realidade e o nada.
Quando competimos com os outros, sempre perdemos. Quando competimos com nós mesmos, sempre ganhamos.
Quando o adormecido despertar
A vida será muito maior. As torrentes rugirão, o frio e a umidade vão nos despertar, as matas fechadas não serão mais inexpugnáveis, os seres vão aparecer na sua glória. Não haverá a quem culpar, muito menos a nós mesmos. A dor não será algo externo. Quem se foi, voltará. O mundo fará sentido.
Os fatos, as palavras da história da minha vida, são apenas repetições sem sentido quando percebidos isoladamente. O tempo é uma narração, uma sequência, que só pode ser apreciada no seu conjunto. A montagem desta consciência é falha porque eu fui aprendendo a construí-la enquanto a fazia. As repetições são ilusórias, e eu posso, com elas, a aprender a não me enganar.
Os seres humanos não têm existência própria. Isso é fácil de perceber quando estão imóveis ou distantes, mas quando começam a falar, a sorrir, a flexionar as pernas e a tossir, somos iludidos com esse simulacro de vida.
A tentativa de agredir é positiva, quando não nos sentimos agredidos e aquele que agride aprende sobre si mesmo.
Não é possível forçar. As coisas acontecem conforme o nosso desejo quando a mente está pronta. Tudo acontece conforme acreditamos e acreditamos na verdade ao estarmos cientes da nossa capacidade de compreender.
Enquanto não temos, imaginamos que aquilo nos fará felizes. Quando temos, descobrimos que felicidade não era aquilo.
@gmajordeus
E se algum dia perguntares
o que vejo quando olho para ti,
não direi apenas beleza.
Direi:
vejo a mulher que desejo,
a mulher que admiro,
a mulher que quero beijar,
a mulher que quero abraçar,
a mulher que quero proteger sem aprisionar,
e, acima de tudo,
a mulher que meu coração escolheu
mesmo sabendo
que amar é sempre
uma maneira lenta
de aprender a sofrer.
Quando o Texto Me Lê
Eu pensei que escrevia
para dizer ao mundo.
Mas escrevo
para escutar
o que ainda não sei.
A palavra sai achando
que sabe o caminho,
desfila segura,
convencida.
Até que eu volto.
Leio.
E o texto me olha de volta.
Ler o que escrevi
é chegar atrasado
a mim mesmo.
Um espelho sem rosto,
só gesto,
só intenção escancarada.
O medo se esconde
em frases longas,
cheias de vírgulas,
com medo do fim.
A coragem aparece
sem alarde,
num verbo simples
que não pede desculpa.
Enquanto escrevo,
defendo ideias.
Quando leio,
negocio com elas.
Descubro palavras
que não eram minhas
apenas passaram.
E verdades pequenas
que se sentaram
e ficaram.
O texto pergunta,
com ironia mansa:
Era isso mesmo?
Às vezes dói reler.
A genialidade de ontem
vira eco vazio hoje.
Outras vezes assusta:
fui eu
que escrevi isso?
Sim.
Fui eu.
Naquele dia.
Com aquele peso.
Com aquela lucidez possível.
O texto não mente:
ele registra o movimento.
Escrever não acaba
no ponto final.
Começa
quando o autor
vira leitor.
Ali,
o texto também escreve.
Aponta.
Ensina.
Cutuca.
Não grita.
Mas fica.
Quem não relê
perde metade da aula.
Porque escrever é falar.
E reler
é escutar.
E quase sempre
é na escuta
que a gente aprende.
No fim,
eu queria ensinar alguém.
Mas o papel, paciente,
me mostrou:
o aluno
era eu.
“Soneto das Estações do Ser”
Quando te encontrei, nasceu primavera,
Brotaram flores no deserto da alma,
E o verão chegou com luz sincera,
Trazendo ao peito a mais perfeita calma.
És tu a lua que nas noites impera,
Guia celeste que meu caos acalma,
Farol que brilha quando a noite era
O vazio onde morria qualquer balma.
Sem ti, não há ciclicidade ou fluxo,
Nem o tempo cumpre seu ofício eterno,
Perco outono, inverno, até o luxo
De sentir renascer no que governo.
És tu a roda que ao meu ser conduzo,
As quatro faces do meu próprio inverno.
“Quando o Corpo Dança”
Há um instante em que tudo se aquieta e o corpo desperta para a música secreta que sempre existiu dentro das veias, esperando apenas que nos permitíssemos responder ao seu chamado antigo.
Então começamos.
Um pé se ergue, hesitante, depois o outro mais ousado agora e de repente não somos mais essa gente cansada, enrijecida, mas rios que finalmente encontráramos o caminho de volta para o mar.
Cada movimento é uma lembrança:de quando éramos crianças que giravam até a tontura virar riso, de quando o corpo era pura liberdadeantes que nos ensinassem a ficar quietos, comportados, contidos.
A dança nos devolve isso.
Nos devolve a nós mesmos.
Os braços se estendem como asas que redescobrimos ter,o quadril balança com aquela sabedoria que só o corpo conhece,os ombros se soltam liberando toda a tensão que acumulamos carregando o mundo.
E sentimos ah, como sentimos! o sangue correndo mais rápido,o coração batendo com mais vontade,os pulmões se enchendo de um arque parece mais puro, mais vivo, mais nosso.
Dançar é dizer sim.
Sim para este corpo imperfeito e perfeito,sim para esta vida que pulsa,sim para a alegria que não precisade motivos grandiosos para existir,apenas deste momento,desta música,deste movimento.
E nos fortalecemos não apenas os músculos que trabalham,não apenas o equilíbrio que se aprimora,mas algo muito mais profundo:a certeza de que estamos vivos, completamente, intensamente, maravilhosamente vivos.
Cada passo no chão é uma afirmação:estou aqui.Cada giro é uma declaração:existo.Cada salto é um grito silencioso:importo, valho, brilho!
Não importa se dançamos sozinhosou rodeados de gente,se há palco ou apenaso chão da cozinha,se há plateia ou somenteo olhar amoroso do espelho.
O que importa é esta rendição,esta entrega absolutaao prazer de habitar este corpo,de sentir cada músculo se alongar,cada articulação se flexionar,cada parte de nós colaborandonesta sinfonia de movimento.
E quando paramos,ofegantes e radiantes,com suor nas têmporase sorriso inevitável nos lábios,sabemos que acabamos de fazeralgo revolucionário:
Escolhemos a vida.Escolhemos o movimento.Escolhemos a alegria.
Porque dançar é isso é recusar a paralisia,é negar o entorpecimento,é afirmar com cada célula do corpo:enquanto eu puder me mover assim,enquanto eu puder sentir esta potência,enquanto eu puder celebrareste milagre de estar vivo,
eu danço.
E dançando,eu permaneço.E dançando,eu renasço.E dançando,eu simplesmentesou.
Quando as Cicatrizes Encontram um Propósito
Há quem passe a vida inteira tentando esconder as próprias cicatrizes, como se elas fossem manchas deixadas pelo fracasso, lembranças de uma batalha perdida ou marcas de uma fraqueza imperdoável. Vivemos em um tempo que exalta a perfeição e, por isso, muitos acreditam que a beleza está na pele intacta, na história sem rupturas, na alma que jamais conheceu o peso da dor.
Mas a vida, silenciosamente, ensina o contrário.
As cicatrizes não são o fim da beleza; são a sua maturidade.
Elas são a assinatura do tempo sobre aqueles que tiveram coragem de continuar caminhando quando tudo parecia desmoronar. Cada marca carrega uma história que o corpo talvez não conte, mas que a alma jamais esquece. Há lágrimas que secaram há muitos anos, mas que permanecem gravadas como rios invisíveis dentro de nós.
Durante muito tempo pensei que minhas feridas eram lembranças de tudo aquilo que eu gostaria de apagar. Hoje compreendo que elas são capítulos indispensáveis da pessoa que estou me tornando.
Porque existe uma diferença profunda entre viver marcado pela dor e viver transformado por ela.
A dor aprisiona quando se torna identidade.
Mas ela liberta quando se transforma em propósito.
É então que a cicatriz deixa de ser apenas memória e passa a ser missão.
Ela já não aponta para aquilo que nos destruiu, mas para aquilo que aprendemos a reconstruir. Deixa de ser uma prisão do passado para tornar-se uma ponte em direção ao futuro.
Talvez Deus permita certas tempestades não para celebrar o sofrimento, mas para revelar uma força que desconhecíamos possuir. A árvore que enfrenta os ventos aprofunda suas raízes. O ouro conhece sua pureza no fogo. O coração amadurece quando aprende que nem toda perda é definitiva e que nem toda queda anuncia o fim da caminhada.
Hoje não agradeço pela dor em si.
A dor continua sendo dor.
Mas agradeço pelo homem que ela me ajudou a formar.
Se minhas cicatrizes puderem impedir que outra pessoa desista, então elas já terão encontrado um sentido. Se minhas lágrimas puderem ensinar alguém a acreditar novamente, então nenhum sofrimento terá sido desperdiçado. Se minhas quedas fizerem nascer esperança no coração de quem já não consegue enxergar o horizonte, então minhas feridas terão deixado de ser apenas minhas.
Descobri que a vida possui um estranho e belo mistério: aquilo que quase nos destruiu pode tornar-se exatamente aquilo que nos torna capazes de sustentar outras vidas.
Hoje já não escondo minhas cicatrizes.
Olho para elas como quem contempla antigas cartas escritas pelo tempo. Cada uma me recorda que sobrevivi, que amadureci e que a graça de Deus não elimina todas as marcas da caminhada, mas lhes concede um novo significado.
E talvez seja esse o maior milagre da existência: perceber que Deus não desperdiça nenhuma lágrima sincera. Nas mãos d’Ele, as feridas tornam-se fontes de compaixão, as quedas transformam-se em degraus de sabedoria, e as cicatrizes deixam de contar apenas a história daquilo que nos feriu para anunciar, com silenciosa grandeza, a história daquele que jamais desistiu de recomeçar.
No fim, compreendi que não sou definido pelas dores que carreguei, mas pelo propósito que escolhi dar a elas. E é justamente aí que a esperança floresce: quando as cicatrizes deixam de ser lembranças do sofrimento e passam a ser testemunhas vivas da transformação da alma.
Entrelinhas
Ela diz que não gosta quando escrevo sobre ela.
Diz com a voz firme,
mas com os olhos curiosos.
É curioso isso:
quem não quer ser verso
não pergunta se é poema.
Ela passa por perto quando escrevo,
finge desatenção,
mas desacelera o passo.
Não lê,
mas tenta.
Não pergunta,
mas espera.
Existe nela um desejo discreto
de se reconhecer nas entrelinhas,
de descobrir se o segredo mora em alguma metáfora, se o nome dela cabe em sinônimos,
se o amor sabe se esconder.
Meus segredos ela conhece.
Não os detalhes,
mas a essência.
Sabe que quando escrevo sobre o vento,
é o jeito dela passar.
Quando falo de calma,
é o silêncio que ela deixa.
Quando escrevo sobre amor,
é porque não sei escrever outra coisa
que não seja ela.
Ela diz que não gosta,
mas pergunta.
Diz que não quer,
mas procura.
Diz que não lê,
mas sente.
E talvez amar seja isso:
respeitar o limite que a boca impõe
e continuar falando com o coração.
Se ela se reconhecer,
não foi porque escrevi sobre ela.
Foi porque ela sempre esteve
em tudo que eu escrevo.
“Ao avesso da pele”
Ao avesso da pele,
somos todos feitos do mesmo susto
quando a dor chega,
do mesmo brilho quando o amor acontece,
do mesmo medo de não caber.
Os olhos são iguais.
Choram da mesma forma,
reconhecem beleza do mesmo jeito,
buscam abrigo quando o mundo aperta.
O coração também não muda de cor.
Ele acelera,
falha,
espera.
E ainda assim,
o caminho muda.
Do lado de fora, a pele decide
o que o mundo permite.
Decide quem pode correr sem ser suspeito,
quem pode errar sem pagar caro,
quem é ouvido antes mesmo de falar.
É estranho perceber
que os mesmos gestos
ganham sentidos opostos
dependendo do tom da pele que os veste.
O mesmo silêncio pode ser respeito
ou ameaça.
O mesmo olhar pode ser curiosidade
ou culpa.
Não é o sentir que separa
é o olhar de fora
que escolhe não ver igual.
Ao avesso da pele,
ninguém nasce grande,
Ninguém nasce menor.
Mas o mundo insiste
em vestir alguns com medo
e outros com privilégio.
A injustiça não está no corpo.
Está na leitura equivocada
que fazem dele.
Talvez um dia
aprendamos a enxergar
para além da superfície,
a escutar antes de julgar,
a permitir que todos
tenham o mesmo direito
ao erro, ao afeto, à existência.
Porque se rasgarmos a pele
só em pensamento, só em verdade
o que aparece é igual.
E dói do mesmo jeito
quando é negado.
"A injustiça começa quando um pequeno mal é cometido em nossa presença e nada fazemos para corrigi-lo. O silêncio diante do erro é um ato de covardia; a verdadeira justiça não aceita a omissão."
Velho Amigo Pirata
Olhares voltados para um só lugar
Lugar que não se vê, mas existe
Que quando sonhado
Inspira menosprezar o próprio mar
E quanto encontrar tal Perola e toca-la
Momento se tornará musica, sem nota ou cifra!.
Contudo, velho amigo pirata
Já sinto as cordas frouxas e velas enfraquecidas
Espero desacordado, anestesiado pelas ondas
Desesperadamente calmo não conto mais os dias
Minha pele está ferida, rala e branca
E em minha mente, são raras tais lembranças...
O sentido de respirar que me hesitava já não existia
A derivação do espaço, era por algo que já não entendia
E eram tantos os dias, que simplesmente sorri, por algo que realmente sabia
Morri em busca da minha própria morte.
“Os ventos que atingem o foco do olhar,
São os mesmos que dizem quando parar.”
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