A negligência que encontrei na... Tiago Scheimann
A negligência que encontrei na infância não terminou quando deixei de ser criança. Ela aprendeu a crescer comigo. Mudou de rosto, de voz, de silêncio, mas nunca deixou de caminhar ao meu lado.
Há dores que não gritam; elas se infiltram na arquitetura da alma e passam a sustentar tudo o que somos. A minha fez do afeto um território estrangeiro. Nunca aprendi a reconhecê-lo sem antes procurar a ausência que costuma vir depois.
Por isso, amar, para mim, nunca foi um gesto espontâneo. É uma travessia sobre uma ponte construída com tábuas podres. Cada passo parece anunciar uma queda.
Mas existe algo ainda mais difícil do que amar.
É permitir que alguém me ame.
Há uma parte de mim que permanece escondida, como se tivesse sido convencida, ainda menino, de que carinho sempre cobra um preço e de que toda permanência é apenas um atraso para o abandono. Quando alguém tenta atravessar essa distância, meu primeiro impulso não é abrir a porta. É procurar a saída.
Talvez a pior herança da negligência não seja a solidão.
Seja a incapacidade de acreditar que um dia alguém possa olhar para todas as minhas ruínas e, ainda assim, decidir ficar.
Porque existem infâncias que não acabam. Apenas aprendem a respirar dentro do adulto que sobreviveu.
- Tiago Scheimann
