Uma Menina Simplesmente Apaixonada
ENTRE O SONHO E O DESEJO
Queria saber o que é.
Já faz algumas noites que uma energia masculina me visita,
deita-se sobre mim e, logo, o fogo toma conta.
Os movimentos rítmicos começam
e eu acordo ainda no mesmo embalo,
mas me vejo completamente só.
E o pior: acordo antes do final feliz.
Serão delírios? Sonhos lúcidos?
Ou apenas desejos reprimidos que, de tão sufocados,
não conseguem sequer se consumar?
Eu sinto que mudei.
Passei a ter uma confiança maior na mulher incrível que eu sou.
Antes fazia questão de me impor.
Hoje eu olho e penso: ah, tá!
E sigo.
Evoluir é necessário.
O certo e o errado sempre irão andar lado a lado.
A questão é de que lado que estar.
“A gente mostra o quanto ama uma pessoa quando coloca ela no presente e no futuro.
O valor de hoje parece ser aceitar erros de quem nem demonstra arrependimento.
Valores invertidos.
Quando a gente passa dos 40, a gente quer construir pontes seguras, não atravessar uma tábua no meio do rio.
O inferno não se impressiona com quem carrega uma Bíblia. A hipocrisia também sabe decorar versículos.
Sou uma fonte que transborda.
O problema é que, de tanto receberem de mim, muitos se esquecem de que até uma fonte seca, quando ninguém a alimenta.
"TODOS NÓS PASSAMOS EM ALGUMA FASE DA VIDA POR UMA SITUAÇÃO QUE SE COMPARA A HISTÓRIA DA UVA E DA RAPOSA: PODE SER NO RELACIONAMENTO, NO DESEJO DE UM EXCELENTE TRABALHO, ADQUIRIR UM BEM ETC. SOFREMOS PARA CONQUISTAR, MAS É UMA TAREFA DIFÍCIL:
"A RAPOSA BICHO INTELIGENTE, PASSANDO EMBAIXO DE UMA PARREIRA DE UVAS, OLHA PARA CIMA E AVISTA DIVERSOS CACHOS DÊ UVA AO PONTO DE DEGUSTA-LOS, DÁ O 1° PULO PARA PEGAR E NÃO CONSEGUE APANHA-LOS O 2°, 3°, NO 10°, JÁ EXAUSTA, OLHA PRA CIMA E DIZ: EU VOU EMBORA, ESTÃO VERDES" Ademar de Borba
A FEBRE
Quando o sol se despede,
uma chama se acende em mim,
não de calor do dia,
mas de um fogo que vem de dentro,
sutil, insistente,
que me envolve no escuro.
Durante o dia, rio e caminho,
o mundo me segura, me distrai,
mas a noite… ah, a noite
me consome como brasa viva,
sussurra meus medos,
faz dançar a febre que carrego.
Procuro a calma nos lençóis,
na respiração que estica e solta,
no silêncio que às vezes dói,
mas que me ensina a ouvir
a voz do meu próprio peito,
a poesia da minha febre,
que queima e revela
quem eu sou quando ninguém me vê.
No silêncio do abandono, existe também uma oportunidade de clareza.
Você percebe quem realmente se importa, quem respeita o espaço que você ocupa, e começa a aprender que vínculo verdadeiro não se compra com proximidade constante, mas com reciprocidade real.
É aí que a dor se transforma em força: ao invés de tentar recuperar alguém que escolheu outro caminho, você passa a se fortalecer na própria presença, na própria verdade.
"Às vezes, algo desperta em mim sem aviso.. Uma brisa que chega de repente, um cheiro que carrega lembranças que não sei nomear, um calorzinho antigo que tinha se escondido. É uma sensação sutil, quase secreta, que me envolve e me lembra de que há partes minhas que dormiam, e agora estão acordando só pra me fazer sorrir por dentro."
No peito há medo e coragem a pulsar,
uma mistura que não se pode negar.
O coração chama, quer se libertar,
a alma sussurra: “é hora de tentar”.
Buscar o novo não é jamais errado,
desejar horizontes é ato sagrado.
Amor é abrir portas, mesmo assustado,
mesmo com vento forte e caminho incerto traçado.
Você leva quem ama, cuidado e luz,
responsabilidade e esperança conduzem sua cruz.
Cada passo consciente, cada sonho que seduz,
amor que guia, que acalenta e reluz.
Muita gente se esconde atrás do “dar tempo”
como se fosse uma solução mágica.
Mas o tempo, sozinho, não resolve laços, não reconstrói afeto, não apaga mágoa.
Relação é feita de presença, de palavra dita, de atitude.
O “dar tempo” às vezes é só medo de encarar
o que precisa ser encarado,
e aí o que acontece? O sentimento esfria,
a pessoa se perde, o vínculo quebra.
Delírios e delícias
são irmãs siamesas.
Uma bagunça bonita que nasce quando a razão cochila
e o corpo assume o turno.
Delírio é imaginar sem pedir licença,
é criar mundos só para não caber no real.
Delícia é ficar, mesmo sabendo que passa,
mesmo sabendo que dói depois.
Entre um e outro, a gente vive.
Erra com gosto, sonha sem manual,
se perde um pouco só para sentir alguma coisa de verdade.
Porque no fim, o que salva
não é o equilíbrio.
É essa vertigem breve
que faz a vida ter sabor.
Toque de Abrigo
Foi um gesto pequeno,
quase nada pra quem olha de fora.
Uma mão que encosta,
sem pressa,
sem pedido.
O corpo estranhou primeiro.
Como quem abre uma janela
depois de muito tempo fechada
e esqueceu como o ar entra.
Ela quase dormiu.
Eu quase lembrei
que o toque também pode ser descanso,
não só alerta,
não só defesa.
Não houve promessa,
nem história,
nem nome pra dar ao momento.
Só presença.
E nesse silêncio compartilhado,
meu corpo entendeu antes de mim:
nem todo contato fere,
nem todo afeto cobra.
Às vezes,
tocar alguém
é só isso.
Um intervalo de paz
no meio da resistência.
Boletos
O preço de querer uma vida simples
não vem em parcelas suaves.
Ele cobra
a ausência do barulho conhecido,
a distância de quem sabe seu nome
mas não sua história.
Escolhas têm seus próprios boletos.
Não vencem no banco.
Vencem na carne.
Pagam-se na raça,
na força que sobra quando não há plateia,
quando o mundo decide cair em volta
e ainda empurra.
Às vezes o empurrão mira um poço sem fundo.
Mas quem aprende a cair em silêncio
descobre no escuro
o próprio chão.
E segue.
Não porque é fácil,
mas porque voltar
custaria mais caro.
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