Uma Menina Simplesmente Apaixonada
introspecção
O que é mais triste que uma noite fria e chuvosa? Mendigos nessa noite...
O que é mais triste que despedidas? A solidão
O que é mais triste que uma criança faminta? A sua mãe
SENTINELA
A madrilenã é uma guerreira de pele tão branca
Que me passa lembrança de outros planetas,
De estações repletas de borboletas,
De memoráveis outonos em Florianópolis,
Vejo-a com a espada incandescente,
Cavalgando às savanas, destroçando dragões e alienígenas,
Galopa num puro sangue árabe,
Enfrentando espúrios e tiranos,
Que violaram leis e mancharam de rubro de sangue,
A honra dos espanhóis...
Voa no seu cavalo com a magia dos bruxos e o poder dos deuses,
Ela é a sentinela do sistema solar,
Vigia a via láctea, protege o brilho das estrelas,
Ela mergulha no mar com seu corcel,
Conversa com o polvo e com as baleias,
Canta com as sereias,
E renova o desejo e o encanto de amar
Pra se entregar nos bosques
Ao prazer e a magia delirante de ser mulher apaixonada e frágil...
LUAR
Esse encanto que aos apaaixonados engana,
Semeando a fantasia de uma noite eterna de amor,
Que aos poetas românticos, que juram que amam
Mas se embriagam e se esvaem na desilusão da dor,
Boêmios profanam a noite pelo vicio,
Às noites, se desintegram no brilho das estrelas,
E os vampiros, os lobisomem, os predadores,
Notívagos com a aurora se transformam em borboletas...
Nos meus desalento é contigo que eu conto,
Solitário que sou, sob a tua luz se derramam
Minhas fáceis angústias, meus raros medos...
Acreditar no amor não faz de mim um tonto
Pois os incautos e os brutos também amam
À paixão se entregam e não fazem segredos.
solidão
A solidão é transparente...
É parente da saudade
É prima de uma prima ausente...
A solidão é irmã de quem não veio,
Amiga de quem faltou,
A solidão é multidão em lugar nenhum...
Moveis empoeirados, teias de aranhas
Catando assombração...
Passos no porão...
Um gotejar inoportuno madrugada afora...
A solidão é um riso sarcástico na lembrança,
É uma lembrança fugaz de um doce momento,
É vulto passando, e cortina balançando com o vento...
A solidão me fez poeta,
E cria espaços, mas me aperta contra a parede,
Mostra-me um mar de desejos
E me mata de sede...
A solidão mente,
Diz que eu posso voar da cobertura,
É uma ternura delinqüente
Me oferecendo chocolates com cianureto
pântano
Algum dia serei uma floresta com todo seu mistério
Moleque saci, curupira, caipora, lobisomem...
Então serei riacho com águas cristalinas e pouca profundidade,
Algum dia serei uma cidade com seus viadutos e arranha-céus
Algum dia serei o mar com suas sereias e todo encanto divino,
Algum dia serei poeta com o coração empenhado
Por meia dúzia de olhares, sofrendo por amor e paixão...
Então desejarei novamente ser pântano triste e sombrio na minha solidão...
OUTRAS NOITES
Depois vem outra noite dentro da noite
Uma lua crua feito queijo coalho
Cheia de crateras.
A coruja pia, o sapo coaxa
As moças estão nas praças
Com seus vestidos de babados
E lábios de morangos e cerejas
Na noite de meia lua
Um eclipse remete-nos a um apocalipse..
O queijo coalho esta na mesa,
A bíblia esta aberta sobre o criado mudo
Gênesis, o começo de tudo
E Deus disse haja luz
E surgiram estrelas
Mas um dia seu filho morreu na cruz
Então vieram outras noites,
Outros Barrabazes e queijos suíços...
Depois disso, noites e mais noites...
Depois vem outra noite dentro da noite...
E um ciclo!!!
BRISA SUAVE
Quando o fogo consumiu
O corpo de Joana D’Arc
Uma brisa suave soprou
Para aliviar todos os espíritos,
A dor de todas as almas,
Que viram suas glórias
Nos campos de batalhas...
Aquela cinza se espalhou
Sobre o solo francês,
Germinando bravos guerreiros...
Sua espada brandiu em outras mãos,
Venceram outras batalhas,
Fazendo surgir uma França
Justa e gloriosa...
PAR DE ASAS
Tem uma assembléia de ratos no porão,
Uma congregação de fantasmas no corredor
Tem uma lembrança se desfazendo,
O tempo fenecendo,
Um femeeiro fornicando;
Eu tenho o medo
Como escudo para todos os males,
Tem zumbis nas esquinas,
Tem uma criança galopando num hipopótamo,
Porcos dormindo sobre pétalas de rosas
E um elefante se equilibrando
Sobre as hastes de uma videira ,
Tem a erupção de um vulcão na sala de estar,
Uma lagoa na cozinha,
Meteoros caindo no quintal, fogo no canavial...
Mas a minha caneta mágica
Cria um par de asas,
Um tapete voador e um horizonte,
Me faz flutuar e exorcizar todos os demônios...
MAIS DE MIL ANOS
Quando ela se nivela ao horizonte,
Como se o seu corpo
fosse uma gangorra, sob as luzes solar
eu penso que as cores do crepúsculo,
são adornos divinos,
para momentos bem íntimos
quando ela se espreguiçou
como se o mundo dormisse mil séculos
meu latim perdeu o sentido
meus músculos dormentes
meus ósculos dementes
pediam seus cálidos lábios
usei de meios espúrios
fiz promessas lhe ofereci a penha
com o templo lá em cima
e todos os sacramentos,
seus cálices de ouro e pedras preciosas
transbordando de um amor sublime
então ela se inclinou
e tingiu tons de pink e lilases
nos travesseiros de nuvens
e nos balançamos por mais de mil anos...
OUTRA DIMENSÃO
Mas uma manhã se foi e o brilho dourado dessa aeronave vai ficando fusco, vou deslizando tonto nesse verde musgo desaprendendo lentamente a crer, querer e a ter fé. Camiho entre lápides de epitáfios saudosistas e originais numa névoa irreal de um labirinto que se confunde comigo mesmo; faz tempo.
Tenho a lembrança de um casamento, pessoas jogando arroz na entrada de uma igrejinha de uma pacata cidade interiorana, abraços e desejos sinceros de uma felicidade eterna; eu que sempre busquei e questionei o que era felicidade; naquele momento acho que era feliz. Agora atrás da roseira, percebo laura, seu amante, seu idílio e até “guy”, o pastor alemão, amigo fiel, nem percebe a minha presença.
Heloísa falou-me de uma outra dimensão... caminha sempre ao meu lado e só se veste de branco... não sei se ela fugiu de algum asilo, ou talvez eu não tenha capacidade para compreendê-la; ela tirou-me do mangue e conduziu-me ao pântano; propôs-me um plano superior e apontou-me as montanhas, prometendo-me fontes de luzes.
Ainda não entendo direito o que se passa, de vez em quando vejo pessoas que há muito eu não via, todas se vestem de branco; vi jairo melancólico, solitário e pensativo, sob uma árvore; olhou-me como se nunca tivesse me conhecido, logo ele que era o melhor dos meus amigos. Ao anoitecer volto ao vale onde existem mausoléus, capelas e túmulos, ali a lembrança de Laura se acentua, percebo ainda em mim um certo rancor por tudo o que vejo; heloísa some como por encanto e, da mesma forma, surge ao amanhecer. Com a luz da aurora, momentos do passado se acentuam, percebo uma laura carinhosa e apaixonada sua barriga saliente confessa uma gravidez e a cumplicidade que me traz saudade, tenho uma visão bem clara; dois individuos nos abordam numa esquina, o mais baixo tem uma arma apontada para Laura, eu me inteponho entre eles, a arma é disparada, ainda vejo o desespero de laura, tento consolá-la, mas ela não me percebe; há um aglomerado de pessoas ao redor de alguém, Laura chora inconsolável... alguém menciona o meu nome; estou caído numa poça de sangue.
Na outra dimensão, estamos sobre a montanha, eu e heloísa que confessou-me ser um anjo de luz e ter escolhido este nome em homenagen a minha filha e de laura, nascida depois que desencarnei naquele assalto... um novo sentimento invade o meu ser,percebo que tenho que ir.
Vejo Jairo na ponta de um penhasco, ele mergulha sobre um mar de luzes, é o nosso último ato de fé.
Não tenho medo de grandes estrelas
De uma forma ou de outra
Eu ajudo a construir o céu e o inferno
Sou passageiro como um cometa
E como as desilusões sou eterno
AVESSO
Depois do horizonte
tem outro horizonte,
tem uma fonte,
tem outros verbos,
então o sol se põe
e repousa preguiçosamente...
Esperando Ícaro
e a sinfonia da tarde
arde nas penas
dos que são passarinhos
outros versos,
displicentes, dolentes, incandescentes...
a tarde desfalece,
alguns poucos raios,
um aceno, um ensaio de luz
e de cores quentes...
depois das tardes,
tem outras auroras
no outro lado do planeta,
que é o avesso do crepúsculo...
outros Ícaros outras sinfonias...
Criar novos verbos,
alimentar novos crédulos...
inventar novos deuses...
O amor nos conduz por uma trilha
com o perfume das manhãs primaveris
e as matizes douradas dos verões...
o amor nos ensina com as sinfonias
dos pássaros e da brisa,
com a paciência de séculos
e com a sabedoria da natureza...
o amor nos fortalece com os invernos,
com as montanhas, com a força dos oceanos
e com as dificuldades da vida...
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